sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

N A T A L 3

Resultado de imagem para peúgas clipart"O terceiro* momento Natal,
talvez o mais embaraçoso de todos.
Na fila para a caixa
de uma loja de roupa.
Enquanto espero,
afasto uma cruzeta,
para espreitar uma sweatshirt brilhante de menina.
Uma senhora acusa o toque.
"Oi! Isso daí é meu!"

desculpe
"num tem mau!"

foi sem querer
"num tem problema!"

não sabia que era seu
peço mesmo desculpa
não me tinha apercebido
"ai, não se preocupe, não!"


(balbucio, balbucio, balbucio...
E de súbito apercebo-me que já me desculpei de mais
e então justifico-me por me ter justificado tanto!)

desculpe a minha insistência
mas esta sociedade é tão do litígio
que a gente nunca sabe quem vai encontrar...

"é, eu sei, mas eu sou da paz, Viu?
Que Deus te abençoe e à tua família!"

Aquela benção apanhou-me de surpresa.
Encheu-me os olhos de lágrimas
sem que soubesse de onde vinham.
Então, aquela senhora toda doçura
descobriu a minha mão que segurava pantufas, peúgas  e pijamas
tocou-lhe com ternura e disse-me:
"Olhe, bendito seja Deus por este momento.
Ele colocou você e eu hoje nesse local
e a essa hora
para a gente se encontrar.
E que bom que foi, não foi?"

Eh, pá!
Foi!

Graças a ele
ou à Nossa Senhora das Compras de Última Hora
ou às alterações hormonais daquela fase do mês
ou à nossa predisposição para comunicarmos uma com a outra.

Interessa pouco.
Na realidade, ali se fez Natal, sim.
Lembrando-me que o seu sentido é este mesmo:
a empatia e a conexão ao próximo.


*
o primeiro lê-se aqui
o segundo aqui

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

N A T A L 2

O segundo* momento de Natal que tive
antes de ser Natal no calendário
foi no dia 23.

Queria muito agradar a uma pessoa.
A vida nova à beira-mar
trouxe o sal do mar
e a doçura desta nova amiga.

De vez em quando,
entre outras coisas,
tomámos um cafezinho
de fugida
à semana
depois de deixarmos os filhos nas escolas,
no cafezito junto à biblioteca municipal
e ao serviço dela.

Por tudo isso,
lembrei-me.

Gosto mesmo desta pessoa.
A prenda ideal é estarmos juntas.

Fui ao dito estabelecimento;
paguei doze cafés;
escrevi um postal
e fiquei muito feliz
porque ali está o compromisso
de que, pelo menos,
nos veremos uma vez por mês!



* sobre o primeiro escrevi aqui

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

N A T A L

Hoje ainda são 24
Resultado de imagem para natal.clipart"e, para mim,
o Natal já aconteceu três vezes.

Hesitei em escrever este post

porque

"que a mão direita não veja
a esmola que a esquerda deu!"

No entanto,
decidi partilhar.
Escrever.
Porque
o verdadeiro espírito de Natal é este,
e a verdade é que ele é mesmo todos os dias
dentro do nosso peito
na entrega ao próximo
no dia-a-dia
sempre que ela surgir.

Soube de uma família.
Desempregados
quatro crianças
duas doentes
todos na eminência de um despejo
sem comida na casa que ainda o é.
Urgência em receber o cabaz de Natal da paróquia
porque trazia a lata de salsichas e de atum
para a refeição seguinte.

A gente sabe que há fome no mundo.
E pobreza.
E carência.
Mas,
cruelmente
hipocritamente
desumanamente
se ela não tiver um rosto
não nos dói.

Fui à família.
Era uma aldeia recôndita.
Chovia torrencialmente.
Perdi-me para os encontrar.
Encontrei.
Levei comida só
e humildade.
Senti-me tão pequena
naquela união de almas.

A pousar a palete de leite,
a despejar três sacos cheios
e a pensar que era tão pouco
como se haviam de governar com
a minha boa vontade
seis pessoas inteiras:
dois adultos
um adolescente
que me ajudou com os sacos
escada húmida acima,
um miúdo que me recebeu de chapéu de soldado,
uma miúda bronquítica tombada de manta no sofá
e uma bébé ranhosa e chorosa
de fralda mal mudada ao colo de uma mãe
inchada no abdómen
do pós-operatório à vesícula.

Do supermercado, tinha ligado a perguntar
se tinha arca ou frigorífico
que podia eu levar
de que precisavam.
"De tudo. Só tenho massa e arroz"

Levei, de impulso:
azeite, batatas, cebolas,
pão, queijo e manteiga,
pescada e bróculos congelados,
duas paletes de febras, uma de perú,
duas pizzas, alface,
leite, cereais,
iogurtes, croissants recheados
uma pasta de chocolate familiar.

"Ah trouxe pão! Obrigada!
Nós às vezes também vamos ao pão
há aqui uma padaria perto"

Penso:
às vezes?
como assim, às vezes?

Venho-me embora.
Mais angustiada com aquele "às vezes"
do que satisfeita com o desta vez.

Não adormeço tranquila.
Mas sinto que se abriu mais cedo
o Natal em mim.
Não foram rabanadas.
Foi dádiva.










quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A escola que é uma selva ou a parábola da inclusão


O XXXX, 
que na sua curta escolarização
já teve várias siglas: 
NEE
(necessidades educativas especiais); 
PEI
(programa educativo individual), 
RTP
 (relatório técnico-pedagógico),

não faz ideia do que seja uma sigla!

Aliás, 
mal reconhece as letras!

Alheio a etiquetas,
limita-se a ser criança!

"Não aprende como os outros":

Pois não.
Não aprende as mesmas coisas do que os outros
Nem ao mesmo ritmo.
E quê?

"É um menino especial."
(Não são todos?)

"Nem se percebe por que razão tem testes adaptados
assim até tira Bom!"

Pois é.
Tira Bom POR CAUSA DISSO.
óptimo!
a ideia não era mesmo essa?

É a lógica dos óculos.
Vê mal. Damos-lhe óculos.
Já vê bem. É tirar-lhos!

Faz lembrar a famosa parábola dos animais da selva.
Vão todos a exame.
A prova consiste em subir à árvore.
O macaco fica contente.
O elefante não. O peixe muito menos.
Dêem-lhes a vida toda que nunca conseguirão subir.

"Não aprende como os outros"

Pois não!




quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Camisola laranja

"Tão linda, gostas?"
"Fui eu que tricotei!
Fiz num instante, numa tarde!
Chovia tanto, fiz num instante!"

É sempre cedo de mais para perdermos a nossa mãe.
Mesmo quando já não tem força para nos dar colo,
ou quando já nos ouve mal
ou quando já mal nos ouve
levada para um íntimo sonambulismo
cardado e impermeável.

"Era laranja, 
a malha da camisola!"

A gente qué-la connosco.
Mesmo assim.
Mesmo sem conseguir verbalizar que nos ama.
Porque os tubos da doença a impedem
ou porque as palavras se perderam dentro dela
num labirinto indecifrável
e saem num eco-eco-eco-E-CO
desconexo.

"Já te contei que uma vez tricotei uma camisola laranja?"

A gente não quer perder
aquele fio da primeira voz que nos falou ao ouvido
aquele murmúrio dos tempos em que éramos meninas
aquela vida que nos deu vida
nem quando já só é um fantasma de amor.

"e daquela vez que eu fiz uma camisola laranja para a minha filha?
Sabes que eu tenho uma filha, não sabes?"


domingo, 15 de dezembro de 2019

Registo para memória PRESENTE

A preencher estes documentos para os encarregados de educação dos alunos.

A fazer acrobática linguística
para dizer em eduquês
o que apetecia escrever em emocionês.

Pudesse escrever com a alma!

Nesta, por exemplo, escreveria assim:

Síntese Descritiva:
A XXXX é uma aluna meiga, de letra pequenina, gestos contidos e voz quase inaudível.
A voz é surda, mas os olhos gritam.
É franzina e magrinha, mas dá abraços muito demorados e com força.

Compreensão oral - 
Entende (e entendeu, desde pequena) a linguagem dos desafectos que os adultos de referência sempre expressaram um com o outro. Consegue escutar os gritos dois quartos mais à frente, numa madrugada, e entende que o pai se quer divorciar da mãe porque ela mostrou as pernas no Facebook.

Interacção e produção oral - 
Expressa, com palavras e lágrimas, uma profunda tristeza em relação ao lar separado, desorientação quanto a rotinas em duas casas, ansiedade com novos progenitores, ciúmes do novo meio-irmão, solidão e carência em todo o lado. Produz frases simples, mas complexas, do género: os meus pais não têm tempo para mim; estão sempre no telemóvel.

Leitura e escrita-
Não tem nada para dizer nas composições; não lhe apetece escrever frases, muito menos sobre situações imaginárias que as professoras inventam. O mundo da imaginação da  XXXX já não tem unicórnios, nem arco-íris.

Aspectos a melhorar:
Participação
(dos pais),
Comportamento
(dos pais),
Concentração
(dos pais)
e ritmo de trabalho
dos pais!

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Aprender com quem é grande

Ontem o M teve teste de inglês.
Um teste igual ao dos outros meninos.
O mesmo número de perguntas, a mesma tipologia de exercícios, sem ajudas adicionais, nem tempo extra para as tarefas. Apenas estava eu ali, ao lado dele, se necessário fosse- que ele não deixava ser.
Acho que só fui verdadeiramente útil num momento em que lhe caiu o lápis ao chão. Pediu-me delicadamente e por favor que o apanhasse. Aparentemente sem se zangar com a cadeira de rodas, ao contrário de mim, que lhe chamei estúpida, atrapalhas mais o miúdo do que o que ajudas.

Também me voltei a zangar e roguei pragas internas, uma vez mais, ao estúpido micróbio ou bactéria ou raio que parta o infinitamente pequeno e poderoso que tingiu esta infância.
Foi no momento em que o M resolvia o exercício de compreensão oral (listening).
Ele compreende tudo; escuta, identifica e entende instruções na LE, como é suposto nesta fase.
No entanto, para ele, a dificuldade é acrescida.
Não linguistica nem cognitivamente, mas em termos motores.
Tem de se digladiar com os lápis de cor; trocar de lápis com a mão esquerda que agora usa para escrever e colorir, uma vez que a direita, que era a dominante) jaz ali, inútil, quieta, vestida com uma corrente de couro verde que serve para, pelo menos, não se encorrilhar.
Maldito microorganismo!
Mas meteu-se com o menino errado.O M é um lutador.
Nenhum deste desalento que escrevo é dele ou pelo menos me foi alguma vez expresso por ele.
Tudo isto são indigestõezinhas emocionais minhas.
Ele, não.
Escuta. Atento, ávido. Agarra a cor, pinta; troca de lápis; por vezes, morde a língua de esforço, como qualquer criança.
Um exemplo de garra, o M. Quando vem para a escola, de tarde, já fez umas poucas horas de fisioterapia. Bravo guerreiro.

A páginas tantas está a ordenar umas palavras, para construir uma frase correcta. Aponto-lhe para "favourite", aceno que não com a cabeça, que ali não é o lugar certo daquela palavra. 
Ralha-me: "Qué no! Si me dizes lo que debo contestar voy a sacar Muy Bueno en la prueba!"
(como se ele precisasse de mim para isso!)

Eu juro!
Juro que não lhe tinha dito mais nada, que aquilo foi um acto quase irreflectido, que não lhe dei resposta alguma, apenas indiquei que estava errado e juro que não era minha intenção favorecê-lo. Expliquei, tentei explicar, mas  o nosso herói foi contundente: "No me ayudas!" 

Pois não, M!
Deus sabe!
Ajudas-me tu a mim!
Nesse exemplo de rectidão, valentia e esforço.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Integração Sensorial

A imagem pode conter: 3 pessoas, texto

Hoje fui a uma palestra sobre Integração Sensorial no Contexto Educativo.
Foi extraordinariamente pertinente e enriquecedora.
Conceitos bem definidos, exemplos e muitas ideias práticas para a sala de aula.
Considero que este tema deveria ter maior notoriedade e parece-me incrível que esteja ausente dos currículos de formação de professores e educadores actuais.
Eu fiz dois cursos via ensino e precisei de ser mãe e andar a navegar na net para ouvir primeiramente o conceito. Muitos professores ainda têm apenas conhecimento dos cinco sentidos tradicionalmente ensinados na escola, nunca ouviram falar do propriopercetivo nem do vestibular e estão a anos luz do entendimento que disfunções a esses níveis podem ter nos seres humanos que têm à frente nas salas de aula.
Escreverei um post mais alargado sobre isto, um dia destes. 
Por hoje, o conceito básico: há meninos a quem um sistema de processamento sensorial desregulado altera a vivência e a percepção do mundo real. Os estímulos sensoriais à sua volta (cheiros, ruídos, cores, movimentos, sons) emitem sinais poderosos, não processados, que funcionam como uma agressão. 
Estar numa sala com mais vinte e tal crianças, nestes casos, é um desafio evidente. Estar sentado, focar-se, copiar do quadro, escrever em cima de uma linha (entre muitas práticas escolares) é um contexto muitíssimo exigente.
Como profissionais não poderemos, talvez, fazer muito quanto à organização dos espaços e mobiliários facultadores da estabilidade destas crianças. Porém, a nossa consciencialização para estas questões pode, por exemplo fazer-nos ser mais empáticos com a Sarinha que rói tudo o que é borracha e lápis ou com o Miguelito que se senta com as pernas em W. Pode haver uma razão sensorial - fisiológica- para este tipo de comportamentos, que, até agora, sancionávamos como desajustes comportamentais. Tomar consciência, ajudar-nos-á mudar a perspectiva de punir para ajudar.

domingo, 10 de novembro de 2019

Funny Little Thing

Hora de almoço.
Entro num supermercado junto à escolinha para ir comprar uma água,
vejo um aluno meu acompanhado da avó
e antes que tenha tempo de me dizer éloutxitxa
"Olha quem ele é! Já arranjei quem me pague as compras!
Um aluno que gostaria de ter Muito Bom!!!"
A menina da caixa sorri do gracejo.
Ouço a avó sorridente a dizer que eu sou simpática.
A cena passa. Compro a água. Vou à vida.

Na aula seguinte, já esquecida de tudo isto,
o miúdo vem ter comigo,
de sorriso muito cúmplice e maroto,
estende-me uma moeda
(tenta ser discreto, mas está eufórico)
"Aqui está, para aquele nosso negócio!"

Pinta de garotos!
Sentido de humor e à vontade com os adultos.
E acho que, a troco de uma piada inocente
quem ganhou fui eu!
Não a moeda, o miúdo!😉

terça-feira, 5 de novembro de 2019

DEZANOVE!!!

Resultado de imagem para teenager pile of books, free clipartÉ muito raro, mas, de vez em quando, cruzamo-nos com um aluno cujo estilo de aprendizagem combina muito com o nosso estilo de ensino, ou cuja etapa desenvolvimental se enquadra no nosso momentum, ou simplesmente cujos ouvidinhos deixam entrar o que temos para lhe dizer. 

E então, lentamente, passo a passo, desabrocham e os resultados surgem.
É uma alegria extraordinária! 

Eu recebi um catorze desconsolado 
que queria muito ultrapassar a mediania 
e atingir a excelência. 

Levou-nos um ano; trabalhou tanto!!!
Infelizmente não opero milagres 
e só conheço esse árduo caminho para o sucesso académico 
- o trabalho. 
Trabalhou muito, frustrou várias vezes; 
fui ajudando também nessa parte, na confiança e perseverança. 

Hoje o catorze foi dezanove e umas décimas. Ficámos contentes!

No barulho da escola de massas, em que tantas vezes nos digladiamos em ajudar os sofríveis, esquecemo-nos, por vezes, destes saltos meritórios de empenho, resiliência e esforço.

Já sabemos que as notas valem o que valem, 
que o adolescente, a pessoa, 
é mais do que aquela classificação ou número, 
mas como contornar o facto de que esta conquista numérica 
é um sucesso, uma vitória, um progresso 
- não apenas em termos académicos, mas também de crescimento pessoal. 

Eu assisti (mais do que isso, monitorizei, acompanhei, estimulei) ao vocabulário a expandir-se, ao domínio progressivo de técnicas de escrita, de leitura e de expressão oral. Mas também vi crescer a autoconfiança, a tolerância ao erro, a tomada de consciência das fragilidades, a motivação, até a maturidade.

Tudo isso me enche de orgulho. 
É um privilégio trabalhar assim.
Parabéns lutadora!


terça-feira, 29 de outubro de 2019

Tesoura realmente cortante

Resultado de imagem para tesoura clipart

Faço coadjuvação numa turma grande, que acolheu um menino particular.
Coadjuvação significa que outro colega dá a aula e eu estou lá para ajudar. 

Neste caso, vou dando um empurrãozinho aqui e ali aos meninos com dificuldades, mas sento-me, maioritariamente, ao lado da cadeira de rodas do  M e vou monitorizando o trabalho dele a inglês. 

Depois de duas ou três aulas, logo percebemos que o M é perspicaz, desenrascado e que tem um vocabulário de inglês que, de momento, prescindiria do meu apoio, mas a verdade é que eu gosto mesmo de estar ali com ele e é ele quem me ensina tanto! 

É um menino bem humorado, persistente, que insiste em fazer as suas tarefas sozinho, portanto eu vou acompanhando e vamos arrancando sorrisos um do outro, no nosso cantinho, lá atrás, onde resolvemos os exercícios todos e ainda brincamos muito com uns ímanes que eu trago no estojo.

Na verdade, na mesa ao lado, senta-se um outro, que recebi no ano passado, vindo do Brasil e mal sabia ler. Progrediu muito, mas apesar de estar no terceiro ano, ainda luta com as letras. E outro que também veio daqueles lados do Atlântico e cujos pais trabalham nuns turnos malucos, razão pela qual ninguém lhe vigia as horas de sono e ele vem sonolento para a aula. A colega de carteira, de uma beleza a lembrar ascendência amazónica, esteve ali dois meses a escutar o txitxo sem trazer livros nem cadernos, por mais que apelássemos a que arranjasse, pelo menos, um cadernito qualquer. 

Por tudo isto, como se vê, há sempre pano para mangas, embora eu me debruce mais no meu M.

O M era um miúdo como os meus filhos. Há um ano apanhou um vírus e ficou assim. Com a fala algo comprometida, na cadeira, sem mover a mão direita, de fralda. 

No outro dia estava a aparar uma ficha para ele colar no caderno e ele, como de costume, pediu-me para ser ele a fazê-lo. Se calhar erradamente, mas com receio que se magoasse, disse-lhe que eu ajudava e que podia pousar a tesoura. Pelo contrário, ficou com a tesoura na mão, a fixá-la algo demoradamente. Estranhei, pois costuma ser muito colaborante.
Insisti que podia magoar-se. Deu voz ao  que lhe passava na cabeça.
"Dantes, eu era capaz de recortar umas formas numa folha dobrada a meio e depois, quando se abria ficava assim tudo tipo rendilhado."
Disfarcei. "Sério? Que bonito! E isso é difícil!"
E ele:"Dantes!"

Nunca tinha visto uma tesoura cortar tão fundo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Perplexidades

O cancro é fodido,
ponto. 
Morrer precocemente, 
deixando filhos pequenos e uma mulher que ama, 
é brutal, incongruente, chocante, dilacerante e absolutamente insano. 

Não faz sentido nenhum. Estamos todos de acordo.

Justiça divina, se a há, é muitíssimo ininteligível nestes momentos. Um gajo zanga-se com Deus.

Ainda hoje, ao pé do Náutico, na Póvoa, vi um farrapo humano, um concentrado de fatalidades e expoente máximo de probabilidades de morte- toxicodependente, escanzelado, tuberculoso, frágil, a cair... e que resiste. Não é que a vida humana não me mereça respeito, até nessas formas limites, mas dá que pensar: como é que esta pessoa se aguenta e o meu vizinho do lado, sem comportamentos de risco, sob um tecto, com alimentação regular, higiene e cuidados de saúde... sucumbe?

É pá! 
Da-se!

E, todavia, esta tragédia aproximar-me de alguém, fazer-me sentir sentido, fazer-me sentir pertinente nesta centelha de tempo e espaço que o acaso nos fez vivenciar... a dor trazer-me uma amiga...

A minha cabeça não entende, mas o meu coração enche-se de amor e sente uma razão para ali estar.
 Não compreendo, mas mesmo assim, Aceito e agradeço.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Camisola (pouco) interior

Resultado de imagem para white sweater girl, clipartTransitar de uma escola para a outra, a tentar saborear o calor outonal, mas com a cabeça a martelar mensagens e alertas. Hoje, especialmente, aquela camisola interior

Miro uma montra de esguelha para fugir ao assunto; que giro vestido, dava-me jeito umas sapatilhas destas da moda, agora que ando tanto a pé e aquela saia de pregas, que linda!... mas este mês não convém, este mês foi renovar o guarda-roupa dos miúdos, passam o verão semi-nus e descalços, começa a escola, nada lhes serve, raisparta! Como farão as famílias com muitos... e com menos... e volta-me à cabeça aquela camisola interior

Estavam quase trinta graus; eram três da tarde, quatro?, cruzo-me com as fedelhas no recreio. 
Meto conversa, gabo as sapatilhas de uma. Diz-me que são Sketchers. Gosto, são fashion!, digo-lhe. As outras reclamam atenção, esticam a ponta do pé, e as minhas txitxa?, 
tenho de adorar todas as da roda, vou percorrendo com os olhos: as tuas também são fixes, e estas, pretas, que must! Chega a vez dela e ela ri-se e desculpa-se "as minhas são cagadas" - digo que é normal, são crianças, é de brincar e que faz muito bem em brincar e ser feliz.

Aquilo passa. Vou dar uma aula.  Sem me lembrar mais de nada. Sem ter consciência.

Mais tarde, quando a vejo na aula, reparo

A sala de aula transpira, o sol bate de chapa e está mesmo abafado, apesar das janelas escancaradas. Ela vem ter comigo à porta, aos pinotes por me ver (!) e só aí reparo na 
camisola interior surrada e curta nas mangas. 
Pergunto se não tem calor, se não trouxe mais nada por baixo (às vezes são eles que não têm noção da temperatura, nem discernimento para vestir ou despir de acordo). Diz-me que não e gruda-se num abraço.

A meio da aula, já não me lembro de nada disto e zango-me muito com ela. Porque me pede uma caneta para escrever e percebo que ainda não fez nada nesta aula que já vai a meio. 
E os outros começam de acusa-cristos (que nada me agrada) a explicar que ela tem estojo na mochila, mas não tira por preguiça.
Vou ter com ela, 
averiguar se há ou não estojo 
e só aí, ao espreitar para a mochila muito gasta e muito usada
percebo!

Tem estojo, sim, está ali ao fundo
tem vergonha
não é novo
nem colorido
nem tem nenhuma bonecada de princesa e heróis
do marketing didático  pago a peso de ouro.
Tem vergonha.

De repente, tenho EU vergonha de lhe exigir fosse o que fosse.
De repente, o estojo rima com as sapatilhas "cagadas".
Sapatilhas que são cagadas, não que estão.
De repente, estojo escondido e sapatilhas cagadas
rimam com camisola interior surrada.

E eu não gosto da rima que me martela o cérebro até estas horas da noite.


terça-feira, 1 de outubro de 2019

'dnhêrónesto

Imagem relacionadaEstou sentada à secretária adiantando o sumário 
enquanto eles vão entrando às pinguinhas, 
porque foi intervalo de almoço, 
estiveram a correr muito 
e agora se lembram 
que querem beber água, 
ir à casa de banho 
ou que têm de lavar a cara e as mãos que a txitxa não gosta que entrem a escorrer suor.


Espetam-me um cachucho gigante,
a brilhar no ouro e na pedra rubi,
mesmo em frente do nariz:

"Gostas da minha prenda txitxa?"


De repente, não sei bem o que dizer para ser honesta sem  ofender o meu ciganito preferido,
mas rapidamente me lembro que na cultura dele valorizam muito aquele tipo de jóias e, na verdade, até lhe fica bem.

"Uau! Que grande! Fica-te mesmo bem!"

"Foi o meu avô que me deu nos anos e este não é da droga!"


                                                                                                                                         #falamdemais

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Migalhas

Resultado de imagem para lady lying on sofa free clipartHá dois tipos de pessoas:
as que se incomodam com as migalhas e as que não.

Como em tudo na vida,
não há absolutos:
umas não são melhores que outras
o que funciona para uns,
faz outros infelizes.

Um dia tive a seguinte interacção com a minha mana:

Ela - Ouve lá! Tu, se estiveres sentada no sofá e vires uma migalha no chão, levantas-te de propósito para ir lá apanhá-la?

Eu - Claaarooo!(e, de imediato, pela cara dela) Tu não?

Ela - Claro que não!

Moral da história:
De então em diante...

continuo a levantar-me...

só que

não acarreto apenas com o esforço de sair do descanso
como também me pesa a culpa de fazê-lo.

Thanks a lot, sis!

Sabes que mais?
Migalhas são pão!

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Abraçar árvores

Resultado de imagem para hugging trees

É daquelas coisas que a gente lê de soslaio no Facebook, quando anda com o dedinho scroll down, scroll, scroll página abaixo.

Eu já tinha lido algures que uma qualquer celebridade excêntrica tinha a paranóia o hábito de abraçar árvores e alegava vir daí o seu bem estar interior.

Essa informação ficou algures perdida no meu disco rígido e foi este ano, no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, que me surgiu o ímpeto de abraçar uma daquelas bem espessas, com um diâmetro impossível de abarcar.

Depois de abraçar uma, apetecia a floresta inteira.
Eu e os meus filhos lá andamos a enlaçar troncos, a fazer festas e a sentir uma miríade de texturas e de cheiros:  dos líquenes, dos musgos, da cortiça, das arestas, do verde, do oxigénio, da madeira, da seiva...

A verdade é que aquele gesto me fez sentir tão bem - deve ser da idade, célebre não sou, devo estar a ficar excêntrica!

Que as árvores nos fazem bem, que oxigenam o nosso ambiente e tudo isso, eu já sabia. 

Agora, que efectivamente podem mudar o nosso estado de espírito, as energias (ou  seja lá o que for) - foi novidade.

A mim, fez-me sorrir. Senti-me muito bem, assim naquele enleio, no colo de um ser que já habitava esta terra muito antes de eu nascer, naqueles jardins de serenatas, amores, noites de boémia e tardes de estudo. 

Este verão, o pulmão da terra está a arder.
E, de repente, o meu cérebro juntou estas duas imagens:
o abraço do grande carvalho e a Amazónia a arder.

Parece-me que a insanidade maior é esta última, não a primeira.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Desfile da Mordomia (Viana do Castelo)

Viana: Plataforma digital abre  desfile da mordomia ao mundo
Ser minhota - natural e de coração -
e nunca ter ido às festas das Sra da Agonia
é imperdoável.

Hoje fomos ao Cortejo da Mordomia e arrependimento só mesmo destes anos todos sem lá ter ido!

Os nossos gigantones e cabeçudos, o suor e o esforço daqueles homens para envergar tal estrutura e peso debaixo do sol de Agosto!
Os Zés Pereiras, os bombos, as bandas -tudo a rufar para aclamação da assistência!

E as mordomas! A beleza, os sorrisos, a exuberância dos trajes e, claro, o brilho do ouro!

Fomos googlar. De acordo com a Proteste, uma grama de ouro (de 24 quilates) está a valer 43,81 euros. Ora, sabendo que há por ali quem carregue quinze quilos de ouro ao peito... é fazer as contas!
São mais de seiscentas mulheres cobertas de ouro, portanto há milhões de euros a calcorrear as ruas, no meio da multidão! 

Das duas,  uma: ou aquilo são réplicas, ou a cidade está ultra policiada nestas ocasiões!

No que toca à segurança, é um privilégio viver neste país. 
Estão a imaginar um cortejo destes  no Brasil ou na Venezuela?

Absolutamente encantada com os bordados dos trajes, as meias rendadas, as socas, os coletes, as arrecadas e os brincos rainha nas orelhas, os colares de contas, os corações de Viana e toda a filigrana portuguesa a representar a natureza, a religião e o amor!
(peixes, conchas, cruzes, medalhas com anjos e santos e, claro, o coração).


Eu e a minha mãe já tínhamos combinado que havíamos de comprar um coração de Viana.
É desta! Hei-de cumprir o projecto.

Havemos de ir a Viana


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Ansiedade

A ansiedade é exacerbada pela forma como vivemos no século vinte e um: o ritmo acelerado, o consumismo voraz, a tónica no sucesso e na produtividade.


1) Os Telemóveis e as redes sociais
Seguidores; posts; Facebook likes; Instagram.
Emails por abrir.
Sobrecarga de informação
Tenho de deixar as redes.


2) Publicidade
Todas aquelas imagens photoshopeadas. Corpos mentira. Sorrisos maxi. Felicidades instantâneas. Expectativas irreais.
Todas aquelas necessidades que nos fazem sentir. Como se vende um creme anti-rugas? Fazendo-nos sentir velhos. Como se vende um iogurte light ou bio ou proteico? Fazendo-nos sentir gordos ou em baixo de forma ou com as defesas em baixo. 
Há muito tempo que percebi que isso me perturbava e deixei de ver televisão. 

3) Notícias
Guerra. Terrorismo. Incêndios. Catástrofes naturais. Crises humanitárias.
Claro que a gente sabe que essas coisas existem e sempre existiram pela história fora. No entanto, agora somos bombardeados por imagens violentíssimas de tudo isso ao minuto, no minuto - em directo. 
Uma mulher da idade média esperava meses por um mensageiro que atravessasse dois continentes a cavalo ou em naus com notícias do seu amado, marido ou filho. Isso deveria, certamente, ser motor de ansiedade. No entanto, no seu imaginário, o perigo era apenas algo de fabulado, não visual e presente.
Um homem das cavernas sentia stresse ocasionalmente quando em perigo. Tempestades, um animal feroz, uma avalanche. Um homem da idade moderna lida com isso tudo globalmente - os flagelos todos do planeta todo a toda a hora.
Já disse: deixei de ver televisão. 


4) Evolução tecnológica.
Manter-se actualizado num mundo de constante inovação: máquinas, gadjets, software.
Penso não ter como manter o passo, assumo ficar ultrapassada.

5) Cidades sobrelotadas. Planeamento urbanístico nulo ou desumano. Transportes públicos a transbordar. Espaços comerciais à pinha. 
Vim viver para a aldeia, à beira-mar.

6) Distração constante
As séries que temos de ver. 
Os livros premiados que devíamos ter lido. 
Os filmes a não perder. 
Todas as estrelas famosas de quem nunca ouvimos falar. 
24/24
Às vezes, é tão preciso só ser. Estar ali. Respirar. Não fazer nada. Existir.

7) As alterações climáticas. 
Os alimentos geneticamente modificados. 
Viver num mundo poluído.
A lista não tem fim.
Há tanto com que nos preocuparmos para além dos nossos horários a cumprir, contas a pagar e frigoríficos a encher...

Talvez a ansiedade seja inevitável no mundo moderno. 
No entanto, há escolhas no estilo de vida que podem atenuar esta voracidade moderna.
Eu vou fazendo algumas. A ver se minimizo este constante aperto no peito e falta de ar.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sérgio do Fôjo

Faz hoje um ano fui ao Fôjo com o Renato. Claro que isso deu azo a uma publicação do género "só me trazes a sítios finos", mas a verdade é que eu gostei muito de lá ir.
Nenhuma descrição de foto disponível.

Quem não sabe do que falo, um bar especial em Fão, espreite no face (Fojo)

Mal sabia, que a mítica do espaço terminaria, uns meses depois, com a morte do poeta que o construiu a pulso, o Sérgio.

O Sérgio, naquela noite, conversou muito connosco - chegamos cedo, fomos talvez os primeiros clientes. Falou-nos de Fão, da sua infância, de Deus, de vida, de Amor, de injustiças sociais, de sanidade, de irreverência. 

Contou-nos, por exemplo, que quando se deita, nunca deixa os dois sapatos alinhados à espera dos pés. 
Porquê?
O Sérgio era a essência do questionar. Nada na vivência dele era tácito, regularizado ou conforme.

Explicou.
Ponho um sapato ao lado da cama, o outro atiro com ele - para ter de o procurar.
A cabeça é preguiçosa e faz tudo sem pensar.
Pois assim um gajo tem uma razão para se levantar da cama.
Tem de ir procurar o sapato que falta.

Como dizia o Renato, livre - um dos homens mais livres que já conhecemos.
Poeta. Escritor. Filósofo. Genuinamente nosso e português.
Fangueiro sempre. Ora leiam:

"Vou-me diluíndo 
De um corpo para um vulto,
Entre um e outro suspiro, fingindo,
Num compasso indulto,
Na noite fangueira!
Vou largando a amarra,
Do rebordo de uma pedra,
Ao som da corrente passageira,
O Cávado se medra,
A vida se atenua quase inteira...
Mergulho no imenso dos teus olhos
E imprimo o passo em teus becos e cangostas!
Ó FÃO, adorno- te de páginas tíngidas e rendados folhos,
De sussurros e ecos sem respostas!
Quase a nú e no abismo do silêncio,
Onde o ruído tem mais volts que a força do teu mar,
As palavras são tão poucas e sem essência
Para num soneto ou num verbo teu nome glorificar!
No chafariz da minha vida,
A bica da Fonte do Bom Jesus
Enxagou sempre lágrimas de uma ou outra ferida,
Como o Senhor dos Passos,também carrego a minha cruz!
Só o bravio do teu pinheiro manso
Se vergava numa vénia de importância,
Quando o vento não dava descanso
À tua beleza e à tua fragância!
Só no seio da minha mãe querida,
E no leito do aconchego de seu abraço,
Senti outro tão grande amôr sem medida,
Ó FÃO que te embalo e de mim és um pedaço!
Já não sou espelho
Mas sombra de mim!
Também não sou um velho,
Meu espírito viaja sem fim!
Sou,por enquanto,um traço
Que se esvai na noite cerrada.
Cansado mas ainda a passo
Canto o fado ao toque das cordas da minha guitarra!
E junto à Ponte,no antigo Estaleiro ,
Arrasto-me na ilusão,
De viver a fundo o tempo inteiro
E de te amar eternamente FÃO!"
Sérgio do Fôjo
Mónica Cardoso Cardoso
Betânia Cardoso
15/12/2017
"Sérgio e Fão"
O Sérgio escrevia compulsivamente, compunha fados, era um pensador.
Defendeu o Cávado  e Fão com o coração.
Gritou pelos pescadores, pelas varinas, pela natureza, pela justiça.
Honra em tê-lo conhecido.
Recordá-lo-ei sempre pela irreverência e o espírito livre.

Lembrá-lo-ei sempre que for alimentar os patos e os gansos do Cávado.
(foi o Sérgio que primeiramente os lá colocou, respondendo em tribunal por isso)

E sempre que os meu sapatos estiverem descasados.


Aqui

Aqui mais


domingo, 4 de agosto de 2019

#aosESSESstyle


Viver em Esposende e não bicicletar é como  ir a Veneza e não andar de Gôndola!

Ora eu toda a vida fiz desporto, mas quem me conhece sabe que as duas rodas não são o meu forte! Digamos que não tenho assim grande equilíbrio e tenho tendência para andar aos ESSES...
😆😅😂

Como diz a minha mana, pudera, uma bicicleta em cima de outra bicicleta!!!
😜😆😆

De modos que... há dois dias que ando a ter aulas de ciclismo com a minha filha,
o que já resultou 
num portão abalroado, 
um joelho esmurrado 
e muitos sustos para os gatos da vizinhança!

No primeiro dia, eu disse-lhe "Vens atrás da mãe"
Mas ela rapidamente percebeu que isso não era para sua segurança, era para sua segurança! 😂
Quer dizer, não era para protegê-la dos outros; mas para protegê-la de mim!

A meio desse curto passeio, a Mary decidiu que me ia "ensinar a andar".
A verdade é que há anos que não rolava sem ser em bicicletas estáticas nos ginásios, 
o que não tem nadinha a ver.
Portanto, agora é ela quem me treina: "Levanta o braço direito para indicar que vais virar!"
E eu: "Não posso! Se tiro a mão do volante, estampo-me!"

Ela: "Ó mãe, segue a linha do chão e vai direitinha!"
Eu: "Tu achas que eu ando aos ESSES por opção?"

Faz-me lembrar um episódio, aqui há uns anos no Algarve.
(Não consigo contá-lo ou escrevê-lo sem chorar de rir)
Eu aluguei uma bicicleta para ir para a praia.
Os miúdos eram mais pequenos, por isso o Renato levava-os e às tralhas (baldes, forminhas, toalhas, lancheira, protectores, bóias, eteceteras) de carro e eu ia lá ter.

Eu gostava muito daquele intervalo de tralhas. 
Sentia-me livre durante um bocadinho.
Sentia que ainda estava jovem e em forma! 😂
(Mas a verdade é que a forma como conduzia era pouco... linear!)

Então lá ia eu, bikini, túnica de praia, 
seda transparente e esvoaçante
pelas ruas da vileca fora,
aproximo-me do café dos pescadores
onde na esplanada há sempre locais a esvaziar umas bejecas e a fumar umas beatas de ar manhoso,
locais quase sempre pescadores seniores (aposentados?)
despenteados, de pele tisnada e ar alcoólico 
Aproximo-me e penso
já vou ouvir uma boca do velhote bêbado 
(que entretanto me fitava de sorriso desdentado escancarado)
e não é que ele:

"Ehhhh lá! Vais c'os copos ó quê?"



sexta-feira, 19 de julho de 2019

Namaste!🙏

A imagem pode conter: nuvem, céu, ar livre e natureza
Hoje fui a um evento:


YOGA SUNSET

Aula de Hatha Yoga (Posturas/Respiração/ Meditação) na Praia ao Pôr do Sol!

(Praia de Cedovem - Cantinho dos Pescadores, junto ao Restaurante "Mudos" Apúlia) 



E, pronto, converti-me!

Estava uma nortada valente, daquela que faz a areia bater nas pernas, uma neblina que aguçava o cheiro a sargaço, um pôr-do-sol tímido por entre as nuvens, mas poderoso na sua luz, pés na areia fininha, o estalido constante do mar a desaguar ali mesmo à nossa beirinha! Um privilégio! 

Gostei de tudo!



Da paisagem, da forma como a professora conduziu a sessão, das respirações, da saudação ao sol e restantes posturas e, especialmente da meditação. Como eu estava a precisar de parar! Como este cérebro a mil à hora precisa de escutar o mar, de escutar o corpo e o coração!

Senti-me muito bem.


Senti-me conectada com a natureza - e tínhamos ali os elementos tão presentes: água (mar), terra, ar (vento) e fogo (neste caso a luz solar)


Senti-me grata ao universo por aquele momento.


Senti-me descarregar energias negativas e inspirar paz e tranquilidade.


Senti-me em equilíbrio interior (porque o exterior, nas posturas numa perna só era muito difícil devido ao vento!!!! 😁😂😂)


E determinada em começar a praticar yoga com regularidade e a fazer meditação na praia!


Obrigada à Associação Águias Serpa Pinto de Fão pela oportunidade de vivenciar este momento.
A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé, oceano, praia, céu, criança, ar livre, natureza e água





Taquicardias 4 - Bate, bate coração

Resultado de imagem para taquicardiaE, pronto, no dia seguinte lá fui tirar o Holter.

E, como de costume, ainda me ri com uns filmes que fiz sobre o aparelho. 

Expliquei aos miúdos cá em casa que aquilo registava os meus batimentos cardíacos, então eles divertiram-se a tentar pregar-me sustos para "ficar registado".

Depois, claro, à conta do "ficar registado" fiz logo o filme (com as colegas).
O médico, vai-se virar para mim:

"Uuuuummmm, Dona Marta, como explica estes picos todos aqui por volta das dez da noite?"

"Eh... bem...  fui pôr o lixo!"

"Mas quê? ... foi a correr?"

"Não, Sr.Doutor! Mas foi rápido!"
😃😃😃😃




P.S. Ao que parece "bate tudo certo" no meu coração.
Portanto, de seguida, acho que vou para a psiquiatria.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Taquicardias 3

Imagem relacionadaE como não segui nada daquilo
e continuei sempre Godspeed em frenesim a trabalhar
seis meses sem ir a um ginásio
sem dar uma caminhada
a dormir pouco e mal
a comer pior
e tudo o contrário do que me disse o doutor adivinho
cá ando, de novo, às voltas com o aperto no peito
e as cavalgadas sistólicas garganta acima!

Hoje fui colocar um Holter.
Lamento desiludir.
Faria, certamente, mais furor se vos anunciasse que ia colocar implantes mamários!


Pensei que,
da mesma maneira que avario tudo o que é electrodoméstico
ou da mesma maneira que paro todos os relógios no pulso
pensei que ia dar conta deste tal de Holter em poucas horas.

Pois, não.
O aparelho tombou-me a mim.
Uma sonolência, uma carga de sono, um cansaço!
Deu-me cá uma quebra como se andasse ligada a descargas eléctricas o dia todo!
Está encontrada a solução!

É dar-me uns choques que eu acalmo!

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Taquicardias 2

E, entretantos, as palpitações sem enamoramentos continuaram
Resultado de imagem para electrocardiografia(vide de que falo aqui)

Para além disso, desta feita, havia uma dor no peito.

De modos que, passados uns largos meses, voltei lá.

O homem era o mesmo,
não me reconheceu, nem às queixas
e desta vez, devia haver menos gente à espera para atender,
porque não apenas me fez um electrocardiograma,
como ainda me ensinou a respirar
e me foi dando conselhos preciosos para o meu coração.

A colocar-me os eléctrodos:
"Sabe que padece de uma doença gravíssima, não sabe?"

Nem respondi.
Numa maca de hospital temos sempre menos paleio e aquilo atingiu-me sem contar.

"Chama-se ANSIEDADE!"

"Sempre soube que sou uma pessoa ansiosa e fui aprendendo a controlar isso, mas agora está-me a dizer que isso dói?"

"Dói e de que maneira! E também mata!"

Vieram-me as lágrimas aos olhos.
Não sei do que eram.
Medo?
tristeza?
tomada de consciência?
vergonha de ser frágil?
auto-compaixão?
raiva por ter chegado àquilo?

Desta vez não estava a achar piada nenhuma.

O médico, muito fora do mainstream,
foi incansável, mostrava-me os tracejados daquilo
explicava que se respirasse fundo os batimentos cardíacos baixavam,
e que eu devia arranjar formas de me acalmar.
Não sendo psicólogo, foi-me dizendo
que eu devia tentar não me centrar tanto naquilo que me preocupava
(fosse o que fosse)
solucionar o que fosse possível
e encarar de forma menos dramática o que não conseguisse solucionar.

Pode, Deus meu!
Mas afinal o que revelam cá de dentro aqueles riscos do ECG?
Aquilo lê a alma da gente? É que o homem não me conhece de lado nenhum!

A dada altura, ele:
"Escreve?"

Eu, de mim para mim, cruzes!
De mim para ele:"sim... rabisco umas coisas num blog..."

"Um blogue não serve - é público. 
Escreva numas folhas de papel o que a incomoda e depois deite fora, 
ou um diário, um registo pessoal, ajuda muito!"

Não estava a crer!
O médico a mandar-me escrever!

Saí de lá com duas folhas de papel:
uma receita de ansiolítico e uma folha onde ele escreveu:

1h de caminhada por dia
ioga 3x semana
meditação diária
respiração abdominal de duas em duas horas
evitar carnes vermelhas
comer legumes e fruta
beber muita água e infusões de ervas naturais
...

Não me lembro.
Se tivesse cumprido tudo aquilo à risca não me teria sobrado tempo para trabalhar!
Por isso,ignorei aquilo tudo e continuei a trabalhar.


terça-feira, 2 de julho de 2019

Taquicardias 1

Imagem relacionada
Aqui há um ano andava a sentir-me acelerada.

(para quem me conhece bem, esta parte, só por si, já tem piada!!!)

De maneiras que fui a um médico numa clínica conhecida ali por onde trabalho,
um qualquer,
o que estava de serviço,
não sei nem soube quem,
que aquilo já vinha durando há uns dias
e, naquele momento,
para mim,
tinha carácter de urgência.

"Então, o que é que a traz por cá?"

"Sabe, doutor, é que eu sinto o coração a bater dentro do peito..."

Interrompe-me e graceja:"Ainda bem que o sente, é sinal que está VIVA!"

"Pois... está bem, mas... mas bate muito depressa... e nem é em esforço, é em repouso; olhe à noite, quando me deito, parece que me vai sair pela boca..."

Interrompe-me, de novo, sorridente... "Mas, diga-me uma coisa, está APAIXONADA?"

(Só comigo, deveras! Mas será que ninguém me leva a sério?)

Alinho:
"Ó Senhor Doutor, repare bem na minha data de nascimento...
o senhor acha que
nesta idade
se eu estivesse apaixonada
me vinha QUEIXAR?"


terça-feira, 14 de maio de 2019

Edição de memórias- consideração, muita!

Aqui há uns anos, como é sabido, trabalhei num LIJ
(Lar de Infância e Juventude)
Uma experiência muito enriquecedora,
não apenas a nível profissional,
mas para a minha evolução como ser humano.

Ah e tal, os miúdos deviam ser difíceis....
e os nossos filhos, não são?
e alunos complicados?
e turmas tirem-me-daqui?
e nós próprios?
Eu, da minha parte, sou muitas vezes insuportável e execrável.

Talvez por isso mesmo me tenha dado bem com a maioria deles!

Portanto, o que aqui vai é uma lembrança de legítimo afecto, sem qualquer tipo de julgamento.


Olha que ternura de memória: (5 maio 2015)

Uma espécie de elogio ou das funções que, enquanto professores, não planeamos ter: " professora desculpe o atraso, estive a F###r os co###nosa um @#### e depois disse lhe k só não comia mais, porque tinha de vir ter com a senhora (finalmente educação e deferência) para o apoio!". Valha nos a consideração! 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Anda e não Pia


Resultado de imagem para vinho de pacote PiasTenho de perder este estúpido hábito de ter vontade de rir nas situações mais dramáticas. 

Como daquela vez do meu acidente mortal em que não morri. E como não morri, fiz humor.
A coisa foi feia. Derrapei na gravilha, rodopiei, bati contra um poste lateralmente e contra uma casa frontalmente. Fiquei pendurada, em suspensão, entre as videiras do quintal e a janelita da cozinha. Por sorte, a velhinha cavava as couves dois metros mais à frente.
De maneiras que foi trágico. O carro ficou concertinado e teve de ser extraído com o aparato de um grande guindaste e ir jazer numa sucata.
Enquanto não, liguei para casa a avisar que tinha dado "um toque" e esperei pela grua. 
Isto foi num atalho que todos tomávamos a caminho da escola de Ronfe. Nisto passa o director; vê-me na berma; pára; vê aqueles preparos, pergunta se estou bem.
Sorrio e sai-me, antes de devidamente o pensar:
"Eu estou! Queres comprar?"

No outro dia, mais humor negro.
O carro não pegava e era uma coisa eléctrica. Veio o reboque, sai de lá um neandertal solícito que tinha uma solução na manga, ali mesmo, no local.
Dirige-se ao reboque para ir buscar a magia das ferramentas. Abre um compartimento e tem de afastar dois caixotes de Pias para chegar às ditas abençoadas ferramentas.
Dá-me vontade de rir.
Estou bem aviada. 
Só me resta o vinho de pacote para me resolver a vida!

E não é que resolveu mesmo?
Mexeu e andou.
Não sem antes,
muitos estalos de língua
muitos abanares de cabeça
muita sobrancelha franzida
muitos
"estes carros modernos"
e por aí segue.

Anda!
Anda e não Pia!

domingo, 5 de maio de 2019

A mãe NÃO PAGA

Ora bem, a ideia tá gira
A imagem pode conter: Marta Pereira, a sorrir, ar livre
 e demos com ela por acaso, 
mas o fado que eu fiz à conta disto!

Comecei logo: bora, manda-se vir marisco p'ra mãe e atum com feijão frade pós cachopos!

(Se bem que também já há quem venda as conservas a preço de caviar na restauração lisboeta. Turista come cavala num prato grande com uns rabiscos de assinatura de um qualquer chefe gourmet e paga o equivalente ao meu subsídio de alimentação para a semana toda!)

Então, ia eu dizendo, que se para mim era de borla, enfiava-se omeletes p'ós gaiatos, iscas de fígado para o pai e picanha para a mãe!😂😂

Eu a beber Moet et Chandon,
e eles:
uma cola para os três 
e água da torneira no WC,
quando esta acabar!!😂😂

Sou só eu que acho a ideia hilariante?

Também me lembrei que, para o ano, se a iniciativa se repetir, mais vale combinar com as amigas, todas munidas das células de nascimento dos filhos
para usufruir da promoção
mas sem filhos
para USUFRUIR da promoção!!!!
😂😂😂😂

PS Era a sobremesa a que a MÃE tem direito e quatro colheres, por favor!

quinta-feira, 2 de maio de 2019

#ouçomaisdoquequeria

Eu a escrever o sumário, sentada à secretária
(talvez o único ou seguramente dos raros momentos em que me sento durante as aulas)
e a pequenina da frente,
à minha direita,
absurdamente loirinha 
e a fitar-me com aquelas esferas azuis muito profundas
e aquela mansidão na voz
que me faz um esforço de ouvido para apurar o que diz

Sabes txitxa, a minha mãe já vai ser operada!

Pus-me atenta. Parei de escrever, ergui o olhar. 
Confesso que nem sempre tenho tempo de interromper os trabalhos para ouvir todas as mil confissões, desabafos e partilhas com que me querem honrar, mas uma criança preocupada com a saúde da mãe faz-me parar.

Sim, então? Está com algum problema de saúde? Está doente?

E ela, muito depressa:

Não, txitxa! É para não ter mais filhos, vai fazer uma operação.

Alívio. Quase não tenho tempo de pensar ah-afinal-é-só-isso, 
que ELA
a menina sossegadinha da turma
a caladinha
a respeitadora
dispara:
(eu juro que sem malícia)

O meu pai é que ficou contente txitxa... ele disse até qu'infim!

Eu devia estar com os olhos verdadeiramente arregalados, porque ela explicou:

Ele diz que a culpa é dela! Que ela nunca sai de cima dele e que, por isso, é melhor assim!

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Tótó, mas com muito estilo!

O João tem um babette, mãe!

Bavaglini Bambino Gucci BlueTem, filha?

Sim, na hora do recreio, a avó vai lá sempre dar-lhe o lanche!

Como assim?

Olha, entra, põe-lhe a babette, dá-lhe à boca o iogurtinho, limpa-lhe assim (a fazer o gesto de dobrar o babette em cima dos lábios) e depois dá-lhe beijinhos repenicados e vai-se embora...

E o João é pequenino? É do primeiro ano?

Não, mãe! É da minha turma! 
(3ºano)

E os outros meninos não gozam com ele?

Não, nem gozamos muito, mas sabes o que é que tem mesmo piada?

O quê?

É que o babette é da Gucci!



segunda-feira, 22 de abril de 2019

Twenty-five-#parecekfoiontem!

A imagem pode conter: céu e ar livreEverywhere we go
People want to know
Who we are
Where we come from








Ao que parece, já lá vão 25 anos desde que frequentámos a UM e a nossa querida Raquel lembrou-se de usar a rede para nos pôr, de novo, em contacto uns com os outros. Bem haja!

A ideia é extraordinária e,
claro,
também tem o seu quê de assustador...

pois que a gente vai ver reflectido uns nos outros 
o peso de um quarto de século 
a calcorrear o país,
a aturar canalha,
a formar pessoas,
a ser txitxas e txitxos,
ou setores de português
( LE em ambos os casos).

pois que a gente vai
descobrir nas rugas uns dos outros
as voltas que a vida já nos deu
com ou sem filhos
com amores, desamores
lutos, perdas e conquistas.

É que a gente já tá crescidote, né?
E pode ser um pouquinho assustador termos de nos confrontar, assim de repente, com o que a vida nos acrescentou ou subtraiu. 

Mas, vamos lá fazer a ponte, softly,
com recordações que nos aproximem pelo riso!

Escolho duas.

Primeira semana de aulas. 
Eu e uma amiga, às aranhas para nos desenvencilharmos no campus, acabámos por chegar atrasadas, mas lá damos com a sala. Tentámos entrar discretamente, numa aula que, afinal, já estava a decorrer.  Atrapalhaditas e a tentar sentar quando o professor nos aborda:
"Entrem, estejam à vontade!Quais são as vossas habilitações matemáticas, mesmo?"
(We should have known better!!!!)
Estranhei a pergunta, mas a boa educação e o civismo levaram-me a balbuciar "no-no-a-no...?"
Gargalhada geral e nós com uma vergonha gigante, finalmente superior à percepção de que não era ali que deveríamos estar!


O professor de Fonética, salvo erro Barroso (de apelido e proveniência) muito se irritava com o funesto hábito tabágico do Américo Lindeza, o da literatura.
Então, barafustava para nós testemunhas e, por vezes, deixava-lhe recados no quadro.
Se a memória não me falha, certa vez foi algo do género: é favor deixar o quadro e a secretária limpos.Daí em diante, o outro, de sorriso farfalhudo por trás da barba marxista, deixava-lhe as beatas alinhadinhas na mesa e mastigava, com gozo: "Assim, como ele gosta!"