segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Autástico

Foto de Fun and Function.Lembram-se do meu menino perturbado, de ranhinho no nariz, sempre a balançar o corpo de um lado para o outro,  a esconder-se debaixo das mesas ou a enfiar-se de cócoras no canto mais recôndito da sala de aula?

Aquele que foi retirado a uma família e atirado para uma sala de aula nova, sem papéis que o explicassem, porque o "processo" chegou muito mais tarde?

GRANDE conquista, hoje! Mais de dois meses volvidos após a sua chegada, hoje - trabalhou! Trouxe-me de casa um desenho com um grande cão desenhado e um título todo colorido em letras gordas como eu lhes ensinei. Dizia MY PET. Rejubilei.  
"Olhe, professora, tíxa, tíxa, olhe o mI pet!", a correr, de desenho na mão, a receber-me no hall da escola para me abraçar, para COMUNICAR!!!!!!!

Não precisei de "processo" nenhum para intuir que o mutismo, a dificuldade de  comunicação, as unhas roídas até à ferida, os fechos do casaco comidos pela ansiedade, o abanar-se para a frente e para trás e os guinchos súbitos tinham um nome - autismo. E para ver que era uma criança transtornada e emocionalmente débil. Peso pesado.

Sem nenhum tipo de auxílio extra em sala de aula e numa turma particularmente complexa, fui levando, como podia. Ora com abraços, ora com repreensões, mas sempre com dificuldade, posto que não escreve e praticamente não lê (na língua materna). Acresce ainda que não foi bem recebido e é frequentemente envolvido em atritos, quer como vítima, quer como agressor. Com todos estes obstáculos, normalmente oferece muita resistência a trabalhar. (Pudera, se me mandassem conduzir um Porche sem que eu tivesse carta de triciclo...)

Hoje, miraculosamente, uma aula inteira a trabalhar. Escreveu EM INGLÊS e por extenso os números de 12 a 20. A copiar, claro. Mas com esmero e a solicitar-me e a pedir reforço "está bem?"

Claro que está, querido. Muito orgulho no teu esforço. Parabéns.

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