segunda-feira, 28 de março de 2022

Dois tipos de pessoa

No outro dia zanguei-me com um menino. 


Eles e nós a acusarmos o período longo, a ausência de pausa no Carnaval, as máscaras ainda a atrapalharem as nossas normalidades; 
Eu já sem muita paciência talvez.

Facto: pedi-lhe que fosse terminar a tarefa na biblioteca e voltasse.
Aquele time out suave para que acalmasse.

Pedinchou lamechoso "eu porto-me bem, eu não falo mais"
Sentou-se a chorar e não saiu. 
Assertivamente disse-lhe que fizesse o que eu pedi e continuei a aula.
Chorou compulsivamente uns bons minutos, 
altura em que dois tipos de pessoa no grupo-turma se revelaram.

Tipo 1 - o mais numeroso
De dedo espetado e a gritar:
"Tixeeeeer... ele não saiu!!!"

Tipo 2 - ELA
Uma menina, das mais silenciosas e cumpridoras da turma, vem ter comigo e diz baixinho:
"Por favor, tixer, dá-lhe mais uma oportunidade, ele está a sofrer tanto! (IPSIS VERBIS)
Ou então manda-me a mim no lugar dele"

O desenrolar da história é irrelevante.
O meu ponto é este:

MAIS PESSOAS que se compadeçam com a dor do outro, por favor!

Por um mundo com mais pessoas tipo 2!

terça-feira, 22 de março de 2022

E tu? Há quanto tempo não te dás a um banho de chuva?

 

E tu? 

Há quanto tempo não te dás a um banho de chuva?

Sabes? 

Língua de fora, como em criança, 

saltando e rodopiando

nariz no ar, a deixar entrar os odores todos - a terra molhada, os pinheiros, o pelo dos coelhos silvestres, a madeira do passadiço, as pinhas no chão.

Sabes?

O vento no rosto, as pingas cada vez mais grossas na pele, no cabelo, a entrar-te na alma, a lavar os males, a abençoar e limpar tudo à tua volta e a ti também.

Sabes que se chove muito e estás a céu aberto 

és mais uma nuvem

choras chuva e não se reconhecem lágrimas,

bebes vida e esperança e energia

e o mar

o mar, 

quando chove agressivamente, 

vomita ruidosamente, 

explode,

é como um aplauso gigante da natureza ao teu redor


Fincas os pés no musgo fofo, 

estendes os braços e encaras o alto, 

recebes toda aquela luz líquida na palma das mãos, 

cerras as pálpebras à força da água 

e os teus anjos pensam 

que lhes piscas os olhos 

e vêm para te abraçar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Longe do mundo

 Uma playlist inteira a passar a ferro com o patudo ao lado sem abrir pestana. 

Hoje era música portuguesa.

Portanto, aparentemente o bicho curte faduchos, pop e até rock. 

Ouviu Márcia com JP Simões; Raquel Tavares; Miguel Araújo; António Zambujo; Ana Moura; Azeitonas; Carlos do Carmo; Ornatos Violeta; Pedro Abrunhosa; Rui Veloso e até Chutos...

Dormiu profundamente o tempo todo.

A dada altura, já no final do cesto da roupa, entra na playlist a Sara Tavares, com" Longe do mundo". Quem conhece sabe que aquilo é uma oração.

Eu canto e dobro lençóis.

Coincidência ou não,

ele levanta a orelha e a pálpebra. Sorrio-lhe, sem parar de cantar.

Estica-se, pendura-se na poltrona para me alcançar.

Dá-me um abraço de patas e calor e beijos de cão.

"Longe do mundo, mas perto de ti!"




quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Achado não é roubado (mas também não é dado)

Chove a espaços. Cargas grandes, que depois aliviam.

Ao volante uma mulher vê um homem no passeio a deixar cair a carteira ao chão. Repara que ele não repara e segue em frente. Num impulso, encosta o carro, liga os quatro piscas, corre a recolher a carteira e corre para apanhar o homem que mal avistou. Só sabe da direção que levava, persegue esses dez metros de rua, mas já não o vê. Olha ao redor, nada. Olha para as mãos. É uma daquelas carteiras magrinhas, quase só para cartões que os homens usam no bolso de trás das calças. Fica com aquilo entre mãos, como uma batata quente. Pensa, melhor espreitar a ver se tem alguma identificação. Entreabre e vislumbra uma nota de 100 euros, entre várias outras. Arrepia-se e pensa, credo! se isto cai nas mãos erradas! Felizmente, desta vez, eram certas e os pés também, que tinham subido a rua de novo para encontrar um carro de polícia junto ao seu!!!! Com o historial de perseguições policiais que tem (😅 outra longa história) a mulher torna a correr rua acima; teme ser multada por estar num lugar reservado à polícia e esbaforida explica a situação ao senhor agente e que exatamente pretende dar parte ali na esquadra em frente. Esteja à vontade, senhora cidadã, ninguém a autuará (poesia!)

A mulher entrega o ouro à autoridade, preenche formulário, desinfeta as mãos mil vezes  com álcool gel e assiste a uma cena FBI- Investigação Criminal à portuguesa, que em dois minutos e um computador, dois agentes não tão gostosos como os da série americana, mas igualmente eficientes, estão a informar a achadora (ela própria) que o dono mora ao fundo dessa mesma rua (deve ter entrado no edifício, daí o desaparecimento) e estão a contactá-lo telefonicamente. Quanto à eficácia destes procedimentos... malta, paguem os vossos impostos que eles dão connosco.

O homem aparece mais branco, pálido e lívido do que a Branca de Neve em quarentena, titubeia um agradecimento; ora essa! uns para os outros, passe bem, porta fora.

Há um velhote encostado à esquadra. 

Foi a senhora que encontrou a carteira e devolveu? Bem haja! Ainda há pessoas de bem! 

Naqueles olhos cansados e pequeninos da miopia nas lentes embaciadas da máscara, uma nesga de sorriso aflorou.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A baby is born!

 Há muito que ando arredada deste cantinho de desabafos, primeiramente por uma debilidade física que nunca tinha vivido e que exauria toda e qualquer energia. 

Depois, possivelmente porque às vezes me parece indigno, outras inútil, outras insensato esgrimir com o meu entusiasmo, a minha paixão pela vida e o meu sarcasmo o drama mundial que estamos a viver.

Hoje pensei, pelo contrário.

Estamos todos a ser bombardeados de tragédia e medos, estamos cansados, deprimidos, a perder fés e esperanças... tenho de escrever. Tenho de escrever as coisas boas que nos rodeiam.

O meu compromisso. Todos os dias uma coisa bela e positiva. 

How many brothers or sisters have you got? 

Quantas irmãs ou irmões tens?

Nãaao txitxa, não é irmões! É irmãos!

Gosto de brincar com eles, fazê-los rir. Tão fácil, o humor infantil. 

Ah! Pois é vocês ensinam-me português e eu ensino-vos inglês!

E, de repente, lembro-me! Dos 190 alunos que tenho, prodigiosamente, recordo-me que a pequenina da frente me tinha dito a semana passada, numa voz ainda mais pequenina do que ela, que o mano deveria nascer esta semana!

É verdade, o teu brother, baby brother já nasceu? 

(eu falo como a Dora Exploradora, metade em cada língua)

O sorriso explodiu a máscara, rebentou elásticos, pulverizou os olhinhos: ontem txitxa foi ontem!

Todos começaram a bater palmas, espontaneamente.

Dei-lhe os parabéns com muita alegria e um abraço covid, que quer dizer que juntamos as costas e entrelaçamos os braços. 

De seguida vimos no ecrã gigante um pequeno vídeo com o recém nascido. Todos que fofinho, também quero, que lindo, e mais palmas para a mana grande.

Se tudo isto não é extraordinário e nos renova a esperança, não sei o que será!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

As melhores rabanadas de sempre!

Ontem à tarde, a metáfora perfeita para o 2020 inteiro.

Bad vibe
Estou debilitada, fraquinha, à luta com uma anemia, recebo telefonema da médica que estou com uma infeção não sei das quantas. Fico preocupada e arde-me logo a gastrite que 2020 também me trouxe. Chove imenso.

Good vibe
Saio de casa para ir ao cabeleireiro. Assim como assim está marcado e sempre arrebito.
De caminho começo a energizar o cérebro com resoluções de ano novo que envolvem mais forças do que as que realmente trago em mim.

Bad vibe
O meu carro entra na rotunda sem eu ter o cérebro no volante. 
Chove imenso.
Derrubo um ciclista que só vejo demasiado tarde. 
Fico aflita.
Tenho um ataque de choro em frente à bófia, uma agente super querida que me tenta acalmar.
(penso, ainda vou ter de pagar honorários de psiquiatria!)

Bad bad bad vibe
Choro não sei bem por que razões, 
talvez uma mistura de:
susto, medo 
culpa
vergonha
autorrecriminação
desesperança e autopiedade
raiva por sentir estas duas últimas
alívio porque o miúdo não se magoou

Good good good Vibe
Chego a casa ainda assoberbada pelo acidente
perturbada
Sem arranjar cabelo nenhum...
Cheira a canela.
Encontro o Pedro na cozinha
com uma travessa cheia de rabanadas que preparou sozinho!

E vira de 
"raisparta! quantas horas faltam para este ano acabar?"
para
"extraordinário! espetacular!
quantas coisas boas cabem nas horas que ainda faltam a este ano?"




domingo, 29 de novembro de 2020

Procurar a agulha no palheiro em chamas

 
Vou começar este texto ao contrário.

Pela moral da história:
Usem a m**** da máscara, 
desinfetem as mãos 
e fiquem em casa o mais possível!

Tá difícil de entender? 

Enquanto muitos de nós acham que isto é uma gripezinha

Enquanto muitos de nós lamentam ter que deixar a esplanada à uma da tarde

Enquanto a canalhinha vai almoçar em bando
sem máscara
ao shopping

Enquanto os pais 
nas horas em "que se pode"
vão em hordas aos supermercados com os menores atrás 

Enquanto os negacionistas se manifestam 
fazendo corar as nossas antepassadas que queimaram soutiens
porque a liberdade que elas exigiam rimava com respeito

Enquanto isso...
Os nossos velhos
morrem sozinhos nos hospitais

Os nossos enfermeiros e médicos rodam turnos 
e coragens e forças e horas sem dormir
para nos salvar

Os nossos psicólogos, nutricionistas,
assistentes sociais, todos os técnicos afetos à clínica
foram recrutados para inquéritos epidemiológicos à Covid

o que quer dizer que
deixaram os fundamentais serviços de saúde que prestavam
para estar ao telefone a seguir o rastro a centenas de cadeias de contágio
em teias indeslindáveis de infeção.

Como assim?
Assim:
O Zé, que é bom rapaz, tem 20 anos, é trabalhador estudante, está positivo.

Há que rastrear:

a sua família
os colegas de fábrica
e os 3 a quem generosamente dá boleia para a universidade. Sem máscara!
Todos são jovens e giraços, por isso, têm namorada!
Cada uma das quais vive com pais e irmãos!
Que têm namorada!
Um deles joga futebol.
Partilha bola e balneário com mais 13.
Quase todos estes jogadores têm namorada e mãe e pai e irmãos.
Quatro visitaram as avós idosas no lar...
Cinco fizeram uma festa de aniversário restrita no passado sábado...
Dois juntaram-se na casa de um outro para beber umas bjecas e ver a bola...

Não...
tem...
fim...

São agulhas
em palheiros
a arder...