quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Bro or sis?

Há um poema sobre a FAMILY no manual de terceiro ano com que trabalho.

Resultado de imagem para brother clipart"Gosto de usar aquilo como modelo de escrita.
De  pôr os miúdos a escrever sobre a sua própria família copiando aquela estrutura.

Eles sentem-se "capazes" - "ó txitxa é quase só copiar!!!!";
adoram escrever sobre a sua própria realidade,
querem colocar no papel aqueles afectos todos;

eu fomento a motivação: "já viram? só começaram o inglês em Setembro e já escrevem um poema!!!!!! Têm de contar aos pais em casa! Uau! Eles nem vão acreditar!!!!!"

Escrevo umas palavritas extra no quadro,
auxilio, monitorizo e esclareço...
Aquilo resulta muito bem!

BUT
(MAS)

Agora já não é tão fácil.
Cada ano juro a mim própria que não torno.
Que vou pô-los a escrever sobre os Simpsons 
ou a família Adams
ou whatever,
mas lá acabo no mesmo
porque, apesar dos pesares, 
julgo que é de total relevância desenvolver linguagem sobre o "eu" e o "meu mundo".

Então, pronto,
lá chafurdo nas amálgamas de múltiplos padrastos,
ou na eterna dúvida: sobre-qual-das-duas-casas-em-que-vivo queres que escreva txitxa?

Desta vez,
um nível acima de dificuldade:

"Txitxa! Eu tenho um irmão que tem nome de rapariga!"

"Ah?"

"Escrevo bróder ó sistér?"

"Como assim?"

"É meu meio irmão, mas quando nasceu o meu pai deu-lhe nome de rapariga"

"Como se chama?"

"Silvina"

"Mas é um rapaz?"

"é... 
... acho que é... 
... não sei!"

A turma toda ri-se. 
São crianças. 
Não sei como dar a volta a isto. 
Passam-me muitas coisas pela cabeça que não sei expressar em frente a um grupo de crianças. Palavras como 
transexual.
Mudança de sexo. 
Transição de género.

"quer dizer quantos anos tem?"

"tem vinte"

"e é um homem?"

"sim... acho que é"

"achas? não tens a certeza?"

Tudo se passa rápida e inesperadamente de mais. Gostaria de ter tido mais uns segundos para ponderar o que dizer e como, sem expor toda aquela perplexidade -aparentemente minha e dele- ao grupo. De repente, encontro uma saída:

"Como lhe chamas em português? irmão ou irmã?"

"Irmão!"

"Então escreve brother!"


Pensar com o coração do outro

Gemeses,
a aldeia onde fica a escolinha da minha Maria, 
está de luto consternado pela morte do piloto Paulo Gonçalves no Rali Dakar.

As honras serão feitas a um atleta que dizem ter sido também um ser humano com carácter,
honrado e solidário. O cortejo fúnebre passará na rua em frente à escola, que desemboca na igreja. Por esse motivo as crianças não terão aulas de tarde e o trânsito na rua estará vedado desde  muito cedo, pois prevê-se a afluência da comunidade motard.

A Maria não irá à escola.
Vai ficar em casa, dormir um pouco mais, brincar com as vizinhas.
Possivelmente uma situação vantajosa para qualquer criança.

Mas a Maria sabe.
Sabe que o colega de turma perdeu o pai.
Sabe que, este ano, já outra amiga e vizinha sua perdeu o pai. 


Então diz que mais valia haver aulas e não ter acontecido acidente nenhum.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

N A T A L 3

Resultado de imagem para peúgas clipart"O terceiro* momento Natal,
talvez o mais embaraçoso de todos.
Na fila para a caixa
de uma loja de roupa.
Enquanto espero,
afasto uma cruzeta,
para espreitar uma sweatshirt brilhante de menina.
Uma senhora acusa o toque.
"Oi! Isso daí é meu!"

desculpe
"num tem mau!"

foi sem querer
"num tem problema!"

não sabia que era seu
peço mesmo desculpa
não me tinha apercebido
"ai, não se preocupe, não!"


(balbucio, balbucio, balbucio...
E de súbito apercebo-me que já me desculpei de mais
e então justifico-me por me ter justificado tanto!)

desculpe a minha insistência
mas esta sociedade é tão do litígio
que a gente nunca sabe quem vai encontrar...

"é, eu sei, mas eu sou da paz, Viu?
Que Deus te abençoe e à tua família!"

Aquela benção apanhou-me de surpresa.
Encheu-me os olhos de lágrimas
sem que soubesse de onde vinham.
Então, aquela senhora toda doçura
descobriu a minha mão que segurava pantufas, peúgas  e pijamas
tocou-lhe com ternura e disse-me:
"Olhe, bendito seja Deus por este momento.
Ele colocou você e eu hoje nesse local
e a essa hora
para a gente se encontrar.
E que bom que foi, não foi?"

Eh, pá!
Foi!

Graças a ele
ou à Nossa Senhora das Compras de Última Hora
ou às alterações hormonais daquela fase do mês
ou à nossa predisposição para comunicarmos uma com a outra.

Interessa pouco.
Na realidade, ali se fez Natal, sim.
Lembrando-me que o seu sentido é este mesmo:
a empatia e a conexão ao próximo.


*
o primeiro lê-se aqui
o segundo aqui

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

N A T A L 2

O segundo* momento de Natal que tive
antes de ser Natal no calendário
foi no dia 23.

Queria muito agradar a uma pessoa.
A vida nova à beira-mar
trouxe o sal do mar
e a doçura desta nova amiga.

De vez em quando,
entre outras coisas,
tomámos um cafezinho
de fugida
à semana
depois de deixarmos os filhos nas escolas,
no cafezito junto à biblioteca municipal
e ao serviço dela.

Por tudo isso,
lembrei-me.

Gosto mesmo desta pessoa.
A prenda ideal é estarmos juntas.

Fui ao dito estabelecimento;
paguei doze cafés;
escrevi um postal
e fiquei muito feliz
porque ali está o compromisso
de que, pelo menos,
nos veremos uma vez por mês!



* sobre o primeiro escrevi aqui

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

N A T A L

Hoje ainda são 24
Resultado de imagem para natal.clipart"e, para mim,
o Natal já aconteceu três vezes.

Hesitei em escrever este post

porque

"que a mão direita não veja
a esmola que a esquerda deu!"

No entanto,
decidi partilhar.
Escrever.
Porque
o verdadeiro espírito de Natal é este,
e a verdade é que ele é mesmo todos os dias
dentro do nosso peito
na entrega ao próximo
no dia-a-dia
sempre que ela surgir.

Soube de uma família.
Desempregados
quatro crianças
duas doentes
todos na eminência de um despejo
sem comida na casa que ainda o é.
Urgência em receber o cabaz de Natal da paróquia
porque trazia a lata de salsichas e de atum
para a refeição seguinte.

A gente sabe que há fome no mundo.
E pobreza.
E carência.
Mas,
cruelmente
hipocritamente
desumanamente
se ela não tiver um rosto
não nos dói.

Fui à família.
Era uma aldeia recôndita.
Chovia torrencialmente.
Perdi-me para os encontrar.
Encontrei.
Levei comida só
e humildade.
Senti-me tão pequena
naquela união de almas.

A pousar a palete de leite,
a despejar três sacos cheios
e a pensar que era tão pouco
como se haviam de governar com
a minha boa vontade
seis pessoas inteiras:
dois adultos
um adolescente
que me ajudou com os sacos
escada húmida acima,
um miúdo que me recebeu de chapéu de soldado,
uma miúda bronquítica tombada de manta no sofá
e uma bébé ranhosa e chorosa
de fralda mal mudada ao colo de uma mãe
inchada no abdómen
do pós-operatório à vesícula.

Do supermercado, tinha ligado a perguntar
se tinha arca ou frigorífico
que podia eu levar
de que precisavam.
"De tudo. Só tenho massa e arroz"

Levei, de impulso:
azeite, batatas, cebolas,
pão, queijo e manteiga,
pescada e bróculos congelados,
duas paletes de febras, uma de perú,
duas pizzas, alface,
leite, cereais,
iogurtes, croissants recheados
uma pasta de chocolate familiar.

"Ah trouxe pão! Obrigada!
Nós às vezes também vamos ao pão
há aqui uma padaria perto"

Penso:
às vezes?
como assim, às vezes?

Venho-me embora.
Mais angustiada com aquele "às vezes"
do que satisfeita com o desta vez.

Não adormeço tranquila.
Mas sinto que se abriu mais cedo
o Natal em mim.
Não foram rabanadas.
Foi dádiva.










quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A escola que é uma selva ou a parábola da inclusão


O XXXX, 
que na sua curta escolarização
já teve várias siglas: 
NEE
(necessidades educativas especiais); 
PEI
(programa educativo individual), 
RTP
 (relatório técnico-pedagógico),

não faz ideia do que seja uma sigla!

Aliás, 
mal reconhece as letras!

Alheio a etiquetas,
limita-se a ser criança!

"Não aprende como os outros":

Pois não.
Não aprende as mesmas coisas do que os outros
Nem ao mesmo ritmo.
E quê?

"É um menino especial."
(Não são todos?)

"Nem se percebe por que razão tem testes adaptados
assim até tira Bom!"

Pois é.
Tira Bom POR CAUSA DISSO.
óptimo!
a ideia não era mesmo essa?

É a lógica dos óculos.
Vê mal. Damos-lhe óculos.
Já vê bem. É tirar-lhos!

Faz lembrar a famosa parábola dos animais da selva.
Vão todos a exame.
A prova consiste em subir à árvore.
O macaco fica contente.
O elefante não. O peixe muito menos.
Dêem-lhes a vida toda que nunca conseguirão subir.

"Não aprende como os outros"

Pois não!




quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Camisola laranja

"Tão linda, gostas?"
"Fui eu que tricotei!
Fiz num instante, numa tarde!
Chovia tanto, fiz num instante!"

É sempre cedo de mais para perdermos a nossa mãe.
Mesmo quando já não tem força para nos dar colo,
ou quando já nos ouve mal
ou quando já mal nos ouve
levada para um íntimo sonambulismo
cardado e impermeável.

"Era laranja, 
a malha da camisola!"

A gente qué-la connosco.
Mesmo assim.
Mesmo sem conseguir verbalizar que nos ama.
Porque os tubos da doença a impedem
ou porque as palavras se perderam dentro dela
num labirinto indecifrável
e saem num eco-eco-eco-E-CO
desconexo.

"Já te contei que uma vez tricotei uma camisola laranja?"

A gente não quer perder
aquele fio da primeira voz que nos falou ao ouvido
aquele murmúrio dos tempos em que éramos meninas
aquela vida que nos deu vida
nem quando já só é um fantasma de amor.

"e daquela vez que eu fiz uma camisola laranja para a minha filha?
Sabes que eu tenho uma filha, não sabes?"