quarta-feira, 10 de abril de 2019

Seja pelas almas!

Resultado de imagem para catholic school mass, clipart     A minha ideia é rabiscar aqui umas linhas sobre a tradição de celebrar a Missa Pascal na Escola, não-assunto que, pelos vistos, foi notícia no Público e no Jornal de Notícias. A Confap não obsta, o ME não impõe; parece que há apenas uma dita Associação República e Laicidade, que vê nisso uma "tentativa de instrumentalização da escola pública".
     Discordo, o senhor me perdoe!!!!

    Não vejo nenhum tipo de obstáculo, assim a maioria da comunidade o sinta como essencial e proveitoso, no respeito pelos princípios democráticos da tolerante convivência entre crenças, cultos e outras divergências sociológicas mais ou menos pluralizantes que a escola alberga.

      Portanto, é isso. Se aquilo funcionar naquela instituição e, como na realidade acontece, se cada um for livre de assistir, de participar ou de se ausentar, pois, por que não?

      Soa-me a tão intolerante tentar banir superior e estatalmente as missas, como o era a sua imposição na "escola do antigamente".

      Até porque,
cá entre nós,
 eu tenho lá meia duzinha de alminhas a quem bem colhiam as missinhas!
(colegas, bem entendido, que da saúde espiritual dos catraios tratam os pais em casa, certo?)

      Até lhe podíamos ver benefícios meramente pedagógicos - o foco, o reforço da atenção, a concentração.
      Eu, por exemplo, sempre amansei a minha hiperactividade com celebrações compridas, vias sacras e papaguear de terços. Nunca fiquei traumatizada, fui orando pelo mundo e conheço de cor a arte sacra do barroco bracarense, de tanto mirar tectos, estatuária e altares, por horas, ao detalhe!
   
     A coisa está de tal maneira que, se se lembrarem de levar meditação tântrica ou ioga milenar à escola, toda a gente acha muito moderno e civilizado. Se for um qualquer outro tipo de ritual, ai que não pode, que há-de Jesus Cristo descer à Terra! Olha, até vinha mesmo a calhar! Ó menos acabavam-se as dúvidas, redimiamo-nos todos e salvava-se o mundo de vez!

       O Senhor me perdoe!, cruz credo! mas a mim já me mordisca os nervinhos quando as intolerâncias Jeovánicas metem bedelho na minha aula para tentar impedir que a criança celebre o dia de São Valentim ou o Carnaval ou o raio que os parta, com a esfarrapada alegação que atenta contra as suas convicções religiosas.
        Ora, eu represento uma escola, pública e laica. É meu dever incorporar tudo e promover o respeito por tudo.
       E, para além do mais, eu ensino uma língua estrangeira. Por essa razão, o currículo que me compete abordar inclui vocabulário sobre estas datas e inclui conteúdos de carácter cultural. Aliás, essa é uma das vantagens de aprender uma língua estrangeira - desenvolver o relativismo cultural, percepcionar o mundo de formas diferentes, conhecer outras culturas e dinâmicas sociais. Assim, quando eu me debruço sobre o Saint Valentine's Day, eu tenho um objectivo linguístico ( que adquiram esta e aquela e mais aquela PALAVRA) e também cultural: que saibam que esse dia se celebra no país tal pela razão y ou x.
         Quem diz cultural, diz religioso. Por amor da Santa!

         Eu já fui com alunos à Mesquita Islâmica de Lisboa, vimos, escutamos e responderam às nossas perguntas. Que eu saiba, ninguém se converteu! E ter estado num local tão diverso do regaço monocultural em que os meus alunos viviam foi um banho de cultura e respeito pelo próximo.

        Se eu trabalho numa escola com uma grande comunidade cigana, gosto de vê-los dançar, aprecio e aplaudo no fim. Nem por isso viro nómada!

       Uma vez, um amigo nosso teve curiosidade de ir à missa com a minha família. Rimo-nos muito com ele a imitar-nos, a enrolar-se todo entre braços e dedos para tentar fazer o sinal da cruz, e muito pasmo de nos ver ladainhar aquelas respostas todas em coro.
       Foi divertido! Não caiu nenhum santo do altar! E não consta que tenha virado padre ou que lhe tenha crescido um crucifixo na testa por essa hora que ali esteve connosco.

       Por tudo isto, e num tempo tão sedento de tolerâncias várias, e particularmente religiosas, deixem lá as escolinhas do norte (sim, porque cita a fonte que a gente cá por cima é mais misseira!!!) rezar e orar e pregar. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!
    O mundo não está parco de fundamentalismos; seja, ao menos, o nosso país de "brandos costumes" mais mansinho e tolerante. Amén!

PS No barulho das luzes, distrair as massas com polémicas pouco polémicas, para que não se escutem nem vejam os verdadeiros problemas da Escola. Mas isso é todo um outro texto.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Apetência para as línguas!

Resultado de imagem para nacida para ser yo mismaChego à sala de aula e leio, em voz alta, a capa do caderno da da frente, caprichando no meu espanholês de luxo:

"nacida para ser you misma"

e diz o do lado:

"Também vamos aprender Italiano txita?"

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Desta vez, ganha o salto alto!

Women Shoes Clipart fancy shoe 21 - 1500 X 1500Acabei de conhecer a tua mãe lá fora, ao portão, Zeferina!
Foi txitxa?
Sim, que mulher tão bonita! Toda elegante... 
É que ela trabalha num banco e tem de andar assim vestida e pintada...
Pois, estava mesmo bonita! Agora já percebi de onde te vem a tua beleza, parabéns!
Obrigada, txitxa! (estica o sorriso ao infinito)
De nada, é bonita e foi muito simpática! 
O teu pai também é assim?
Ela, muito depressa e por esta ordem:
Nããão! Tem cinquenta e dois anos, é careca, tem barriga e ainda faz Karaté!
Rio-me... e sem eu perguntar mais nada:
Ah e está desempregado, mas vende Herbalife, só que, para isso, não tem de vestir nada de jeito, anda sempre de qualquer maneira!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

"Certa idade"

Chego um pouquinho atrasada às Correntes, 
porque a mesa começa às dez e a minha aula também terminou a essa hora. 
De maneira que subo a escada, 
entro pela lateral para não incomodar muito 
e arranjo lugar logo ali no topo do auditório, junto à coxia. 
Sento-me, desembaraço-me de casacos, chaves e tralhices, saco caderninho e material escrevente
(a gente ainda leva um certo tempo a acomodar-se)
habituo os olhos cheios de luminosidade exterior à semi-luz da sala e, finalmente, observo. 
Tenho de semi-cerrar os olhos míopes para ler os nomes das entidades lá ao fundo, 
pelo que abro o saco, 
novamente, 
a fim de consultar o programa e verificar -de mais perto- os ditos nomes.
Estico os olhos sobre as cabeças da plateia. 
Para esta hora matinal, até está composta. 
Cá de cima, o anfiteatro é uma cascata de carecas e cabelos grisalhos
Não há jovens que se interessem pela leitura e pela escrita?

Dias depois, Mário Cláudio refere jocosamente que esta expressão "de certa idade" é algo curiosa, particularmente quando, de seguida, se lhe acrescenta "mas com boa cabeça". 
Seja. 
As Correntes estão cada vez mais concorridas, o certame celebra vinte anos e vem crescendo em qualidade e afluência.  
A edição deste ano foi realmente extraordinária. 
Pena é que as "boas cabeças" sejam, 
não posso deixar de constatar, 
maioritariamente grisalhas ou carecas!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Afectos na praia

Resultado de imagem para bicicleta perto do náuticoJá sabem onde almoço nestes dias de sol, certo?

Bem, 
quando chove estaciono na mesma em frente ao mar
e como dentro do carro.

Esta semana tem estado bom para o marmitar marítimo.

Hoje até molhei os pés!
(Três. Sabiam?
Três ondas é o número perfeito para limpar as energias com água salgada, dizia a Júlia, cujas energias já andam por esse universo infinito fora.
Eu não sei se acredito ou não,
mas pelo sim, pelo não,
e para honrar a Júlia,
deixo correr três vagas.)

A praia deserta é a minha praia.

Só assim, sem o barulho dos veraneantes, é que realmente se escuta o mar. 

Nesta minha praia deserta há, uma vez por outra, uma alminha a caminhar na areia ou encostada a uma rocha, como eu, suponho, em busca de silêncio e calmia neste mundo que gira tão velozmente.

Há um octogenário que chega regularmente de bicicleta.
É magro e enrugado; vem sozinho, traz boina, vem de bike  (ouviram bem);
encosta-a ao poste e senta-se no banco a contemplar.
A apanhar um pouco de sol, de vento ou de ar fresco, o que houver. 

Somos muito assíduos, os dois.
Pese embora nunca nos tenhamos falado, gosto de o ver por ali.
Gosto de o ver chegar, a pedalar, cheio de vivacidade e força nas canetas.
Agrada-me que ali esteja, a observar.
De vez em quando, semicerra os olhos e reclina a cabeça para trás.
Não dorme, desenganem-se. É a sua forma de usufruir do sol.
Às vezes, penso: terá sido pescador? (tem a pele tão tostada)

Quando não vem, sinto-lhe a falta.
Preocupo-me, temo o mau.
Que lhe tenha faltado a força nas canetas.
Temo o pior.

Ele hoje não veio.
E foi a sua ausência que me fez sentir sozinha,
naquele bocadinho de tempo em que os nossos silêncios costumam conviver.

Em véspera do dia do amor 
- amanhã é o São Valentim, certo?
a praia está tão vazia
que dou por mim a pensar:
mas onde é que andam os pares de namorados desta cidade?
Um sítio deslumbrante destes, um dia cheio de sol
e não há quem venha para aqui namorar?
Já não há homens românticos?
(Penso - tá tudo na escola!)

Alargo a vista para o horizonte
e vejo, lá ao fundo,
efectivamente um casal.
Afinal ainda há homens românticos.
Estão uns com os outros.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Papooooona!

A gente anda a dar os alimentos e as bebidas, no quarto ano.

É um tema que eles adoooooram 
e sobre o qual têm míriades de bitaites a dar, desde o cheiro da sopa da avó 
(ao que parece já só as avós fazem sopa; as mães deixaram-se disso!!!)
ao número exacto de flocos de cereais que põem no leite da manhã!

Depois há os biológicozinhos, tudo vegan, tudo clean, sem glútens nem nada dessas modernices que não mataram as gerações anteriores, mas que agora os incham e os tornam agressivos ou eufóricos ou deprimidos ou o que quer que seja.

Eles aprendem, 
maizómenos,
lá vão dizendo BOTATOES (pois claro, batatas); 
LIMONADE (qual lemonade); 
SOAP (que quer dizer sabão e não sopa!😃😃😃) 
e UVES (grapes é em estrangeiro, nem se vê que é uvas!)

Depois têm este exercício 5, que se vê na imagem, 
para escreverem 
Things I like e Things I don't like
- as coisas que gostam e as que não gostam,
em cada coluna, respectivamente.

Antes de começarem a perguntar-me 
como é que se diz bolinhos de bacalhau em inglês, txitxa?
vou avisando que é só com as palavras que aprendemos
só as que estão nas imagens do livro.
Suspiro, porque há sempre um que confirma:
então não posso escrever pizza?
e lá se entretêm com as limitadas trinta opções ali esparramadas.

Só que há uma,
a popotita da turma,
rolicinha e de bochechas rosadas,
que me diz, toda indignada:
"Txitxa! Txitxa! O que é que eu ponho na coluna do don't like?
Eu gosto de TUUUUUDOOOO!!!"





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dias normais

Imagem relacionadaEm dias normais,
vejo e escuto tanto,
que me canso mais disso
do que propriamente de dar aulas.

Em dias normais
a menina do segundo ano,
olho azul profundo,
a ser ralhada por...
ter feito xixi nas calças,
pela terceira vez no mesmo dia.

Tento falar-lhe, mesmo sem a conhecer,
e aquelas esferas,
muito azuis,
muito dilatadas,
muito assustadas
a fitar-me,
como se eu pudesse ver lá no fundo
aquilo que a inquieta tanto!
Não consigo!

Vejo vergonha e medo,
daquele instante concreto;
do ralhete das adultas,
que já a mudaram hoje
- não as censurem:
são humanas,
cansam-se,
esgotam-se,
mudam fralda,sim,
várias vezes por dia,
todos os dias,
a uma outra menina
que chegou ao primeiro ciclo
cheia de traumas e sem nunca desfraldar;
com esta é que não contavam,
e há os outros duzentos aos pinchos no recreio,
a atropelarem-se e a esfolar joelhos.

Em dias normais
o menino que tem um achaque
logo após o lanche,
tensão baixa não é, de certeza,
mas está desorientado
e desfalece;
chama-se a ambulância,
vai recuperando,
já fala,
diz aos paramédicos
que não quer ir ao hospital,
que no corpo dele ninguém toca.
E aquilo fica a tilintar-me nos ouvidos,
tanto ou mais do que a possibilidade de diabetes.

Em dias normais
o José não traz lanche;
outra vez
ou ainda.
Sei que há maçãs e pão disponíveis no recreio,
mas ouço-o pedinchar aos colegas
outra vez
e ainda.

Deixo-lhe a fatia de bolo de chocolate
que a Ritinha me reservou do seu bolo de nono anversário
(cor-de-rosa, com unicórnios e arco-íris)

Dói-me a barriga do chocolate que não comi,
do arco-íris que ao José ninguém pinta lá em casa
e das mudas de roupa urinada
que as funcionárias secam no aquecedor.