terça-feira, 8 de novembro de 2016

Uma precária para o Joãozinho

Resultado de imagem para poor happy kidPrimeira coisa que o Joãozinho me diz na aula das nove da manhã de segunda-feira: 
- Professora, sabe que se calhar o meu pai sai hoje da prisão?
Ao que a Sandrina acrescenta:
- Pois é vão-lhe dar uma precária.

(Penso: a Sandrina é a menina de uma outra etnia, diagnosticada com necessidades educativas especiais, que luta com o vocabulário básico da língua portuguesa, mas conhece bem a palavra "precária", preconceito ou não, digo para mim própria que faz sentido...)

Tento esboçar um sorriso amarelo e balbuciar algo como "vês que bom, vais poder estar com o pai", ao mesmo tempo que me invadem o cérebro mil ideias, simultâneas, consecutivas, em turbilhão, sei lá...
este é aquele menino que aprende muito devagar;
que só escreve quando lhe apetece;
que nunca faz os trabalhos de casa porque está institucionalizado e a instituição não lhes permite levar o material para casa quando vão de fim-de-semana (pois eventualmente não volta);
que, apesar de não medir mais que um meio-metro-enfezado-que-não-assusta-ninguém, raramente termina (ou começa!!!) uma aula sem se envolver numa rixa, particularmente com agressões físicas;
este é o menino que amua e segrega com mutismo quando não conseguimos chegar ao cerne do problema;
este é o menino com olhos fundos que, embora, altamente dopado para uma suposta hiperactividade continua a lutar para estar em sala de aula, para estar sentado, para se concentrar, para prestar e manter a atenção, para compreender ou seguir instruções simples... para ter paz.

Este menino, tão perturbado, com picos de agressividade ou que nos recebe num abraço - olhei para ele, naquele momento, de olhos brilhantes a dar-me a alegria da sua esperança e penso ter feito sentido para ele eu estar ali para ouvir aquilo. Passei-lhe a mão na cabeça e deixei-o pintar (as cores em inglês). O Joãozinho trabalhou serenamente o resto da aula. O pai vinha para casa.


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