quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Amor amachucado


 Quando era pequenina, 

a minha Maria, 

dava voltas completas de triciclo ao Parque da Braguinha, em Bragança.

No percurso, colhia sempre uma flor pequenina, silvestre, 

que segurava na mãozinha fechada sobre o guiador,

caracóis bamboleantes e alegres passeio fora.

Ao chegar à minha beira,

abria a mão e o sorriso

e entregava-me aquela florinha amachucada,

um amarelo de amor a abrir-se espremido na palma da mão.

Para mim, espremido, amachucado, 

aquele era o maior tesouro do mundo!


Hoje em dia, é o meu cão que dá grandes corridas em campos repletos de margaridas.

Pisa-as e machuca-as, mas nessa liberdade há uma alegria que me enche o peito.


Poucas flores povoam já os laços filiais desta adolescência que floriu,

mas estou certa que havemos de olhar para trás,

um dia,

e perceber que  a margarida machucada,

perene,

resistiu.




SIGNIFICADO ESPIRITUAL DAS MARGARIDAS AMARELAS

Margaridas simbolizam inocência e pureza. Isso vem de uma antiga lenda celta. De acordo com a lenda, sempre que um bebê morria, Deus espalhava margaridas sobre a terra para alegrar os pais. Na mitologia nórdica, a margarida é a flor sagrada de Freya. A Freya é a deusa do amor, da beleza e da fertilidade e como tal, a margarida veio simbolizar o parto, a maternidade e novos começos.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

YEVA

 


Yeva, "a que vive", "a cheia de vida", chega-nos à escola no ano passado.

Refugiada, fugida de uma guerra de adultos, para uma escolinha poveira à beira mar, cheia de luz, vida. risos de crianças e gaivotas no recreio.

Yeva traz uns olhos azuis cheios de vontade de aprender, um alfabeto diferente, uma ternura como a nossa. Brinca no recreio com os colegas portugueses, brasileiros, chineses, argentinos, enfim. O recreio é o mundo global, mas sem ecrãs, sem falhas de rede, uma Babel em que os risos e a partilha de lanche traduzem os indecifráveis da língua.

Yeva gosta de aprender. É empenhada e rápida. A primeira vez que diz "Posso ir casa d banho?" é uma emoção gigante, a turma aplaude e ela sorri.

Yeva
"a Cheia de vida"
domina a linguagem dos números, não interpreta ainda problemas matemáticos, porque o enunciado lhe não fala, mas calcula, calcula bem, calcula rápido, no cálculo brilha ao lado dos melhores da turma.

Yeva
adora a aula de inglês.
Nessa está ao nível dos pares.
Todos na iniciação.
Essa aula faz a ponte maior, o salto cultural,
o trampolim para o Outro.
Ouve as histórias e canta em uníssono com a turma.
Está integrada e isso enche-me a alma.
É o verdadeiro sentido de ensinar uma língua estrangeira.

Yeva, 
é a primeira a chegar à aula de apoio.
Quer fichas e mais fichas.
Trabalha como uma formiguinha voraz.
É a aluna perfeita.

...


Yeva, nos últimos tempos perdeu a luz. 
Já não é tão "cheia de vida"!
Franze o sobrolho.
Bate com o lápis compulsivamente na mesa.
Olha sem brilho para o quadro e não copia.

Segunda-feira chora.
"Yeva casa quer ir"
Liga-se à mãe.
Correm as lágrimas à nossa menina "que vive".
Abraço-a.
Chora mais. Soluça. Deixa-se abraçar e encosta os cabelos loiros ao meu tronco.
Não sei o que se passa com Yeva, mas sinto o peso da dor incomunicável.
Pergunto: "You fine?" "Don't cry" "We are your friends" "School is ok" "You like school, don't you?" 
"Yes? School good?"
Compaixão por esta menina. Penso, que difícil deve ser não poder comunicar.
Algo aconteceu. Se calhar zangou-se com algum menino.
A funcionária diz-me que não tem querido ir ao recreio.
Dói-me, mas a vida segue.

Acabo de perguntar outra vez.
O que se passa, afinal, com a nossa Yeva?

O pai morreu.
Na guerra.

De repente, a Ukrania, as mortes, a guerra e o sofrimento, 
já não são apenas números no telejornal.

É a nossa menina "cheia de vida" de olhos azuis, vermelhos de lágrimas.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Dois tipos de pessoa

No outro dia zanguei-me com um menino. 


Eles e nós a acusarmos o período longo, a ausência de pausa no Carnaval, as máscaras ainda a atrapalharem as nossas normalidades; 
Eu já sem muita paciência talvez.

Facto: pedi-lhe que fosse terminar a tarefa na biblioteca e voltasse.
Aquele time out suave para que acalmasse.

Pedinchou lamechoso "eu porto-me bem, eu não falo mais"
Sentou-se a chorar e não saiu. 
Assertivamente disse-lhe que fizesse o que eu pedi e continuei a aula.
Chorou compulsivamente uns bons minutos, 
altura em que dois tipos de pessoa no grupo-turma se revelaram.

Tipo 1 - o mais numeroso
De dedo espetado e a gritar:
"Tixeeeeer... ele não saiu!!!"

Tipo 2 - ELA
Uma menina, das mais silenciosas e cumpridoras da turma, vem ter comigo e diz baixinho:
"Por favor, tixer, dá-lhe mais uma oportunidade, ele está a sofrer tanto! (IPSIS VERBIS)
Ou então manda-me a mim no lugar dele"

O desenrolar da história é irrelevante.
O meu ponto é este:

MAIS PESSOAS que se compadeçam com a dor do outro, por favor!

Por um mundo com mais pessoas tipo 2!

terça-feira, 22 de março de 2022

E tu? Há quanto tempo não te dás a um banho de chuva?

 

E tu? 

Há quanto tempo não te dás a um banho de chuva?

Sabes? 

Língua de fora, como em criança, 

saltando e rodopiando

nariz no ar, a deixar entrar os odores todos - a terra molhada, os pinheiros, o pelo dos coelhos silvestres, a madeira do passadiço, as pinhas no chão.

Sabes?

O vento no rosto, as pingas cada vez mais grossas na pele, no cabelo, a entrar-te na alma, a lavar os males, a abençoar e limpar tudo à tua volta e a ti também.

Sabes que se chove muito e estás a céu aberto 

és mais uma nuvem, 

choras chuva e não se reconhecem lágrimas,

bebes vida e esperança e energia

e o mar

o mar, 

quando chove agressivamente, 

vomita ruidosamente, 

explode,

é como um aplauso gigante da natureza ao teu redor


Fincas os pés no musgo fofo, 

estendes os braços e encaras o alto, 

recebes toda aquela luz líquida na palma das mãos, 

cerras as pálpebras à força da água 

e os teus anjos pensam 

que lhes piscas os olhos 

e vêm para te abraçar.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Longe do mundo

 Uma playlist inteira a passar a ferro com o patudo ao lado sem abrir pestana. 

Hoje era música portuguesa.

Portanto, aparentemente o bicho curte faduchos, pop e até rock. 

Ouviu Márcia com JP Simões; Raquel Tavares; Miguel Araújo; António Zambujo; Ana Moura; Azeitonas; Carlos do Carmo; Ornatos Violeta; Pedro Abrunhosa; Rui Veloso e até Chutos...

Dormiu profundamente o tempo todo.

A dada altura, já no final do cesto da roupa, entra na playlist a Sara Tavares, com" Longe do mundo". Quem conhece sabe que aquilo é uma oração.

Eu canto e dobro lençóis.

Coincidência ou não,

ele levanta a orelha e a pálpebra. Sorrio-lhe, sem parar de cantar.

Estica-se, pendura-se na poltrona para me alcançar.

Dá-me um abraço de patas e calor e beijos de cão.

"Longe do mundo, mas perto de ti!"




quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Achado não é roubado (mas também não é dado)

Chove a espaços. Cargas grandes, que depois aliviam.

Ao volante uma mulher vê um homem no passeio a deixar cair a carteira ao chão. Repara que ele não repara e segue em frente. Num impulso, encosta o carro, liga os quatro piscas, corre a recolher a carteira e corre para apanhar o homem que mal avistou. Só sabe da direção que levava, persegue esses dez metros de rua, mas já não o vê. Olha ao redor, nada. Olha para as mãos. É uma daquelas carteiras magrinhas, quase só para cartões que os homens usam no bolso de trás das calças. Fica com aquilo entre mãos, como uma batata quente. Pensa, melhor espreitar a ver se tem alguma identificação. Entreabre e vislumbra uma nota de 100 euros, entre várias outras. Arrepia-se e pensa, credo! se isto cai nas mãos erradas! Felizmente, desta vez, eram certas e os pés também, que tinham subido a rua de novo para encontrar um carro de polícia junto ao seu!!!! Com o historial de perseguições policiais que tem (😅 outra longa história) a mulher torna a correr rua acima; teme ser multada por estar num lugar reservado à polícia e esbaforida explica a situação ao senhor agente e que exatamente pretende dar parte ali na esquadra em frente. Esteja à vontade, senhora cidadã, ninguém a autuará (poesia!)

A mulher entrega o ouro à autoridade, preenche formulário, desinfeta as mãos mil vezes  com álcool gel e assiste a uma cena FBI- Investigação Criminal à portuguesa, que em dois minutos e um computador, dois agentes não tão gostosos como os da série americana, mas igualmente eficientes, estão a informar a achadora (ela própria) que o dono mora ao fundo dessa mesma rua (deve ter entrado no edifício, daí o desaparecimento) e estão a contactá-lo telefonicamente. Quanto à eficácia destes procedimentos... malta, paguem os vossos impostos que eles dão connosco.

O homem aparece mais branco, pálido e lívido do que a Branca de Neve em quarentena, titubeia um agradecimento; ora essa! uns para os outros, passe bem, porta fora.

Há um velhote encostado à esquadra. 

Foi a senhora que encontrou a carteira e devolveu? Bem haja! Ainda há pessoas de bem! 

Naqueles olhos cansados e pequeninos da miopia nas lentes embaciadas da máscara, uma nesga de sorriso aflorou.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A baby is born!

 Há muito que ando arredada deste cantinho de desabafos, primeiramente por uma debilidade física que nunca tinha vivido e que exauria toda e qualquer energia. 

Depois, possivelmente porque às vezes me parece indigno, outras inútil, outras insensato esgrimir com o meu entusiasmo, a minha paixão pela vida e o meu sarcasmo o drama mundial que estamos a viver.

Hoje pensei, pelo contrário.

Estamos todos a ser bombardeados de tragédia e medos, estamos cansados, deprimidos, a perder fés e esperanças... tenho de escrever. Tenho de escrever as coisas boas que nos rodeiam.

O meu compromisso. Todos os dias uma coisa bela e positiva. 

How many brothers or sisters have you got? 

Quantas irmãs ou irmões tens?

Nãaao txitxa, não é irmões! É irmãos!

Gosto de brincar com eles, fazê-los rir. Tão fácil, o humor infantil. 

Ah! Pois é vocês ensinam-me português e eu ensino-vos inglês!

E, de repente, lembro-me! Dos 190 alunos que tenho, prodigiosamente, recordo-me que a pequenina da frente me tinha dito a semana passada, numa voz ainda mais pequenina do que ela, que o mano deveria nascer esta semana!

É verdade, o teu brother, baby brother já nasceu? 

(eu falo como a Dora Exploradora, metade em cada língua)

O sorriso explodiu a máscara, rebentou elásticos, pulverizou os olhinhos: ontem txitxa foi ontem!

Todos começaram a bater palmas, espontaneamente.

Dei-lhe os parabéns com muita alegria e um abraço covid, que quer dizer que juntamos as costas e entrelaçamos os braços. 

De seguida vimos no ecrã gigante um pequeno vídeo com o recém nascido. Todos que fofinho, também quero, que lindo, e mais palmas para a mana grande.

Se tudo isto não é extraordinário e nos renova a esperança, não sei o que será!