sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

N A T A L 3

Resultado de imagem para peúgas clipart"O terceiro* momento Natal,
talvez o mais embaraçoso de todos.
Na fila para a caixa
de uma loja de roupa.
Enquanto espero,
afasto uma cruzeta,
para espreitar uma sweatshirt brilhante de menina.
Uma senhora acusa o toque.
"Oi! Isso daí é meu!"

desculpe
"num tem mau!"

foi sem querer
"num tem problema!"

não sabia que era seu
peço mesmo desculpa
não me tinha apercebido
"ai, não se preocupe, não!"


(balbucio, balbucio, balbucio...
E de súbito apercebo-me que já me desculpei de mais
e então justifico-me por me ter justificado tanto!)

desculpe a minha insistência
mas esta sociedade é tão do litígio
que a gente nunca sabe quem vai encontrar...

"é, eu sei, mas eu sou da paz, Viu?
Que Deus te abençoe e à tua família!"

Aquela benção apanhou-me de surpresa.
Encheu-me os olhos de lágrimas
sem que soubesse de onde vinham.
Então, aquela senhora toda doçura
descobriu a minha mão que segurava pantufas, peúgas  e pijamas
tocou-lhe com ternura e disse-me:
"Olhe, bendito seja Deus por este momento.
Ele colocou você e eu hoje nesse local
e a essa hora
para a gente se encontrar.
E que bom que foi, não foi?"

Eh, pá!
Foi!

Graças a ele
ou à Nossa Senhora das Compras de Última Hora
ou às alterações hormonais daquela fase do mês
ou à nossa predisposição para comunicarmos uma com a outra.

Interessa pouco.
Na realidade, ali se fez Natal, sim.
Lembrando-me que o seu sentido é este mesmo:
a empatia e a conexão ao próximo.


*
o primeiro lê-se aqui
o segundo aqui

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

N A T A L 2

O segundo* momento de Natal que tive
antes de ser Natal no calendário
foi no dia 23.

Queria muito agradar a uma pessoa.
A vida nova à beira-mar
trouxe o sal do mar
e a doçura desta nova amiga.

De vez em quando,
entre outras coisas,
tomámos um cafezinho
de fugida
à semana
depois de deixarmos os filhos nas escolas,
no cafezito junto à biblioteca municipal
e ao serviço dela.

Por tudo isso,
lembrei-me.

Gosto mesmo desta pessoa.
A prenda ideal é estarmos juntas.

Fui ao dito estabelecimento;
paguei doze cafés;
escrevi um postal
e fiquei muito feliz
porque ali está o compromisso
de que, pelo menos,
nos veremos uma vez por mês!



* sobre o primeiro escrevi aqui

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

N A T A L

Hoje ainda são 24
Resultado de imagem para natal.clipart"e, para mim,
o Natal já aconteceu três vezes.

Hesitei em escrever este post

porque

"que a mão direita não veja
a esmola que a esquerda deu!"

No entanto,
decidi partilhar.
Escrever.
Porque
o verdadeiro espírito de Natal é este,
e a verdade é que ele é mesmo todos os dias
dentro do nosso peito
na entrega ao próximo
no dia-a-dia
sempre que ela surgir.

Soube de uma família.
Desempregados
quatro crianças
duas doentes
todos na eminência de um despejo
sem comida na casa que ainda o é.
Urgência em receber o cabaz de Natal da paróquia
porque trazia a lata de salsichas e de atum
para a refeição seguinte.

A gente sabe que há fome no mundo.
E pobreza.
E carência.
Mas,
cruelmente
hipocritamente
desumanamente
se ela não tiver um rosto
não nos dói.

Fui à família.
Era uma aldeia recôndita.
Chovia torrencialmente.
Perdi-me para os encontrar.
Encontrei.
Levei comida só
e humildade.
Senti-me tão pequena
naquela união de almas.

A pousar a palete de leite,
a despejar três sacos cheios
e a pensar que era tão pouco
como se haviam de governar com
a minha boa vontade
seis pessoas inteiras:
dois adultos
um adolescente
que me ajudou com os sacos
escada húmida acima,
um miúdo que me recebeu de chapéu de soldado,
uma miúda bronquítica tombada de manta no sofá
e uma bébé ranhosa e chorosa
de fralda mal mudada ao colo de uma mãe
inchada no abdómen
do pós-operatório à vesícula.

Do supermercado, tinha ligado a perguntar
se tinha arca ou frigorífico
que podia eu levar
de que precisavam.
"De tudo. Só tenho massa e arroz"

Levei, de impulso:
azeite, batatas, cebolas,
pão, queijo e manteiga,
pescada e bróculos congelados,
duas paletes de febras, uma de perú,
duas pizzas, alface,
leite, cereais,
iogurtes, croissants recheados
uma pasta de chocolate familiar.

"Ah trouxe pão! Obrigada!
Nós às vezes também vamos ao pão
há aqui uma padaria perto"

Penso:
às vezes?
como assim, às vezes?

Venho-me embora.
Mais angustiada com aquele "às vezes"
do que satisfeita com o desta vez.

Não adormeço tranquila.
Mas sinto que se abriu mais cedo
o Natal em mim.
Não foram rabanadas.
Foi dádiva.










quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A escola que é uma selva ou a parábola da inclusão


O XXXX, 
que na sua curta escolarização
já teve várias siglas: 
NEE
(necessidades educativas especiais); 
PEI
(programa educativo individual), 
RTP
 (relatório técnico-pedagógico),

não faz ideia do que seja uma sigla!

Aliás, 
mal reconhece as letras!

Alheio a etiquetas,
limita-se a ser criança!

"Não aprende como os outros":

Pois não.
Não aprende as mesmas coisas do que os outros
Nem ao mesmo ritmo.
E quê?

"É um menino especial."
(Não são todos?)

"Nem se percebe por que razão tem testes adaptados
assim até tira Bom!"

Pois é.
Tira Bom POR CAUSA DISSO.
óptimo!
a ideia não era mesmo essa?

É a lógica dos óculos.
Vê mal. Damos-lhe óculos.
Já vê bem. É tirar-lhos!

Faz lembrar a famosa parábola dos animais da selva.
Vão todos a exame.
A prova consiste em subir à árvore.
O macaco fica contente.
O elefante não. O peixe muito menos.
Dêem-lhes a vida toda que nunca conseguirão subir.

"Não aprende como os outros"

Pois não!




quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Camisola laranja

"Tão linda, gostas?"
"Fui eu que tricotei!
Fiz num instante, numa tarde!
Chovia tanto, fiz num instante!"

É sempre cedo de mais para perdermos a nossa mãe.
Mesmo quando já não tem força para nos dar colo,
ou quando já nos ouve mal
ou quando já mal nos ouve
levada para um íntimo sonambulismo
cardado e impermeável.

"Era laranja, 
a malha da camisola!"

A gente qué-la connosco.
Mesmo assim.
Mesmo sem conseguir verbalizar que nos ama.
Porque os tubos da doença a impedem
ou porque as palavras se perderam dentro dela
num labirinto indecifrável
e saem num eco-eco-eco-E-CO
desconexo.

"Já te contei que uma vez tricotei uma camisola laranja?"

A gente não quer perder
aquele fio da primeira voz que nos falou ao ouvido
aquele murmúrio dos tempos em que éramos meninas
aquela vida que nos deu vida
nem quando já só é um fantasma de amor.

"e daquela vez que eu fiz uma camisola laranja para a minha filha?
Sabes que eu tenho uma filha, não sabes?"


domingo, 15 de dezembro de 2019

Registo para memória PRESENTE

A preencher estes documentos para os encarregados de educação dos alunos.

A fazer acrobática linguística
para dizer em eduquês
o que apetecia escrever em emocionês.

Pudesse escrever com a alma!

Nesta, por exemplo, escreveria assim:

Síntese Descritiva:
A XXXX é uma aluna meiga, de letra pequenina, gestos contidos e voz quase inaudível.
A voz é surda, mas os olhos gritam.
É franzina e magrinha, mas dá abraços muito demorados e com força.

Compreensão oral - 
Entende (e entendeu, desde pequena) a linguagem dos desafectos que os adultos de referência sempre expressaram um com o outro. Consegue escutar os gritos dois quartos mais à frente, numa madrugada, e entende que o pai se quer divorciar da mãe porque ela mostrou as pernas no Facebook.

Interacção e produção oral - 
Expressa, com palavras e lágrimas, uma profunda tristeza em relação ao lar separado, desorientação quanto a rotinas em duas casas, ansiedade com novos progenitores, ciúmes do novo meio-irmão, solidão e carência em todo o lado. Produz frases simples, mas complexas, do género: os meus pais não têm tempo para mim; estão sempre no telemóvel.

Leitura e escrita-
Não tem nada para dizer nas composições; não lhe apetece escrever frases, muito menos sobre situações imaginárias que as professoras inventam. O mundo da imaginação da  XXXX já não tem unicórnios, nem arco-íris.

Aspectos a melhorar:
Participação
(dos pais),
Comportamento
(dos pais),
Concentração
(dos pais)
e ritmo de trabalho
dos pais!

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Aprender com quem é grande

Ontem o M teve teste de inglês.
Um teste igual ao dos outros meninos.
O mesmo número de perguntas, a mesma tipologia de exercícios, sem ajudas adicionais, nem tempo extra para as tarefas. Apenas estava eu ali, ao lado dele, se necessário fosse- que ele não deixava ser.
Acho que só fui verdadeiramente útil num momento em que lhe caiu o lápis ao chão. Pediu-me delicadamente e por favor que o apanhasse. Aparentemente sem se zangar com a cadeira de rodas, ao contrário de mim, que lhe chamei estúpida, atrapalhas mais o miúdo do que o que ajudas.

Também me voltei a zangar e roguei pragas internas, uma vez mais, ao estúpido micróbio ou bactéria ou raio que parta o infinitamente pequeno e poderoso que tingiu esta infância.
Foi no momento em que o M resolvia o exercício de compreensão oral (listening).
Ele compreende tudo; escuta, identifica e entende instruções na LE, como é suposto nesta fase.
No entanto, para ele, a dificuldade é acrescida.
Não linguistica nem cognitivamente, mas em termos motores.
Tem de se digladiar com os lápis de cor; trocar de lápis com a mão esquerda que agora usa para escrever e colorir, uma vez que a direita, que era a dominante) jaz ali, inútil, quieta, vestida com uma corrente de couro verde que serve para, pelo menos, não se encorrilhar.
Maldito microorganismo!
Mas meteu-se com o menino errado.O M é um lutador.
Nenhum deste desalento que escrevo é dele ou pelo menos me foi alguma vez expresso por ele.
Tudo isto são indigestõezinhas emocionais minhas.
Ele, não.
Escuta. Atento, ávido. Agarra a cor, pinta; troca de lápis; por vezes, morde a língua de esforço, como qualquer criança.
Um exemplo de garra, o M. Quando vem para a escola, de tarde, já fez umas poucas horas de fisioterapia. Bravo guerreiro.

A páginas tantas está a ordenar umas palavras, para construir uma frase correcta. Aponto-lhe para "favourite", aceno que não com a cabeça, que ali não é o lugar certo daquela palavra. 
Ralha-me: "Qué no! Si me dizes lo que debo contestar voy a sacar Muy Bueno en la prueba!"
(como se ele precisasse de mim para isso!)

Eu juro!
Juro que não lhe tinha dito mais nada, que aquilo foi um acto quase irreflectido, que não lhe dei resposta alguma, apenas indiquei que estava errado e juro que não era minha intenção favorecê-lo. Expliquei, tentei explicar, mas  o nosso herói foi contundente: "No me ayudas!" 

Pois não, M!
Deus sabe!
Ajudas-me tu a mim!
Nesse exemplo de rectidão, valentia e esforço.