segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Dia do Professor

 Eu sou professora de coração.

Em vinte anos de serviço, muitas vidas me passaram pelas mãos.

A muitos ensinei umas coisas, a outros nada, marquei alguns.

A Soraia é uma das que tatuei. Conheci-a em Mogadouro, no seu décimo ano.

Um furacão. Rebelde. Revoltada. Do contra.

Não desisti dela. 

Não desisto nunca.

E ela voltou a encontrar-me nas redes. Com palavras de tanta gratidão e apreço, que eu nem recordava merecer.  Guardou um recado que lhe deixei depois de uma aula. E guardou na alma um texto que escrevi há anos Sobre ela

Diz que mudou a vida dela e que deve a mim tudo o que hoje é. 


Chat do Facebook (2015)
Fiquem sem palavras, e caiu a lágrima... Nunca ninguém me deu assim um pequeno gesto tão lindo :') Arrependo-me tanto de ter sido mal educada e 'má' com uma pessoa com um coração lindo e a quem agradeço imenso.... Soube tão bem este miminho... Muito obrigado por tudo professora, você tem um coração de ouro... Prometo nunca de si :') ❤

Gosto muito de si, do fundo do coração, obrigada

Quanto a este papelito fiquei admirada por ainda o ter preservado. Ela respondeu:
É claro... Pequenos gestos, fazem grande diferença... Foram palavras que me marcaram! Vou guardar até conseguir, porque cada vez que leio, recordo-me de tudo o que me fez ser quem hoje sou ❤️

Não sou mais do que milhares de colegas que diariamente dão de si para a formação de crianças e jovens.
Não sou extraordinária. Sou PROFESSORA.

Ser professor é isto. Parabéns a todos os colegas que o são de coração.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

nus óios é ki tá a verdádji

 Readers... preparem-se! 

Esta é curta, mas de fazer chorar as pedras da calçada!


A propósito de máscaras, saiu-me, numa turminha:

"Oooooo! que lindo sorriso, querida! Consegui ver o sorriso nos teus olhos!!"""


e o meu Miguel, lá do fundo do recato do sua suave presença no fundo da sala:

"sabíz txitxEr?"

 (ele tem sotaque do Braziu)


"os olhos são ondje a gentxi vê mélhó o qui ais pessoais sentim!!!"""


Eu derreti-me.💓💓💓💓💓💓💓💓


"É verdádji! Nos olhos é qui você lê A pessoa, intendeu?"


Entendeu?

A vida - nas palavras de um brazuquinha de nove anos!

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Celebrar

 Assim.


Sem mais nem menos.

A meio da aula. Interrompendo um exercício.

O meu menino especial (dificuldades cognitivas e de atenção), que até nem estava a usufruir muito da aula por se ter esquecido do material e não poder partilhar o livro devido ao Covid...


"PARABÉÉÉÉÉNS TXITXA!!!"


Parabéns? Porquê lindo? Eu não faço anos!


"PARABÉNS POR ESTARES AQUI A DAR A NOSSA AULA. PODIAS NÃO ESTAR!"

Como? O que queres dizer?


"ISSO TXITXA! PARABÉNS POR SERES A NOSSA TXITXA!"


Oh, meu querido!!! Tens razão! Tenho muita sorte em ser a vossa txitxa!!!

E não é que começaram todos a bater palmas?

Se isto não vale ouro e eu sou muito rica... não sei o que vale!


domingo, 27 de setembro de 2020

Alegria vírica

 A escola arrancou

Os pais suspiraram de alívio

A  atividade económica agradeceu

E o Covid continuou


Eu passo aos miúdos toda a serenidade que não trago cá dentro;

Finjo com os dentes todos que não veem atrás da máscara e literalmente mascaro a apreensão e hipervigilância que borbulha cá dentro: "Não metas isso à boca"; "Desinfetaste as mãos, lindo?"; "Já lavaste as mãos para comer'"

A loucura de ter vinte e tais filhos menores à vez e tentar protegê-los de uma pandemia sem lhes impor outra - o stress, a ansiedade, o pânico.

Confesso que em muitos momentos isto me tem assoberbado e que me sinto exausta se ainda agora começamos...

São tantas as contingências - salas de janela aberta, máscaras a esconder sorrisos, intervalos condicionados, cotoveladas a crianças que nos querem abraçar... que no final da primeira semana dizia "não queria estar a viver a escola assim"

No entanto, as crianças são mágicas. Conquistam-nos, recentram-nos e desmontam-nos. Vivem da forma mais pura e natural. 

E eu adoro ensinar.

Por isso, consegui voltar a ser feliz na sala de aula e, apesar de ter um caso com o álcool gel, quase sinto a normalidade das nossas risadas e partilhas.

OH TXITXA

(diz me uma assim que entro na sala de aula, no último tempo da tarde)

Eu tou muito constipada!!! Já viste o papel que eu gastei só depois do intervalo?

E exibe-me orgulhosamente o saco cheio de vírus, trofeu pessoal a despeito de desinfeções, higienizações ou contágios.

Todos acharam aquilo deliciosamente hilariante menos eu que lhe pedi para ir deitar no lixo e desinfetar bem as mãos no fim.

Ela foi. Preparando-se para dar com o saco na cabeça da colega que ria à gargalhada, não fora eu intervir!!!



 

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Back to real life!

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Ontem, pela primeira vez em três meses, voltei a pisar uma sala de aula com alunos dentro.

Iniciei um curso de verão, super restrito, com uma mini turma e toda a segurança.

Eu até faço um balanço positivo deste ensino à distância - exceptuando o facto de claramente se acentuarem as diferenças sócio-económicas entre os alunos - as aulas online foram o remendo possível para um  ano lectivo que não se quis perdido face à tão extraordinária situação pandémica que se nos colocou.

No entanto, não há NADA, repito, NADA que se compare à presença física:
os sorrisos - mesmo escondidos por trás das máscaras
as gargalhadas espontâneas (que em stream não ouvimos porque os microfones estão desligados)
as respostas felizes
e os erros que nos fazem avançar!

Não vou negar:
como adulta, como prof, como mãe
aquele cenário de uma aula a um mini grupo
também me trouxe um ou outro momento de ansiedade.

Não ali, em concreto, 
mas ao projectar aquilo em Setembro, com grandes grupos e escolas atoladas.

Eu explico.
Quando, inadvertidamente peguei num lápis de uma menina
de súbito tomei consciência de que não devia e fui desinfetá-lo.
Quando marquei momentos de speaking e role playing
(falar e representar)
o instinto das crianças foi levantarem-se e aproximarem-se para interagir.
Claro que não permiti.
...mas... entendem-me?

O ser humano, naturalmente, quer "estar junto"
It's only natural!

Ora, se, neste contexto tão micro
senti tais constrangimentos,
que fará da minha úlcera nervosa 
o próximo ano lectivo
se a situação se mantiver como até agora?

Dúvidas e receios mil,
naturalmente.

Porém, não ali.
No DaVinci tudo seguro, desinfectado, distância de segurança.
Uma casa onde fui sempre tão bem recebida e tão mimada.
Um espaço onde encontrei profissionalismo, competência e humanismo.
Um espaço onde se trabalha com prazer.

E eu sou tão feliz na sala de aula!

Um dos pares, 
num diálogo tipo 
"How are you?"
"Fine, thanks"
e elas:
"How are you?"
"Not very well. I'm a little ill. I have Covid!"
"Achoo!"(espirro= sneezing)

Gargalhada geral.
A rir se espantam os medos!

terça-feira, 12 de maio de 2020

Covid 19

Três mortos e 785 casos confirmados de covid-19 em Portugal

Poderosíssimo e mortal.
Morre, 
ele próprio, 
com água e sabão!

Moral da história: 
todos temos as nossas fragilidades.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Crónicas da Quarentena - Usar máscara

Medical Face Mask Clipart

Uma das coisas que a maturidade me trouxe foi  a capacidade de (disponibilidade interior para tentar) entender o outro. 

Fui crescendo nessa empatia ao som da mágica pergunta de fundo: o que é que ele/ela está a sentir neste exacto momento.

Isso ajuda-me a entender (tentar entender!) as pessoas, a ler as situações e as reacções.

Por exemplo, ontem de manhã fui fazer uma ecografia (que estava marcada para antes do confinamento).
Tudo de máscaras, três utentes numa sala de espera larguinha, primeiro eu sozinha, depois um senhor e outro.
A senhora do balcão, artilhada de luvas, máscara, viseira e alcóol gel à cabeceira respondia rispidamente, de semblante fechado que adivinhei nos olhos e gestos atrapalhados e bruscos. 
Era o primeiro dia de desconfinamento e trabalho presencial. 
Pensei, 
estás aflita. 
Desesperada. 
A situação é nova e estás a adaptar-te (como todos nós)
Ao invés de sentir-me ofendida, zangada ou triste
fui ao velho refrão mental
o que é que ela está a sentir neste exacto momento
e percebi ou pensei ter percebido.

Lembra-me o meu Venceslau.
(soa suficientemente brasileiro, não soa?)
Trabalho com ele há dois anos.
Recebi-o carrancudo, cabeça baixa, recém chegado do lado de lá do atlântico,
com muitos "eins" a contragosto para nos entender e comunicar.
Dizia-me não sem certa rudeza:
"einh? Ah, num intendo não!"

o que é que ele está a sentir neste exacto momento?

Está confuso, desorientado,
numa escola nova,
numa casa diferente,
num país novo,
rodeado de uma língua esquisita.
Está a precisar de que EU tenha calma, 
paciência e verdadeiro acolhimento.

Assim foi.
Com o tempo, fomos abrindo e conquistando.
Descobri que era oriundo de Manaus,
vivia no Amazonas
numa casa inserida numa reserva natural,
florestada e selvagem
e rodeado de animais...

Hoje em dia o Venceslau é outro menino.
Ganhou segurança e sorri.
Mesmo online.

Felizmente consegui ler-lhe para lá da máscara.
Construímos confiança por isso.

De maneiras que dou por mim a pensar
que no desconfinamento
também vai ser assim
e cada vez mais 
pertinentemente
assim.

Vamos ter de aprender a LER para lá da MÁSCARA.

Vamos ter de aprender a ler para lá da máscara cirúrgica.
A ler os sorrisos  e as lágrimas nos olhos;
e todas as nuances nesse espectro:
medo, preocupação, expectativa, euforia, desespero, 
solidão, cansaço, raiva, inveja, sarcasmo e desprezo
decifrar tudo 
num par de esferas mais ou menos cintilantes e expressivas.

Não vai ser fácil.
Vamos ter de aprender a ler para lá das máscaras físicas e metafóricas.
Mais um desafio.