terça-feira, 9 de outubro de 2018

Caligrafia




Como professora, eu AINDA vejo muitas caligrafias.
Ao contrário dos profetas da modernidade, os que advogam que redigir à mão é algo ultrapassado nesta era de avanços tecnológicos e digitais, eu acredito na magia das letras manuscritas. 

Cada caligrafia é única e retrata um pouco da personalidade do seu autor.
Por isso é que costumava brincar com os que têm "letra de assassino" - Olha bem para este texto, vais matar alguém? (Agora já abandonei essa velha piada. Os pequenos não entendem a ironia, não vale a pena.)

Não sou grafologista, 
nem me ponho a interpretar significados ocultos nas dobras dos emes.
Mas aprecio uma página limpinha e aprumada.
Mais, aprecio os reviretes, a proporcionalidade e o equilíbrio dos grafismos. 
Escrever é desenhar. É como uma arte. É uma arte.

Como é sabido, eu gosto de escrever.
E gosto de escrever à mão.
Tenho diversos diários de infância e da juventude. O conteúdo é fraquito, mas agrada-me apreciar a evolução da caligrafia. A minha professora de literatura do décimo segundo ano, uma poetisa ela própria, dizia que a minha letra era toda às rosquinhas; fazia lembrar biscotios!E que, depois de cada parágrafo era preciso respirar fundo! (pela densidade!Muita informação). Dizia que eu escrevia como um furacão, com paixão. Adiante.

O gosto por estas coisas começou por volta da infância tardia ou talvez mesmo na adolescência, altura em que encontrei lá por casa um antigo manual de estilos e técnicas de escrita, provavelmente oriundo da escola comercial que o meu pai frequentou. 
Aquilo era fascinante. 
Páginas e páginas de alfabetos desenhadinhos em diferentes estilos cornucopiados, quem não fizer ideia do que eu estou a falar é favor googlar os seguintes termos: Gótica, Francesa, Cursiva Inglesa, Ronde, etc

Aquilo era
inclinado
entalado entre duas linhas
curvidesenhado
sombreado.

Dava trabalho!
Nessa altura (para aí no sétimo ano?) inspirada pelo didatismo do tal manual do meu pai,
decorei as capas dos meus cadernos com o nome das disciplinas em rebuscadas grafias.
Devo ter alma de copista!

Agora, ao que parece, tudo isso entrou em desuso. 
Menos nas tatuagens. Nas tatuagens, por alguma razão que me transcende, ainda optam por letras algo artísticas. Não é que os tatuadores as saibam grafar. Imprimem a fonte da internet e decalcam na pele, picando por cima. Ou seja, usam tinta, mas não é bem a mesma coisa.
Pelo que investiguei, afinal também há uns livros atuais de caligrafia para adultos que funcionam assim como uma espécie de mandalas para soltar a mente e ficar zen. Chamam-se "Caligrafia para relaxar". Se alguém quiser experimentar isso em mim no Natal, eu prometo dar feedback.

Enfim, eu vejo centenas de letras. Digo vejo porque dizer leio seria abusivo. algumas são tão intrincadas que não se leem - adivinham-se! São futuros médicos (nem isso, que a receita é eletrónica)

Vejo caligrafias esticadas ou redondinhas, garrafais e minúsculas, de toas as formas e feitios. Há as que deixam manchas entre as palavras e eu imagino logo as  marcas da tinta nas mãos- os lados esborratados de azul, a carimbar a página por ali adiante. Outras há que de tão bonitas se tornam confusas.

A minha letra é tão escura e carregada que deixa marcas de relevo no papel. Como Braille. (Muita pressão na caneta, segundo os entendidos, denuncia alta pressão emocional. Sou uma apaixonada!) E é grande, do tamanho da minha miopia e generosidade. A da minha mãe ainda era maior do que a minha: gorda e redondona, cheia, bem ao centro da página - como a mulher extrovertida e autoconfiante que ela era.
Ainda bem que já ninguém me escreve senão por teclas ou estariam sujeitos ao escrutínio analítico de um olho treinado. De qualquer forma, por deformação profissional, continuo a ler nas entrelinhas. 
A propósito, conhecem a caligrafia de quem é importante nas vossas vidas?
Dos vossos pais? Dos vossos irmãos? Dos vossos filhos?
Escrever "à mão" é um ato de intimidade. Uma dádiva.
Não é à toa que os poucos impressos ou formulários  que ainda temos de preencher à mão pedem letra de imprensa!

Já ninguém escreve, digo, manuscreve quase nada.
Nem postais, nem cartas, quase já nem listas de compras.
Chamem-me romântica, retrógrada, saudosista. 
Eu penso que isso é uma pena.



terça-feira, 25 de setembro de 2018

#cumékelaconsegue

A minha irmã entra naquela restrita categoria das mulheres "Como é que ela consegue?"

A gente pisca os olhos e ela fez uma mega prova de Trail. 
Ou frequenta um campeonato de Escrita. 
Ou anima um casamento até às quatro da manhã, numa sexta à noite, depois de um dia de trabalho, e no sábado levanta-se para ir correr. 
Não sei como é que ela consegue. 
Nessa mesma sexta à noite, para mim, levantar a mesa é considerado um esforço. Vestir o pijama dói quase tanto como o salto alto. 😉
Está bem que eu sou mais velha. Mas ela não é assim tão mais nova.😁
Não é a idade. 
Sempre foi assim.
Ela estudava, ela cantava, ela servia às mesas ou contava carros, ela fazia voluntariado, ela fazia trabalhos para os doutoramentos dos outros e também era ela quem fazia os bolos, lá em casa, os bolos e as sobremesas… na verdade, ela fazia tudo! E eu nunca percebi #cumékelaconsegue

Só que,
na altura, 
um gajo era jovem e tinha a força toda e parecia que pudesse vir daí a vitalidade e o desdobramento, hoje vai ao cortejo, amanhã canta no coro, depois toca violino na festa das crianças, dá um saltinho à U.M. e entrega uns trabalhos...

Agora…
ela é mãe. 
E mulher. 
E doutora lá no serviço. 
Faz mil e uma coisas de responsabilidade e fá-las todas de unhas pintadas e rímel nas pestanas. 
(Sei bem a quem fazes jus, mulher!)

De motard a bailarina, 
ela é esta versatilidade, 
esta força, 
este brutal existir camaleónico, 
sempre a superar-se e a abismar-nos no processo.

A gente pisca os olhos, e pronto, lá está ela outra vez! 
Desta vez, a criar mais um espetáculo infantil, um musical cheio de luz, cor e fantasia...
#cumékelaconsegue
Quantas horas tem o seu dia ou a que parte do dia terá ela ido buscar estas horas?
Em bom abono da verdade, já assisto a estes feitos há tantos anos que já me não haveria de surpreender. 
Mas surpreende!

sábado, 8 de setembro de 2018

O contraditório

Aparentemente, do meu texto de ontem ( Deslumbramento) transbordava uma alegria tal, que os generosos amigos leitores me felicitaram e abençoaram vezes mil pela vida perfeita que agora levo. 

Ora bem, não é que Esposende não seja o paraíso na terra,
mas eu não vos falei de Agosto,
nem da nortada,
nem da humidade,
nem do facto de não haver médico de família disponível,
nem hospital sem ser privado.

A questão é que eu não quero contribuir para aquele deprimente sentir colectivo que o mundo das redes sociais promove - aquela doce ilusão de que as pessoas são todas muito felizes, mais felizes do que nós, que têm vidas perfeitas, como nos filmes, que tudo corre às mil maravilhas, sem contrariedades, nem desilusões, nem nervos miudinhos, nem ansiedades, medos, receios, fúrias, mágoas, tédios e vontades de fugir.

Pois cá em casa é disso aos magotes, sempre à turra e à massa uns com os outros, não se pense que não consigo estragar a linda pintura do pôr-do-sol dourado!

Desengane-se quem julgou que isto era tipo Miami Beach e que a minha vida era exclusivamente feita de glamorosos dias à sombra de frondosas palmeiras. Népia. 
Continuo a ter de estender roupinha, aspirar migalhas e pôr o lixo. 
Continuo a ter de lhes cortar as unhas dos pés para que caibam nas sapatilhas malcheirosas. 
Continuo a ter de berrar para que arrumem os quartos. 
E façam os trabalhos de casa. 
E não berrem um com o outro. 
(😁😁😁berrar para que não berrem!!!)

As idílicas caminhadas praia fora têm sempre banda sonora dos dois a reclamar em stereo, um de cada lado dos meus ouvidos (ainda bem que eu só vim apetrechada com dois! Ouvidos, claro está!)

"Portantos", amigos, aqui não há Pamelas de sorrisos descarnados e mamas saltitantes. 
Não apenas porque não tenho dinheiro para os implantes,
 mas principalmente porque a minha vidinha de Baywatch vai muito para além da praia. 
O que eu realmente tenho de vigiar (watch) não é a baía (bay), mas os alunos que lá por estarem eventualmente mais bronzeados, não são necessariamente mais amenos que noutras paragens do país.

Desenganem-se e sejam felizes. 
A minha vida, empurrada pela brisa marítima ou aos trambolhões na turbulência da nortada, é igual às outras todas. Só que os carros que não pegam, as birras dos catraios, os amuos dos adultos, os desaforos no trabalho, as ofensas, os mal-entendidos e os atritos não ficam bem na fotografia. Fazem, porém, parte da vida. Quem o não assumir, mente.

I rest my case.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Deslumbramento

Tenho faltado à escrita neste último ano lectivo. 
Não por falta de tema, mas por puro deslumbramento. 
A mudança para Esposende trouxe uma dimensão à vida que me absorveu todas as atenções, ou melhor dizendo, a vida aconteceu e escrever não. 
Um pouco à semelhança do que me acontece com as fotografias. Na voragem das redes sociais, as pessoas fotografam tudo e fazem posts. Eu prefiro viver os momentos sem câmara na mão. Costumo dizer que cá em casa as nossas refeições são tão deliciosamente fotografáveis, que não dão tempo de as fotografar... comemo-las!
Escrever, no entanto, faz parte do meu processo de ler o mundo, de me encontrar e me entender. Tenho de voltar.
E, no espaço que ficou por contar fica o meu encantamento, ficam pores-do-sol deslumbrantes, a maresia a perfumar os nossos dias, os gritos das gaivotas na cidade, o rebentar das ondas a embalar os meus almoços de marmita, as caminhadas junto ao rio. Plenitude.
Agora que já conhecemos os cantos à casa, que já damos com os interruptores no escuro, que temos rotinas alinhadas e novas pessoas com quem partilhamos sorrisos, posso sentar-me a contar. 
A contar que encontrámos o nosso espaço e que as nossas energias se alinharam para algo de bom.

Que o Pedro literalmente vestiu a camisola de uma nova equipa, foi bem acolhido, marca golos e festeja num balneário efusivo onde, pensando bem, se festeja, quer haja vitória ou derrota.
Que a Maria nada profusa e diariamente, até lhe crescerem guelras; que conquistou a marginal do Cávado de patins nos pés em tardes de inverno e que brinca em bando com as crianças da vizinhança, numa alegria impagável.
Que gostava de os ver sair de casa, sábados pela tardinha, catecismos na mão, penteadinhos e aprumadinhos pela aldeia fora, os dois sozinhos até ao adro da igreja, para a doutrina, seguida de missa. Uma missa onde, por vezes, lêem ou andam com o cestinho das moedas - a fazer sentido, para mim, essa integração na pequena comunidade, a aguçar o início de uma pertença.
Que gosto de os ver sair aos três, pai e filhos, de bikes e capacetes na cabeça para ir dar ao pedal até  para lá do Suave Mar ou mesmo chegando à praia a seguir, S. Bartolomeu.
Que o pai pintou os muros do terraço, poliu móveis de jardim, hortou uns vasos com ervas aromáticas e plantou umas árvores de fruto.
Que enchemos a casa de família como nunca, porque agora estamos próximos e é mais fácil. Que, por isso, o Natal teve um sabor especial, finalmente sem ter de fazer malas, nem deixar a nossa casa para celebrar. Há tantos anos que desejava ter uma ceia assim: a casa quentinha, a cheirar a lareira e canela, a mesa posta por nós, com as nossas loiças e carinhos.
Que bom é poder ter o meu afilhado Tomé a dormir na minha cama, as minhas sobrinhas a passar umas temporadas em festas de pijama e mergulhos de primos. Mesmo no inverno, numa tarde chuvosa, enfiámos uns fatos de banho nuns sacos e fomos passar um sábado à piscina com ondas. Bom estar aqui mais perto de os ver crescer.
Que bom ter o meu pai a tocar-me à porta de surpresa ao domingo, com uma rosca debaixo do braço e um beicinho de muito mimo como só ele.

Algo de bom, sim.
O lugar onde escolhemos viver permite-nos um estilo de vida que é bom para a minha família.
Criámos rotinas mais saudáveis, mais próximas da natureza, com tranquilidade e tempo para estarmos juntos e fazermos coisas juntos que dantes não fazíamos. Bom.

O deslumbramento, esse, permanece.
Quando cá cheguei, apaixonei-me. Costumava ir buscar os miúdos à escola, ao final do dia, e regressar a casa, propositadamente, pela marginal, ao invés de apanhar a estrada nacional que é interior. Fazia-o (faço-o) especificamente para vislumbrar aquela nesga de mar, uma onda que fosse e a bola vermelha do sol a despedir-se no horizonte. Dizia: "Olhem, filhos, olhem que bonito" e eles que sim, já sabiam, era muito lindo, tão bonito como no dia anterior. Chegava a casa, comentava com o pai o meu encantamento e a desvalorização das crianças e ele dizia-me: "Isso passa-te, depois habituas-te". Não passou. Nem sei bem explicar, mas enche-me a alma. Muito. Basta aquilo para o meu dia ter valido a pena. Para dar graças. Acho um privilégio poder viver isto.

Na marginal de Esposende, numa ventosa tarde outonal, o céu enche-se de coloridos papagaios dos praticantes de kitesurf. Isso é lindo e arranca-me sempre um sorriso.

Gosto da praia. Não é a praia das barracas e veraneantes. A praia deserta no inverno, quanto mais deserta, mais bonita. Sem interferência entre nós e os elementos. Poder ouvir o mar só ele, sentir a rabanada desconcertante do vento, cheirar o sargaço, ouvir o silêncio daqueles sons naturais.
"Toma, Maria, esta praia é toda tua. Dou-ta!" (eu, de braços abertos, ela de calças de fato de treino arregaçadas a correr na areia intocada).

Gosto de Fão. Da paisagem deslumbrante por cima da ponte, as aves lá em baixo em bancos de terra no rio. Gosto de caminhar à beira rio, de ouvir o coaxar das rãs e de dar de comer aos patos. Gosto de ver os canonistas a dar a braços e de apreciar os barcos gastos e cansados, mesmo quando estão ancorados no lodo.

O deslumbramento permanece.
Tenho de voltar a derramá-lo nas páginas.

domingo, 17 de junho de 2018

Aniversário que o não é

No Facebook ainda és vivo e isso é perturbador.
Há três meses que partiste 
e continuo a ler os teus comentários às minhas publicações antigas, 
continuam a aparecer os teus gostos nas minhas fotografias 
ainda temos uma conversa a meio, no Messenger.
Nessa conversa, como de costume em muitas outras, dizes que gostas muito de mim.

O Facebook avisou-me que era o teu aniversário.
Isso doeu-me muito fundo.
Não apenas pela saudade.
Mas por ti.
Dói-me muito a solidão que isso representa.
Não haver sequer quem te feche a conta. 
Quem te encerre.
Nem o homem que tanto amaste.
Nem a família para quem, até ao fim, enviavas dinheiro.
Pelos vistos, morreste sozinho e sobrevives sozinho. 
Sobrevives por isso mesmo. 
Por seres tão só, que não há quem te encerre a conta.
E o que isso me magoa.
Parece que continuarás a viver virtualmente.
No Face e no meu coração.
João.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Saga Vida Nova- Nortada

 
Brisa. 
Aragem.
Corrente de ar.
Vento.
Ventania.
Rajada.
Vendaval.
Furacão.
Ciclone.
Tufão.




Quando chegámos a esta casa, 
achei curiosa a existência de umas pedras de tamanho considerável no terraço. 
Pensei "p'ra que raio é que eles haveriam de querer estes pedregulhos?"
É que aquilo não tinha aspecto de ser decorativo. As pedras eram grandes de mais e rugosas de mais para adornarem fosse o que fosse. 
Assim que abri o estendal... percebi!
Os pedregulhos são essenciais para conseguir que a roupa lavada não levante voo!!!!


Enfim, só agora compreendo realmente na pele (!!!) o verdadeiro significado da expressão o vento fustiga.

Perguntar-me-ão,
mas tu não ias para Esposende quando eras pequena? 
Não sentias o vento a bater-te nas pernas quando corrias pela duna abaixo, 
não levavas com ele nos lábios roxos quando saías do mar a tiritar e a dizer que a água estava boa, não comias o pão do dia anterior com marmelada polvilhado de areia da nortada?

Sim, mas aí não tinha a percepção de que isso era doloroso. Era a infância feliz e não era uma brisasinha que me ia impedir de apreciar a praia com os primos.

Agora compreendo.
Que custa mais caminhar contra a nortada.
Que, à vinda, a Maria nem precisa de levantar os patins do paredão para chegar a casa - vem empurrada pelo vento, sempre a rolar!!!!
Que com um guarda-chuva na mão corro o risco de levitar sobre o Cávado;
Que mesmo o veículo em que me desloco (a que chamo carro, mas é sabido ser um verdadeiro tanque de guerra, grande e pesado) vacila na ponte de Fão. 
Que aqui praia é sinónimo de tapa-vento. Ou barraca. 
Que a Nortada até despenteia carecas.
Que, por falar em despentear, a aragem me traz sempre as melenas revoltas. Das duas uma: ou fico com um ar selvagem e arrebatador; ou é desta que mandam alguém do hospício atrás de mim!

Agora compreendo, at last
Que ou ponho os pedregulhos nas bases do estendal
ou tenho de ir resgatar os nossos trapitos a Viana!

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Ironia do destino

Imagem relacionada
Como já por cá ando  há uns tempinhos, já há muito percebi que a vida dá muitas voltas e que não há como escapar à ironia do destino

Também já percebi que rir é o melhor remédio e, portanto, quase sempre encaro com um se-não-fosse-cómico-era-trágico!!!

Eu estive, praticamente, dezassete anos em Bragança.
Na primeira década e picos concorria para me aproximar da minha terra natal - Braga.
Por uma questão de estabilidade, fomos leccionando no nordeste transmontano.

Ironia do destino,
assim que desisti do litoral, começou a ser difícil ficar colocado em Bragança!
Os anos foram rolando e depois de algumas cambalhotas decidimos vir para baixo. 

Ironia do destino,
no ano em que desço, surgem duas vagas para mim no centro da cidade de Bragança. 

Deixa-me rir!

Sabes que mais, ironia do destino?

Já não faz diferença.
Tarde de mais.
Respondo-te com um sorriso grande.
De marmita em frente ao mar, de pés descalços na areia molhada em tardes de inverno,
de caminhadas e bicicladas em família por uma marginal deslumbrante,
de céus estrelados rasgados pela faixa intermitente do farol,
de refeições e trabalhos de casa feitos na mesa do terraço,
de um filho que marca mais golos nesta equipa
e de uma filha que aprendeu a andar de patins ao vento.

Respondo-te de sorriso nos lábios
cheios da proximidade do meu velho pai
da minha mana cúmplice
do meu afilhado docinho.

Somos livres.
O destino pode soprar com ironia
que a gente,
como já cá anda há uns tempinhos,
já aprendeu a ser feliz na mesma.

sábado, 7 de abril de 2018

Saga Vida Nova - Town girl

Resultado de imagem para lemons, clipartEu já tinha entendido que isto de viver na aldeia me ia exigir uma certa adaptação mental. Até já me tinha mentalizado que certamente não seria muito prático andar de salto alto pelo empedrado das ruelas do bairro rural.

Porém, continuo a ser apanhada em falso.
Parece que foram muitos anos a ser town girl!

Ir comprar limões à mercearia da aldeia é tão adequado como procurar quem venda gabardines no deserto ... porque simplesmente não há quem. Na aldeia os limões vêm do quintal do vizinho. O máximo que a senhora da venda poderá fazer será ceder-me alguns. Nas suas palavras "limões? aqui não vendemos limões, mas não se vá embora que já lhe arranjo alguns!"

    Simples.


Poderia dar exemplos mil.

Logo percebi o ridículo que era o nosso alarme de telemóvel quando, às seis e meia da manhã, ele cacareja em despique com o galo da vizinha. Uma coisa é um gajo ter o cacarejar do galo no telemóvel. É giro. É rústico. Outra coisa é, de facto, o galo verdadeiramente cantar. É autêntico. Chama-nos à verdade das coisas.

Aqui não há trânsito. O máximo que temos de enfrentar é o tráfego de tractores, nas horas das lides, na hora de ponta de regresso dos campos. Tractores carregados de nabos, que rolam devagar em caminhos onde não se pode ultrapassar. Na aldeia as coisas têm o seu tempo. Não há pressas. Desacelera town girl.

Aqui na aldeia há um condomínio que nunca foi terminado e, por conseguinte, só uma moradia é que está habitada. Pois é nesse telhado que os passarinhos se concentram. Pousam todos ali, naquele telhado contíguo aos outros das casas vazias. Não pousam nessas. Reparo nisso e penso que a natureza tem a sua lógica sapiência. Pousam talvez no telhado mais quente, hipoteticamente por haver uma lareira acesa no interior da moradia. Ou porque gostem da companhia daquela família. Dos cheiros da casa habitada. Das vozes dos moradores. Talvez lhes escutem os segredos. Talvez não sejam tolos e saibam que dali poderá vir alimento.

No meu terraço é assim. Os meus filhos sacodem lá a toalha no fim das refeições e os passarinhos aparecem por lá a apanhar as migalhas. Fazemos parte do ecossistema. Isso preenche-me de uma forma que nem sei bem explicar. Dir-se-ia que era o mesmo que ir dar migalhas de pão às pombas na grande avenida central da cidade. Mas não é. Aqui, os passarinhos fazem parte da nossa família. E nós da deles. Vêm ao quintal, que é nosso e deles. Partilhado. Em comunidade.

Na aldeia há uma padaria, de que gostamos muito. Segue o ciclo da vida, com pão para dias da semana e rosca ao domingo. A regueifa marca o dia do descanso com um sabor melhorado. Faz sentido e imprime o compassado ritmo dos dias à nossa vida. Sai-se para trabalhar, para ganhar o pão, que à tardinha levamos para casa. Fico no carro e um dos miúdos vai lá, ao vir da escola. Gosto disso.
A padaria da aldeia também acompanha as datas festivas, com os doces próprios de cada época. Há bolo rei no natal, moletes no dia do pai, pão de ló na páscoa. Não é como ir a um hipermercado e encontrar tudo isso o ano todo. Há uma banda olfativa para a passagem das estações. Também gosto disso.

Os meninos vão à catequese na paróquia e vamos à missa na capela da aldeia. É uma comunidade pequena e vive-se a liturgia de uma forma mais íntima do que numa paróquia grande. Parece que quando o pároco diz "irmãos" é mais fácil sentirmo-nos parte da família cristã. Talvez por sermos menos. Não sei. Em quatro dezenas de vivências cristãs nunca tinha participado numa eucaristia em que se cantasse os parabéns e batesse palmas aos membros da paróquia. Gostei disso também. Aguçou-me o sentido de pertença, apesar de ser forasteira e recém chegada.

A tranquilidade e o sossego são reparadores. Da minha janela vêem-se ovelhinhas a pastar e ouvem-se vacas a mugir. Quando o vento empurra, cheira a vacas. Suponho que isso é uma desvantagem, ainda assim preferível ao monóxido de carbono da urbe.






quinta-feira, 15 de março de 2018

A ronca

Está uma noite invernosa. 
Há uma tempestade, a que chamaram Gisela, que há dias fustiga o nosso país.
Em Esposende tem havido pequenos ciclones, um tornado, enfim ventos fortes, com alguns danos - físicos e humanos.

Estou a salvo. 
Numa casa confortável, com os filhotes de barriga cheia aconchegados em camas quentinhas.
Agradeço ao universo pelo facto.

Ouço, lá fora a sirene.
Talvez os bombeiros, uma ambulância. 
(Sempre que ouço uma ambulância ainda estremeço.) 
É o mal de não ver televisão.
Dá-se pelas coisas, em vez de ter o cérebro em hipnose entretenimental.
A esta hora devia estar esparramada no sofá, embrenhada numa qualquer série do ... é Netflix que se chama o canal da moda, não é?

Todavia, não.

Aqui fico, a escutar a ronca que geme como uma gata gigante a parir. 
Um uivo longo, 
gordo, 
um lamento a cortar a noite, 
a chamar os barcos à terra segura, 
a salvo da turbulência revolta do majestoso oceano.

A ronca. 
Assim que viemos habitar esta casa, comecei a ouvi-la,
encantada por mais este elemento marítimo na minha vida. 
Gosto de ouvi-la, por cima do rumorejar das vagas, por cima delas,
o Homem a tentar gritar mais alto do que o mar.  
Gosto de ouvi-la,
a ronca,
matriarca dos marinheiros,
como uma mãe que grita da soleira para os filhos virem jantar.

Eu não sei explicar que relação íntima é esta que tenho com o mar, 
que a mera presença deste agudo acústico a cortar a noite chamando os barcos à barra
(que poderá para outro ter o seu quê de arrepiante)
me preenche!



"Homem livre, tu sempre gostarás do mar" - Baudelaire, Charles

quarta-feira, 14 de março de 2018

Dia do Pai, padrasto e afins


Resultado de imagem para father's day, clipart

Isto de celebrar o dia do pai na escola é um pouco delicado. 
Não há como negar que nos aproxima da criançada 
- eles gostam de contar tudo sobre o pai
desde a idade 
ao número de dentes que traz na boca, 
passando pela cor dos truces, 
valha-nos Deus que as ceroulas entraram em desuso!

Um deles: "O meu pai é gordo, velho, careca e barrigudo!"
Eu (em balão de pensamento) "Adorava conhecê-lo!"

Distribuo as fotocópias com a tarefa para a efeméride, explico que é TOP SECRET e só podem mostrar no dia, enquanto eles vão GRITANDO, entusiasmados, ou nervosos, ou confusos, a dizer coisas que eu preferia não saber:

"Não há perigo! O meu pai nunca mexe nas minhas coisas! Ele Nunca entra no meu quarto"

"O meu nunca larga o telemóvel!"

"O meu quando chega são cinco da manhã e eu já estou a dormir"

"TíxEr, o meu pai, uma vez, também veio muito tarde, era para não vir nunca mais, mas depois veio e eu estive à  espera para ver se ouvia a porta..."

"Mas isso era o teu porque se ia embora, o meu chega Às cinco da manhã, mas é de vir da fábrica..."
(...)

Digo para se concentrarem se não não conseguem acabar a tarefa para a data prevista.
"Eu tenho muito tempo!!!O meu pai está na Alemanha, só vem em Junho!"(disfarça com um sorriso triste)
"Não faz mal, fazes-lhe uma surpresa quando ele chegar!Isto não é um iogurte, não se estraga nem tem prazo de validade"
"Iogurte?Vamos fazer um iogurte?" (acorda uma lá do fundo)

NOPE! 
Vamos mas é trabalhar, siga, let's work, não há mais conversa!

Um braço no ar.

DIZ!

Não me podes dar mais fotocópias tíxEr?

"Como assim? Para que queres mais? Isso é para o Father's Day!"

"Era para dar aos meus padrastos todos!"


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Quando a gente ainda é pior do que eles

"Professora, desculpe interromper"
(assoma-se à soleira da porta da sala de aula a dona Gertrudes, uma querida bonacheirona, cara de sol, sorriso de lua)
"Esta chave do carro é sua?"
 
"Aahh, talvez, deixe cá ver... é de um Porshe?"
 
Atenção geral, cabeças levantadas dos livros, alvoroço excitado.
 
"Uau tíxer, tens um Porshe?"
"Não, tenho um Citroen, mas se fosse a chave de um Porshe ficava com ela.!!!!"
 
 
Grandes, múltiplas e simultâneas ilações
- em histerismo multivocálico - 
sobre:
 
a) os carros que têm;
(alguns efectivamente Porshes)
 
b) os carros que a família toda até 5ºgrau, os vizinhos, os amigos, os conhecidos dos amigos deles, os jogadores de futebol e as celebridades de que eu nunca ouvi falar têm;
 
c) o carro que eu tenho;
 
d) o carro que eu devia ter;
 
e) o que aconteceria se eu ficasse com a chave de um carro que não é meu;
 
f) as chaves que a dona Gertrudes ainda segura nas mãos;
 
g) episódios diversos relacionados com chaves que a família toda até 5ºgrau, os vizinhos, os amigos, os conhecidos dos amigos deles, os jogadores de futebol e as celebridades de que eu nunca ouvi falar já vivenciaram;
 
h) episódios diversos relacionados com carros que a família toda até 5ºgrau, os vizinhos, os amigos, os conhecidos dos amigos deles, os jogadores de futebol e as celebridades de que eu nunca ouvi falar já vivenciaram;
 
i) o facto de eu ser esquecida e ter deixado as chaves perdidas algures;
 
j)...
 
I should know better! Eu já devia adivinhar... tão concentradinhos que estavam a resolver os exercícios e a dificuldade que foi, depois, voltar a controlar o motim!!!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Sonhar em grande

O resultado de andar a ler um romance na Toscana (por sinal uma leitura de caca, mas avante) é ter tido um sonho espectacular esta noite:
 
Sonhei que estava a mergulhar num paradisíaco cenário na ilha de Capri. 😂
 
Saltava de uma formação rochosa para águas límpidas e de um azul tão cintilante como só nos filmes e a sensação era extremamente libertadora e prazerosa.
 
Tudo para acordar
para a cruel realidade de
ter de ir
para a escola...
trabalhar...
 
Imagem relacionada
Era mais ou menos isto...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Edição de memórias - "a vida já me tirou tanto!"

"Desculpe ter passado à sua frente, não a vi! 
(eu para a dona do minimercadinho) 
Por favor, atenda esta senhora que já cá estava antes de mim"



"Não faz mal, esteja à vontade! Que mais dá?"




Eu, atenciosa a insistir que a atendessem, que tinha sido inadvertidamente.
A idosa, de lágrimas nos olhos, 

sem nenhum sinal de raiva mas com muita mágoa lá dentro,
deu-me a seguinte resposta:



"A vida já me tirou tanto que bem pode levar o tempo também..."




Apanhou-me desprevenida. 
Balbuciei coragens. 
Respondeu-me isso é para a menina que é jovem.
Atirei-lhe um lugar comum tipo "enquanto há vida há esperança", 
"um dia atrás do outro"
ou
 "há que teimar" 
e vim embora, 
desolada com tanta solidão.

(8 de fevereiro de 2017)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A quem possa interessar

Resultado de imagem para livro reclamaçõesCuriosamente a memória deste exacto dia no facebook era a seguinte:


Tenho-me como uma pessoa frontal, mas a idade ensinou-me a não dizer TUDO o que penso. 


De outra forma, sair-me-iam frases assim:
"Olhe, desculpe, 

a senhora sempre foi assim azeda, 
é um ressabiamento recente 
ou apanhei-a simplesmente num dia mau?"



Nem de propósito!
Estive, de novo, hoje mesmo, num balcão público onde me atenderam com má-vontade e sobranceria; onde me despacharam para a chefia se estivesse descontente; chefia pela qual aguardei civilizadamente durante uma hora, após a qual o meu vernizinho estava a começar a estalar. 
Percebi, então, que outras pessoas, menos ordeiras do que eu, estavam a ser aviadas. Percebi também que há situações nas quais, se formos muito cordatos e cívicos, tendem a não nos respeitar.
 Portanto, sem elevar o tom de voz, com diplomacia e assertividade (às vezes fico pasma com o meu próprio sangue frio) exigi que me resolvessem a questão, um direito meu, ou que, por favor, me dessem o livro amarelo. 
Palavras mágicas. Fez-se solução a velocidade cruzeiro e, como não tinham troco, nem da fotocópia necessária se cobraram! 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Gusto

Resultado de imagem para G, clipart
Há por aqui um miúdo que se chama Valter e a quem, muitas vezes, eu chamo Vasco. 

Anda-se cansado, eles são muitos, a memória já não é o que era...

O facto é que o garoto gosta da minha aula e de mim e percebo que fica triste por lhe confundir o nome...

(perdas de memória cavalgantes que um dia darão origem a todo um outro texto... se me lembrar!😄😄😄😄) 

Então senti necessidade de me justificar e lá comecei a explicar que tenho umas gavetinhas na cabeça onde arrumo os nomes próprios de acordo com a consoante inicial... e, de certa forma, esses nomes ficam todos nessa categoria e tenho tendência a confundi-los.... 

Por exemplo: para mim, Saras, Sofias, Sandras e Susanas é tudo a mesma coisa e dificilmente acertarei no nome delas, porque estão simplesmente na gaveta dos esses

O mesmo se passa com o teu nome, explicava eu, que está na gaveta dos nomes começados por ; não leves a mal, é um problema que eu tenho. Também me acontece com um menino de outra turma que se chama Guilherme e eu às vezes confundo-o com Gonçalo ou Gustavo, percebes?

"Gusto!", interrompe-me outro.

Ah?

"Gusto, professora, Gusto também começa por G"

Um milésimo de segundo assarapantada a olhar para ele, a tentar perceber a pertinência do comentário. 
(Sim, porque eu ainda faço esse esforço extenuante de tentar fazer sentido das interrupções mais das vezes disparatadas que eles fazem a toda a hora...)

Alguém me salva:
"Isso é Augusto ó burro!Não começa por G!!!"

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Saga vida nova - Humidade

A gente sai de casa, às sete e vinte da matina,
Resultado de imagem para moist, cliparte a calçada está escorregadia, orvalhada.
Não é nevoeiro,
mas sentem-se
as gotículas no ar,
entra pelas narinas,
cheira a água!!!
O volante está viscoso,
as mãos pegajosas,
conduzir é deslizar!

De onde eu venho,
no árido nordeste transmontano,
a água é um problema.
Aqui também.
Ali porque escasseia,
aqui porque sobeja.

Afinal a Mary até tem a quem sair!
Sabia lá eu que tinha caracóis rebeldes no cabelo!
Há mais de vinte anos que os não via!
A viver no litoral jamais andarei penteada!

Estender roupa é um contra-senso! Sabem aquela sensação de absurdo, de acabar de estender uma pilha de roupa e começar a chover? Pois bem, aqui essa é a realidade a toda a hora! Um gajo sente-se tão mais estúpido quanto percebe que está a expor a roupa ao vapor perene da neblina! Para quê? Para secar?

Os vidros da escola estão embaciados, as paredes choram e as folhas de papel encravam nas impressoras devido à condensação que as faz enrugar! Dá-me vontade de rir quando as funcionárias anunciam: "Hoje não vão brincar lá para fora que está tudo molhado!"
A sério?!
Como é que elas distinguem isso?
Não está sempre???!!!!

Chover no molhado é uma expressão que foi, de certeza, inventada em Esposende.
Ou na Póvoa. Ou assim.
Se não foi, ganha todo um novo sentido - literal- nestas paragens.


Há vantagens, pois então, de viver neste ambiente aquoso:

- tenho sempre a pele hidratada;

- não preciso de regar as plantas;

- crescem-me coentros, espontaneamente, no capot do carro
Carro esse cujos pneus e escovas jamais ficarão ressequidos;

- As letras dos envelopes na caixa de correio liquidificam de tal forma
que se forem contas avultadas posso alegar que as não recebi!

- Nunca vamos ter cá em casa espumante meio seco, muito menos bruto (que é extra seco)! Melhor! Eu prefiro mesmo o doce!

- Quando aparecer bolor nalgum sítio faço negócio com a indústria farmacêutica. Alguém sabe a quanto é que está a grama de penicilina?

- Aqui o futebol é um desporto náutico! 
Quer dizer, pago uma modalidade e a criança faz duas: futebol e pólo aquático.
Saio a ganhar! Que mais quero?

Como é que eu hei-de explicar? 
Não é que esteja tudo MOLHADO, ENCHARCADO ou INUNDADO à minha volta, mas a verdade é que nem me atrevo a tentar TORCER as cortinas que tenho penduradas e que planeio trocar todo o calçado cá de casa por galochas de pescador! Ou barbatanas!

Quando cheguei a esta casa, dei com um aquecedor enorme encostado a um canto. 
Aquecedor!!!!!
A minha feliz inconsciência da existência de um mundo liquefeito!
Pensei: assim que o tempo arrefecer já te experimento.
Surpresa, surpresa!
Aquilo só fazia vento e tinha um recipiente onde, vim a descobrir, acumulava água, pois claro!
Era um mega desumidificador, que, entretanto, está de serviço permanente  cá em casa, numa vã tentativa de aspirar o mar das paredes! O gajo bem que suga, suga, suga, mas parece que viver à beira-mar não lhe facilita muito a tarefa!



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Abraço forte (nano-conto)


Resultado de imagem para melonheads hug
ERA UMA VEZ...
uma funcionária 
que todos os miúdos na escola adoram.

Certa tarde, 
deu um  abraço tão forte a uma menina
que lhe partiu os óculos!

Não vos parece enternecedor?


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

AMAZING

Resultado de imagem para céu cor de rosa com nuvens
Saio de casa, atarantada.

São sete e vinte da matina,
 está frio 
e o meu cérebro ainda está meio adormecido.

Sonolenta e a contra-gosto,
mastigo a incomodidade de ir trabalhar tão cedo,
a incomodidade de ir trabalhar!

Lembro-me da vizinha que tem a sorte de trabalhar todo o dia em pijama, ao computador,
faço planos de arranjar um emprego digital,
aconchego o casaco, 
fungo o nariz arreliada, 
dói-me a cabeça 
ou apetece-me que me doa a cabeça 
para não ter de ir trabalhar, 
reparo que não engraxei o raio das botas, 
mais um privilégio que tem quem não sai de casa para laborar, 
quando arranjar o meu teletrabalho nunca mais engraxo as botas, 
ando de pantufas o tempo todo 
e rebolo no sofá, 
com a manta 
e o portátil 
e a felicidade toda numa chávena de chá!

Levanto os olhos e, finalmente VEJO. 

Alvorada deslumbrante!
Há um céu cor-de-rosa raiado de nuvens por cima da minha cabeça efervescente. 
Tonalidades magníficas que o meu cinzentar rabujo ainda não me tinha permitido ver. 
Uau! Pasmo, uns segundos, sem entrar no carro.

A natureza a brindar-me com  a alegria e a beleza de estar vivo. Obedeço. Tenho a decência e a humildade de calar as resmunguices interiores e de reconhecer o privilégio que é assistir a este deslumbre, fazer parte dele!

Entro no carro, dou à chave. Está a dar "Amazing" dos Aerosmith.
Nem de propósito, mesmo no refrão:

It's amazing
with the blink of an eye you finally see the light
(É incrível
Num piscar de olhos, finalmente vês a luz)

Mesmo!

It's amazing
When the moment arrives that you know you'll be alright
(É incrível
Qunado chega o momento sabes que vais ficar bem)


Vou mesmo.
Obrigada pela mensagem, Deus dos céus!


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Chinês

Resultado de imagem para traditional chinese man, clipart
Por vésperas de natal corri tudo atrás de um pedido da Mary: umas sapatilhas com rodas. A coisa estava difícil.  Onde é que eu hei-de encontrar tal chinesice? Ora, pois claro! No Chinês.

Aqui, como um pouco por todo o país, não falta escolha.
Portanto, lá estaciono em frente a um grande armazém com uma mega montra iluminada de luzinhas pisca-pisca e repleta de árvores de natal artificiais, fatos de pai natal e de mãe natal de gosto e qualidade duvidosos, tralhas e quinquilharias múltiplas e inenarráveis.

Entro,
na expectativa de lá encontrar o velho atarracado afogado atrás do balcão num mar de plásticos e tarecos artificiais, enterrado naquele cheiro a polímero artificial, compenetrado a assistir a filmes em mandarim no youtube. Preconceito meu.

Engano-me.
Não é que eu estivesse propriamente à espera do estereotipo encarnado do tradicional traje chinês, cetim vermelho debruado a doirados ou seda azul com pássaros e dragões bordados, quiçá até com o bigodinho da praxe... Mas também não estava à espera daquilo. Afinal temos a cabecinha cheia de gavetas escusadas e imprestáveis.

Era um jovem definitivamente asiático, bonito, perfumado, bem vestido. Calça caqui chino, com dobrinhas no fundo, estilo Tommy Hilfigger; pullover justo com aplicações  aveludadas nos cotovelos; os colarinhos e as abas da camisa de ganga a sair propositadamente do pullover e em pendant com os sapatinhos de vela azuis.

Também o seu português, e particularmente o seu sotaque do norte, era surpreendente.
Falava fluente e vivamente ao telefone,
sem trocar os erres pelos eles,
trocando- isso sim- os vês pelos bês,
abrindo muito as vogais à norte
e dizendo coisas como
"Que chunga!!" e "Esse trengo que apareça, combinamos umas cenas e bazamos!"

Sorrio,
muralhas de prateleiras adentro, ao ouvir aquele vocabulário juvenil e nortenho na boca dele
(sabem como é, naquelas superfícies as vozes ecoam)
Penso:
segunda geração, certamente nascido e criado em Esposende,
um português de gema
estudaste na nossa secundária
conheces os Lusíadas
leste Pessoa e Saramago
se aqui moras
certamente já foste ao arraial do Santoinho
beber uns canecos, comer umas sardinhas, cantar Quim Barreiros ou até mesmo dançar o vira!

Não encontro as ditas sapatilhas
e, como de costume, já me estava perdendo no barulho visual daquelas prateleiras carregadas de cores e de objectos inusitados que demoro a deslindar, que me implicam esforço visual a focar, um verdadeiro esforço de percepção, esforço sensorial, se é que me entendem. Saio sempre destes espaços com os olhos esbugalhados de esforçar a miopia para ver, para focar e sinto-me também, amiúde,  meia nauseada do cheiro a borracha e incenso.

Desisto de  procurar.
Vou pedir ajuda.
Atende-me com simpatia, educação e mesmo alegria.
Um grande sorriso e inflexões melódicas na voz.
- Não, já não temos. Houve uma altura em que vendemos muito disso, mas agora já não.
Lamento imenso. Por que não vai ali abaixo, àquela loja nova que abriu ao fundo da rua? É capaz de ter...
- Qual? A do...
Interrompo-me,
engulo a palavra.
Raisparta! Não se diz a um chinês que vamos à loja do Chinês!
Mas como raio é que se diz?
Durante uns milésimos de segundo, hesito.
Procuro a palavra na minha cabeça: venda? mercado? drogaria? estabelecimento?
Nenhuma me parece correcta. Dizemos o chinês para significar uma determinada realidade que todos conhecemos, mas, cum raio, não é muito politicamente correcto designar uma funcionalidade, um negócio com uma nacionalidade ou raça, pois não? Soa xenófobo. Soa discriminatório. A mim, naquele momento, soava-me (pela primeira vez na vida) incrivelmente inapropriado.
-Qual loja?
pergunto para ganhar tempo, e ele:
- A nova, que abriu do outro lado da rua... é muito boa também!
Não me está a ajudar, falta-me a palavra.
Penso que sei ao que se refere, mas parece-me estranho que me esteja a sugerir a concorrência.
Penso ainda: deve estar mesmo a indicar-me outra loja do Chinês, assim como assim eles são todos da mesma família - censuro-me internamente; que disparate! preconceito meu!
Aponto
- Ali?
- Sim. Boa sorte.
- Obrigada. Boas festas.
- Um óptimo Natal e volte sempre.

Entro no carro, a magicar.
Um gajo não diz ao Chinês que vai ao Chinês.

BAZAR!
De hoje em diante vou esforçar-me por dizer bazar. O bazar do chinês. 😆



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Resoluções do Primeiro Dia do Ano - ou de como a vidinha não se compadece com metáforas idílicas e abstractas

Resultado de imagem para washing glasses, clipart
Resoluções do Primeiro Dia do Ano a fazer jus aos votos brindados na Última Noite do Ano:

1) SAÚDE
Lavar os flutes peçonhentos do champanhe adocicado e os resquícios aziumados do vinho tinto nos copos de balão... para não incubar bactérias e cenas que fazem mal.

2) AMOR
Aspirar migalhices dos vinte pratos, entradas e saídas degustados, bem como fitinhas e confetis de alegria entranhados em tudo o que é canto, desde o vinquinho do sofá à parte traseira do bidé... todo o esforcinho, claro, com muiiiito amor!

3) ALEGRIA
Fazer uma duzinha de máquinas de roupa - toalhas de mesa e guardanapos tingidos com o tinto da alegria da véspera; roupas a cheirar a tabaco dos sítios festivos em que estivemos; aventais e panos de cozinha conspurcados pela confecção do repasto de Ano Novo! Tudo com um grande sorriso de alegria nos lábios!

4) DINHEIRO
Acomodar e congelar toneladas de restos de doçuras e petiscadas que podiam aprovisionar um exército e, sabe-se lá como, foram sobrantes para nós. Acondicionar tudo no gelo, por forma a potenciar futuras e económicas marmitas.

5) AMIGOS
Estes não aparecem, no dia seguinte à festa, para limpar esta desordem toda...


Soooo...
What's new?

Feliz 2018, gente!
O Novo com as mesmas lides do Velho!!!