quarta-feira, 19 de abril de 2017

Da "transmontaneidade" adquirida





























Muito a (des)propósito, surgiu-me esta memória no Facebook...
a tempo de me arrepiar a espinha, 
entalar a garganta 
e de me apanhar a analisar listas cheias de ausências de vagas nesta região, 
despovoamentos e lugares vazios que eventualmente me vão empurrar Marão abaixo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Notas

Tíííxa, tíííxa:
Resultado de imagem para stressed out classroom, clipartQue nota dás a este grito de guerra, mal pronunciado, é certo, mas cheio de fervor nos braços abertos e olhos que brilham por te ver? Há mais alguém na tua vida pessoal  que corra para te receber, aos pinotes de alegria? Ah, sim, o teu cão! Só mesmo esse!

 Tíííxa, tíííxa:
Quanto vale aquele abraço que te dou naqueles dias em que estás mesmo a precisar?

Tíííxa, tíííxa:
Que nota dás aos exercícios feitos de barriga vazia, cérebro e estômago a rimar em roncos de lentidão e fome. Estavam erradas as respostas. Assinala a vermelho o absurdo da tarefa.


Tíííxa, tíííxa:
Quanto vais dar àquela menina que tem um caderninho impecável, com cores e florzinhas, copia tudo, tudinho, demorada e afincadamente; faz os trabalhinhos de casa religiosamente; mostra-te um livro de actividades extra que lhe ofereceram nos anos; nunca acerta, mas nunca desiste e chega ao teste e não concretiza?

Tíííxa, tíííxa:
Quanto vale aquele menino que está sempre a ajudar o colega de carteira, e o da frente e o de trás; que se atrasa no seu próprio texto, porque esteve a explicar ao outro o que tem de fazer?

Tíííxa, tíííxa:
Quanto vale o sorriso que te dou todas as manhãs? As confissões que te faço do meu fim de semana? Do mano recém-nascido que não deixa ninguém dormir de noite? Da minha avó que agora vive na minha casa e a quem ajudo a alimentar?

Tíííxa, tíííxa:
Em que grelha vais registar a minha aflição porque a mãe desmaiou ontem à noite e fomos parar às urgências? Em que grelha vais registar que me sinto perdido e aflito e que sinto medo de a perder?

Tíííxa, tíííxa:
Qual é a percentagem para a curiosidade, as minhas perguntas chatas, que não têm a ver com o currículo, as minhas dúvidas sobre o mundo, que não estão no teu plano de aula e te interrompem, te fazem "perder tempo" e me assolam porque penso que a escola me devia ajudar a perceber a vida, em vez de passar ao lado dela, por cima dela?

Tíííxa, tíííxa:
Em que coluna do excel consta a minha criatividade, a minha originalidade, o meu espírito artístico, a minha forma única de ver o mundo? Consegues avaliar a minha vontade de construir um mundo melhor? A minha inocência? O meu optimismo?

Tíííxa, tíííxa:
Quanto vai valer o meu sentido de humor, eu que tenho saídas hilariantes e faço a turma toda rir, mesmo nos dias em que estamos todos stressados porque há prova, ficha, teste de avaliação?

Tíííxa, tíííxa:
 Que nota merece a minha espontaneidade ("Posso ir fazer cóco?"), o meu entusiasmo com os teus jogos, aquele que me faz ficar tão excitado que a seguir tens de me ralhar porque não consigo acalmar?

Tíííxa, tíííxa:
Como avalias a minha humildade quando me chamas à atenção ou quando erro? A minha resiliência, persistência e determinação após falhar?

Tíííxa, tíííxa: 
Conta para alguma coisa o sentido de liderança do Francisco, a capacidade que ele tem de nos orientar nos trabalhos de grupo ou nos jogos? 

Tíííxa, tíííxa:

E o nosso deslumbramento perante as coisas do mundo, a novidade, a corrermos para a janela porque está a nevar ou a gritarmos aos teus ouvidos que temos uma tartaruga nova na sala ou a mostrar-te que o feijãozinho no frasco de algodão está a despontar?

 Resultado de imagem para personal qualities not measured by tests


Esta tíííxa não tem respostas objectivas para tudo isso. 
Só promete avaliar-vos com mais do que números, contas, grelhas e excels. 
Avaliar-vos também com o coração e desejar que a Escola, no futuro, cresça para um modelo mais humano que vos avalie globalmente no cumprimento do objectivo mais válido do ensino-aprendizagem: a vossa felicidade. 


Janeiro, 11 [de 1949] - Para começar, o metodólogo falou connosco durante uma hora. De acordo com o que disse, vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E dentro dessa convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e que vem a propósito, ir ensinando. Depois, esta nota importantíssima: lembrar-se a gente de que deve aceitar os rapazes como rapazes: deixá-los ser: 'porque até o barulho é uma coisa agradável, quando é feito de boa-fé.'
Houve nesta conversa uma palavra para guardar tanto como as outras, mais que todas as outras: 'O que eu quero principalmente é que vivam felizes'."
                                                             Sebastião da Gama. Diário (1958)

sábado, 1 de abril de 2017

Bem vinda Ana Teresa!

Imagem relacionada Bem vinda, linda!
Bem vinda, Ana Teresa!
Trazes o nome das avós e das bisas. Espero que lhes herdes também o espírito aguerrido de mulheres afoitas. Que criaram filhos, burilaram negócios e empreenderam vidas com a mesma mestria com que fritaram pataniscas e rabanadas ou mexeram marmelada e aletria.
Tiveste muita sorte em vir a este mundo nos braços desta família.
Tu ainda não abriste os olhitos muito bem, mas quando o fizeres, verás.

Tens um mano cheio de pinta.
É fixolas, sabe montes de coisas, toca um instrumento maior do que ele próprio e é óptimo a jogar um jogo com umas peças em cima de um tabuleiro axadrezado! Além do mais, é bem educado e meiguinho e diz umas coisas que deixam toda a gente a rir. O teu mano é mesmo fixe. Vai-te ensinar montes de cenas, mas muitas não podes contar aos pais, é assim entre manos... segredos, tás a ver? Depois tu chegas lá! 
Para já, para já, decora bem o nome dele: Miguel.
O teu ponto de referência, o teu maior amigo, o teu protector para sempre. 
Também vai dar jeito como motorista, daqui por dez anos, quando ele já tiver carta e tu quiseres ir ao ballet. Depois a tia Marta explica-te como é que fazes para conseguires tudo o que queres. Se bem que, se tiveres nascido com a vozinha da tua mãe nem precisas de te esforçar muito... o mano vai ceder, independentemente das tuas palavras, só para não te ouvir!
(Com o pai não é preciso. Serás a daddy's little girl! Vais conseguir fazer dele o que desejares sem eu te dar dica nenhuma!!!)

O teu pai... bem o teu pai vai ser o teu herói. 
Vais ler nos olhos dele o mundo!
Ao fixá-lo nos olhos, vais reparar como ele vê o mundo de olhos bem abertos e postos no outro. Aprende isso com ele. A olhar com um olhar que acredita nas pessoas e, por isso, as faz acreditar em si próprias. 
Vais ter orgulho no teu pai por muitas razões! Ele tem braços fortes de escalar montanhas e uma mente ainda mais forte de puxar por esses braços sem nunca desistir. No fundo desses braços, que vais conhecer como colinho quentinho e meigo, tem duas mãos talentosas, que desenham, rabiscam, dedilham cordas de viola e manipulam fios de robots. O teu pai também está equipado com dois ouvidos de bem escutar, embora possa ter havido danos na convivência com a estridência da tua mãe. Mas não faz mal, sabes porquê? Porque ele escuta com o coração. Por isso, vai escutar-te sempre. Até nos teus silêncios. Particularmente nesses.

A tua mãe!
A tua mãe, vais ver! Vais ver, vais cheirar, vais mamar, vais sentir... 
A tua mãe é toda ela colo e vai sê-lo sempre, mesmo quando já lá não couberes!
A tua mãe é uma pessoa especial que vê o mundo em esquadria, mas que o aprecia de todos os ângulos, formas, tamanhos e perspectivas. A mãe pinta bem. Na tela, no computador e na vida. Usa sempre vários tons e cores. É boa a equilibrar a palete de cores. Na arte, como na vida. Vais aprender tudo isto com ela: a colorir a vida, a vê-la de vários prismas, a  balançar isso tudo.
A tua mãe tem um coração grande e cabe lá muita gente e, às vezes, vai parecer que não cabe o mundo todo onde a mãe o quer meter. Por exemplo, a mãe vai querer juntar metade da cidade de Braga e mais uns amigos de Lisboa, todos numa mesma festa, seja qual for o espaço de que dispõe. É perita em "meter a Sé na Cividade", chama-se boa vontade, generosidade e alegria de viver.
A mãe gosta de pessoas e de sair e de passear, por isso vais ter sorte, não vais ser pinto de aviário, vais sair e explorar - parques, jardins, praias e montanhas; vais ser livre e feliz! Também gosta de viajar e de sítios novos; portanto vais ser arejada de espaços e ideias e vais aceitar as diferenças e ser tolerante e, por isso, feliz!

Por último: Ouve as piadas subtis do teu pai e a gargalhada fresca da tua mãe.
Grava isso em ti como um refrão.
Responde com ele pela vida fora.

Bem vinda, Ana Teresa!
Deus te abençoe!

Testes, avaliações VS leitura e escrita

Resultado de imagem para bilhetinho de amigas, sim nãoAltura de avaliações de final de período.
Esta semana havia de ter adiantado esse trabalho, mas a pretexto da Semana da Leitura no Agrupamento, decidi gastar as tardes a ler histórinhas em inglês a, nada mais nada menos, que TODAS as turmas do primeiro ciclo e do pré escolar.
Adorei, claro. Mas agora a implacável vingança das tabelas de excel abateu-se com ferocidade sobre o meu ser cansado do périplo pela literatura infantil...
 
Tenho a folha de excel aberta e uma tabela em word para preencher com menções qualitativas e sínteses descritivas do trabalho de centena e meia de alunos. Noutro separador estão abertos os meus blogs com duas crónicas em rascunho. Há ainda um separador com a conta do Goodreads aberta, a lembrar-me das maravilhosas leituras que tenho a meio, por causa do trabalho.

BORN TO READ
FORCED TO WORK

Lia, há tempos, nas redes e revi-me: nascida para ler e forçada a trabalhar.

Tenho então todas estas coisas abertas no computador, adivinhem o que me apetece mais...