quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Desabafo de uma menina de 1º ano de escolaridade após dois meses de aulas

Resultado de imagem para I swear, clipart

Eu não sabia que a minha vida ia mudar daquela maneira...
Que me iam arrancar do meu doce mundo mágico de Nenucos e Legos, para me afogar em letras, números e tarefas.
Que, de um dia para o outro, o reino da fantasia fosse povoado de linhas e quadrículas e toques e vira-te-prá-frentes!
Não me entendam mal - não é que eu não goste de aprender!
Antes deles me mandarem escrever em cadernos, já eu o fazia nas paredes do meu quarto e nos livros de cabeceira do meu pai!
Também já gostava de matemática: sempre soube subtrair os brinquedos à estante do meu mano e multiplicar o barulho, quando os pais querem ouvir alguma coisa na televisão!
Ler é muito fixe. De repente, os objectos começam a falar connosco e entendemos o que dizem. Os rótulos das garrafas, os panfletos dos supermercados, até a palavras na televisão!
 
Do que me queixo é de...
 já não ter tempo para nada, 
de estar na escola de manhã à noite, 
de ter de estar sentada na mesma carteira tantas horas...
 do intervalo ser tão curto que tenho que escolher entre comer ou brincar 
(conseguem adivinhar qual é que eu prefiro? Eu até já pedi à minha mãe que me mande iogurtes líquidos, em vez dos de colher só para não ter de me sentar!)
 e , 
principalmente, 
de, no fim disto tudo, 
ainda trazer trabalhos de casa! 
ughhh! 
Trabalhos de casa, estava lá eu a léguas disso...
achava que trabalho de casa era quando a mãe me mandava atirar os brinquedos para o grande caixote cor de rosa ou arrumar as sapatilhas que deixo espalhadas entre o hall de entrada e a sala de estar...

Agora...TPC? 
Mas qual foi o adulto que teve a brilhante ideia de...
mandar fichas para resolver depois de um dia inteiro a resolver fichas idênticas àquelas? 
e de que serve copiar textos? não era mais giro lê-los, recontá-los, ilustrá-los ou até expandi-los inventando uma continuação para a história ou um final diferente?
e como esperam que seja capaz de resolver problemas depois de um dia inteiro a raciocinar? O único problema que eu gostaria de resolver, a essa hora, era como numas apertadas duas horas desde que chego a casa até que durmo, conseguirei encaixar tudo o que me faz falta: relaxar um bocadinho, tomar banho, jantar, conversar com os meus pais, brincar com o meu mano e afagar Bobby, o meu cão, que esteve o dia inteiro à minha espera...não será fácil! Está visto que brincar com a minha casinha de bonecas, ouvir uma história, bem tranquilamente no colo da mãe ou mesmo cortar as unhas dos pés terá de ficar para o fim de semana!
Contas, contas e mais contas! A minha mãe diz que, nesta idade, a gente devia era somar afectos! Eu não entendo lá muito bem o que ela quer dizer, só sei que, no fim de resolver as contas todas está na hora de dormir e já quase não dá tempo para todos os beijinhos que eu costumo dar ao pai... (ele a contar e a rir-se, a dizer, por favor, já chega, já me dói a bochecha e eu sempre a dar mais um e mais um e mais outro, afinal até sei somar!)

Entretanto, eu acho que já encontrei uma solução para o meu problema. Vou dizer à professora que o Bobby comeu os meus trabalhos de casa. É original a desculpa, não acham? De certeza que ainda ninguém se lembrou disso e que me safo...


domingo, 20 de novembro de 2016

Magustus farta sum!

Imagem relacionadaIsto de a gente ser professor saltimbanco, com o carro atulhado de cartazes e flashcards, a percorrer as EB1 dos agrupamentos tem que se lhe diga. 
Por um lado, nunca se fica completamente imbuído da cultura de cada espaço - o que é, a um tempo, uma limitação e uma vantagem.
Eu explico: não nos inteiramos tanto da vida dos miúdos, das rotinas e peculiaridades de cada escolinha, para sermos capazes de intervir melhor, mas também nunca chegamos a captar, podemos passar ao lado dos podres de cada instituição, you know, atritos, problemas e mexeriquices que não fazem falta a ninguém.
Por outro lado, também não somos propriamente tidos e achados nas decisões, o que, confesso, nesta fase da carreira é até um alívio. A gente chega, dá a aulinha e vai embora.
Perde-se a sala de professores, porque a maior parte dos intervalos são para as transições de escola. Enfim, é-se, de certa forma, mais solitário.
E depois há as festas! As actividades extra-curriculares, em que somos convidados a participar, umas vezes por conveniência de serviço, outras porque efectivamente farão gosto na nossa presença.
Moral da história: desde a semana do S.Martinho que ando em magustos consecutivos, já não sei precisar, mas penso que fui, pelo menos, a cinco. Adoro castanhas! Acho piada aos miúdos a enfarruscarem-se e a andarem por ali aos pinotes, no seu estado de graça. No seu habitat natural, que é (deveria ser) a correr pelo recreio, a sujarem-se na areia, a apanharem folhas secas caídas pelo chão, a empurrarem baloiços, a descerem em escorregas and so on. Sério que gosto de vê-los, livres como andorinhas "tixer", tixer quer castanhas?" Cartuchinhos nas mãos, aprumados, que eles próprios decoraram ou onde inscreveram quadras alusivas. Felizes, os miúdos.
Como dizia, adoro castanhas. Todavia, ninguém aguenta. Gerou-se um problema. Tenho o estômago como um balão e todos sabemos que a solução para esse problema não é compatível com uma sala de aula...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Juramento Hipocrático Para Professores do 1ºCiclo

Promete repetir cem vezes a mesma coisa, de sorriso nos lábios, como se fosse a primeira vez e os fedelhos não a estivessem pura e simplesmente a ignorar enquanto dava instruções?
Sim, prometo!

Melonheadz Illustrating Teacher Appreciation Sale, and a Freebie!!!!: Promete admirá-los e respeitá-los, mesmo com a monca a escorrer do nariz e as remelas a reluzir ao canto do olho?
Sim, prometo! 

Promete ouvi-los com todo o interesse sempre que lhe contarem que o animal de estimação tem uma unha encravada ou que a prima foi à Disneyworld Paris ou que o avô teve diarreia a noite toda ou que, uma vez, quando eram pequeninos...
Sim, prometo!

Promete fingir que acredita nas urgencias urinárias dos petizes, mesmo que tenham acabado de vir do intervalo e que aleguem estar à rasquinha assim que põem o pé dentro da sala de aula?
Sim, prometo!

Promete rir-se de piadas escatológicas ou disparates que não entende, mas que os levam à gargalhada?
 Sim, prometo!

Promete fazer um ar preocupado sempre que cada um deles disser que "perdeu" ou "não sabe de" ou "alguém roubou"--- (inserir múltiplos objectos escolares e tralhices)?
Sim, prometo! 

Promete ouvir queixinhas e apartar rixas constantes, com aquele ar plácido e benevolente da mãe da porquinha Pepa, sem recorrer a Xanaxes nem Lexotans?
Sim, prometo!  

Promete aceitar desculpas esfarrapadas para não ter feito os trabalhos de casa, principalmente quando tiverem a ver com idas à aldeia ou torneios intensivos de hóquei em patins?
Sim, prometo! 

Promete valorizar  interrupções constantes da sua aula, sejam elas de que teor forem, como por exemplo "tenho a perna dormenta" ou "não consigo escrever deste lado do caderno" ou " a Francisca não pára de me chatear", como se fossem relevantes pré-avisos de uma terceira guerra mundial?
Sim, prometo!  

Desabafo pessoal:
Sim, prometo!  = Que remédio tenho!