quinta-feira, 2 de maio de 2019

#ouçomaisdoquequeria

Eu a escrever o sumário, sentada à secretária
(talvez o único ou seguramente dos raros momentos em que me sento durante as aulas)
e a pequenina da frente,
à minha direita,
absurdamente loirinha 
e a fitar-me com aquelas esferas azuis muito profundas
e aquela mansidão na voz
que me faz um esforço de ouvido para apurar o que diz

Sabes txitxa, a minha mãe já vai ser operada!

Pus-me atenta. Parei de escrever, ergui o olhar. 
Confesso que nem sempre tenho tempo de interromper os trabalhos para ouvir todas as mil confissões, desabafos e partilhas com que me querem honrar, mas uma criança preocupada com a saúde da mãe faz-me parar.

Sim, então? Está com algum problema de saúde? Está doente?

E ela, muito depressa:

Não, txitxa! É para não ter mais filhos, vai fazer uma operação.

Alívio. Quase não tenho tempo de pensar ah-afinal-é-só-isso, 
que ELA
a menina sossegadinha da turma
a caladinha
a respeitadora
dispara:
(eu juro que sem malícia)

O meu pai é que ficou contente txitxa... ele disse até qu'infim!

Eu devia estar com os olhos verdadeiramente arregalados, porque ela explicou:

Ele diz que a culpa é dela! Que ela nunca sai de cima dele e que, por isso, é melhor assim!

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Tótó, mas com muito estilo!

O João tem um babette, mãe!

Bavaglini Bambino Gucci BlueTem, filha?

Sim, na hora do recreio, a avó vai lá sempre dar-lhe o lanche!

Como assim?

Olha, entra, põe-lhe a babette, dá-lhe à boca o iogurtinho, limpa-lhe assim (a fazer o gesto de dobrar o babette em cima dos lábios) e depois dá-lhe beijinhos repenicados e vai-se embora...

E o João é pequenino? É do primeiro ano?

Não, mãe! É da minha turma! 
(3ºano)

E os outros meninos não gozam com ele?

Não, nem gozamos muito, mas sabes o que é que tem mesmo piada?

O quê?

É que o babette é da Gucci!



segunda-feira, 22 de abril de 2019

Twenty-five-#parecekfoiontem!

A imagem pode conter: céu e ar livreEverywhere we go
People want to know
Who we are
Where we come from








Ao que parece, já lá vão 25 anos desde que frequentámos a UM e a nossa querida Raquel lembrou-se de usar a rede para nos pôr, de novo, em contacto uns com os outros. Bem haja!

A ideia é extraordinária e,
claro,
também tem o seu quê de assustador...

pois que a gente vai ver reflectido uns nos outros 
o peso de um quarto de século 
a calcorrear o país,
a aturar canalha,
a formar pessoas,
a ser txitxas e txitxos,
ou setores de português
( LE em ambos os casos).

pois que a gente vai
descobrir nas rugas uns dos outros
as voltas que a vida já nos deu
com ou sem filhos
com amores, desamores
lutos, perdas e conquistas.

É que a gente já tá crescidote, né?
E pode ser um pouquinho assustador termos de nos confrontar, assim de repente, com o que a vida nos acrescentou ou subtraiu. 

Mas, vamos lá fazer a ponte, softly,
com recordações que nos aproximem pelo riso!

Escolho duas.

Primeira semana de aulas. 
Eu e uma amiga, às aranhas para nos desenvencilharmos no campus, acabámos por chegar atrasadas, mas lá damos com a sala. Tentámos entrar discretamente, numa aula que, afinal, já estava a decorrer.  Atrapalhaditas e a tentar sentar quando o professor nos aborda:
"Entrem, estejam à vontade!Quais são as vossas habilitações matemáticas, mesmo?"
(We should have known better!!!!)
Estranhei a pergunta, mas a boa educação e o civismo levaram-me a balbuciar "no-no-a-no...?"
Gargalhada geral e nós com uma vergonha gigante, finalmente superior à percepção de que não era ali que deveríamos estar!


O professor de Fonética, salvo erro Barroso (de apelido e proveniência) muito se irritava com o funesto hábito tabágico do Américo Lindeza, o da literatura.
Então, barafustava para nós testemunhas e, por vezes, deixava-lhe recados no quadro.
Se a memória não me falha, certa vez foi algo do género: é favor deixar o quadro e a secretária limpos.Daí em diante, o outro, de sorriso farfalhudo por trás da barba marxista, deixava-lhe as beatas alinhadinhas na mesa e mastigava, com gozo: "Assim, como ele gosta!"




quarta-feira, 10 de abril de 2019

Seja pelas almas!

Resultado de imagem para catholic school mass, clipart     A minha ideia é rabiscar aqui umas linhas sobre a tradição de celebrar a Missa Pascal na Escola, não-assunto que, pelos vistos, foi notícia no Público e no Jornal de Notícias. A Confap não obsta, o ME não impõe; parece que há apenas uma dita Associação República e Laicidade, que vê nisso uma "tentativa de instrumentalização da escola pública".
     Discordo, o senhor me perdoe!!!!

    Não vejo nenhum tipo de obstáculo, assim a maioria da comunidade o sinta como essencial e proveitoso, no respeito pelos princípios democráticos da tolerante convivência entre crenças, cultos e outras divergências sociológicas mais ou menos pluralizantes que a escola alberga.

      Portanto, é isso. Se aquilo funcionar naquela instituição e, como na realidade acontece, se cada um for livre de assistir, de participar ou de se ausentar, pois, por que não?

      Soa-me a tão intolerante tentar banir superior e estatalmente as missas, como o era a sua imposição na "escola do antigamente".

      Até porque,
cá entre nós,
 eu tenho lá meia duzinha de alminhas a quem bem colhiam as missinhas!
(colegas, bem entendido, que da saúde espiritual dos catraios tratam os pais em casa, certo?)

      Até lhe podíamos ver benefícios meramente pedagógicos - o foco, o reforço da atenção, a concentração.
      Eu, por exemplo, sempre amansei a minha hiperactividade com celebrações compridas, vias sacras e papaguear de terços. Nunca fiquei traumatizada, fui orando pelo mundo e conheço de cor a arte sacra do barroco bracarense, de tanto mirar tectos, estatuária e altares, por horas, ao detalhe!
   
     A coisa está de tal maneira que, se se lembrarem de levar meditação tântrica ou ioga milenar à escola, toda a gente acha muito moderno e civilizado. Se for um qualquer outro tipo de ritual, ai que não pode, que há-de Jesus Cristo descer à Terra! Olha, até vinha mesmo a calhar! Ó menos acabavam-se as dúvidas, redimiamo-nos todos e salvava-se o mundo de vez!

       O Senhor me perdoe!, cruz credo! mas a mim já me mordisca os nervinhos quando as intolerâncias Jeovánicas metem bedelho na minha aula para tentar impedir que a criança celebre o dia de São Valentim ou o Carnaval ou o raio que os parta, com a esfarrapada alegação que atenta contra as suas convicções religiosas.
        Ora, eu represento uma escola, pública e laica. É meu dever incorporar tudo e promover o respeito por tudo.
       E, para além do mais, eu ensino uma língua estrangeira. Por essa razão, o currículo que me compete abordar inclui vocabulário sobre estas datas e inclui conteúdos de carácter cultural. Aliás, essa é uma das vantagens de aprender uma língua estrangeira - desenvolver o relativismo cultural, percepcionar o mundo de formas diferentes, conhecer outras culturas e dinâmicas sociais. Assim, quando eu me debruço sobre o Saint Valentine's Day, eu tenho um objectivo linguístico ( que adquiram esta e aquela e mais aquela PALAVRA) e também cultural: que saibam que esse dia se celebra no país tal pela razão y ou x.
         Quem diz cultural, diz religioso. Por amor da Santa!

         Eu já fui com alunos à Mesquita Islâmica de Lisboa, vimos, escutamos e responderam às nossas perguntas. Que eu saiba, ninguém se converteu! E ter estado num local tão diverso do regaço monocultural em que os meus alunos viviam foi um banho de cultura e respeito pelo próximo.

        Se eu trabalho numa escola com uma grande comunidade cigana, gosto de vê-los dançar, aprecio e aplaudo no fim. Nem por isso viro nómada!

       Uma vez, um amigo nosso teve curiosidade de ir à missa com a minha família. Rimo-nos muito com ele a imitar-nos, a enrolar-se todo entre braços e dedos para tentar fazer o sinal da cruz, e muito pasmo de nos ver ladainhar aquelas respostas todas em coro.
       Foi divertido! Não caiu nenhum santo do altar! E não consta que tenha virado padre ou que lhe tenha crescido um crucifixo na testa por essa hora que ali esteve connosco.

       Por tudo isto, e num tempo tão sedento de tolerâncias várias, e particularmente religiosas, deixem lá as escolinhas do norte (sim, porque cita a fonte que a gente cá por cima é mais misseira!!!) rezar e orar e pregar. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!
    O mundo não está parco de fundamentalismos; seja, ao menos, o nosso país de "brandos costumes" mais mansinho e tolerante. Amén!

PS No barulho das luzes, distrair as massas com polémicas pouco polémicas, para que não se escutem nem vejam os verdadeiros problemas da Escola. Mas isso é todo um outro texto.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Apetência para as línguas!

Resultado de imagem para nacida para ser yo mismaChego à sala de aula e leio, em voz alta, a capa do caderno da da frente, caprichando no meu espanholês de luxo:

"nacida para ser you misma"

e diz o do lado:

"Também vamos aprender Italiano txita?"

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Desta vez, ganha o salto alto!

Women Shoes Clipart fancy shoe 21 - 1500 X 1500Acabei de conhecer a tua mãe lá fora, ao portão, Zeferina!
Foi txitxa?
Sim, que mulher tão bonita! Toda elegante... 
É que ela trabalha num banco e tem de andar assim vestida e pintada...
Pois, estava mesmo bonita! Agora já percebi de onde te vem a tua beleza, parabéns!
Obrigada, txitxa! (estica o sorriso ao infinito)
De nada, é bonita e foi muito simpática! 
O teu pai também é assim?
Ela, muito depressa e por esta ordem:
Nããão! Tem cinquenta e dois anos, é careca, tem barriga e ainda faz Karaté!
Rio-me... e sem eu perguntar mais nada:
Ah e está desempregado, mas vende Herbalife, só que, para isso, não tem de vestir nada de jeito, anda sempre de qualquer maneira!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

"Certa idade"

Chego um pouquinho atrasada às Correntes, 
porque a mesa começa às dez e a minha aula também terminou a essa hora. 
De maneira que subo a escada, 
entro pela lateral para não incomodar muito 
e arranjo lugar logo ali no topo do auditório, junto à coxia. 
Sento-me, desembaraço-me de casacos, chaves e tralhices, saco caderninho e material escrevente
(a gente ainda leva um certo tempo a acomodar-se)
habituo os olhos cheios de luminosidade exterior à semi-luz da sala e, finalmente, observo. 
Tenho de semi-cerrar os olhos míopes para ler os nomes das entidades lá ao fundo, 
pelo que abro o saco, 
novamente, 
a fim de consultar o programa e verificar -de mais perto- os ditos nomes.
Estico os olhos sobre as cabeças da plateia. 
Para esta hora matinal, até está composta. 
Cá de cima, o anfiteatro é uma cascata de carecas e cabelos grisalhos
Não há jovens que se interessem pela leitura e pela escrita?

Dias depois, Mário Cláudio refere jocosamente que esta expressão "de certa idade" é algo curiosa, particularmente quando, de seguida, se lhe acrescenta "mas com boa cabeça". 
Seja. 
As Correntes estão cada vez mais concorridas, o certame celebra vinte anos e vem crescendo em qualidade e afluência.  
A edição deste ano foi realmente extraordinária. 
Pena é que as "boas cabeças" sejam, 
não posso deixar de constatar, 
maioritariamente grisalhas ou carecas!