quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Afectos na praia

Resultado de imagem para bicicleta perto do náuticoJá sabem onde almoço nestes dias de sol, certo?

Bem, 
quando chove estaciono na mesma em frente ao mar
e como dentro do carro.

Esta semana tem estado bom para o marmitar marítimo.

Hoje até molhei os pés!
(Três. Sabiam?
Três ondas é o número perfeito para limpar as energias com água salgada, dizia a Júlia, cujas energias já andam por esse universo infinito fora.
Eu não sei se acredito ou não,
mas pelo sim, pelo não,
e para honrar a Júlia,
deixo correr três vagas.)

A praia deserta é a minha praia.

Só assim, sem o barulho dos veraneantes, é que realmente se escuta o mar. 

Nesta minha praia deserta há, uma vez por outra, uma alminha a caminhar na areia ou encostada a uma rocha, como eu, suponho, em busca de silêncio e calmia neste mundo que gira tão velozmente.

Há um octogenário que chega regularmente de bicicleta.
É magro e enrugado; vem sozinho, traz boina, vem de bike  (ouviram bem);
encosta-a ao poste e senta-se no banco a contemplar.
A apanhar um pouco de sol, de vento ou de ar fresco, o que houver. 

Somos muito assíduos, os dois.
Pese embora nunca nos tenhamos falado, gosto de o ver por ali.
Gosto de o ver chegar, a pedalar, cheio de vivacidade e força nas canetas.
Agrada-me que ali esteja, a observar.
De vez em quando, semicerra os olhos e reclina a cabeça para trás.
Não dorme, desenganem-se. É a sua forma de usufruir do sol.
Às vezes, penso: terá sido pescador? (tem a pele tão tostada)

Quando não vem, sinto-lhe a falta.
Preocupo-me, temo o mau.
Que lhe tenha faltado a força nas canetas.
Temo o pior.

Ele hoje não veio.
E foi a sua ausência que me fez sentir sozinha,
naquele bocadinho de tempo em que os nossos silêncios costumam conviver.

Em véspera do dia do amor 
- amanhã é o São Valentim, certo?
a praia está tão vazia
que dou por mim a pensar:
mas onde é que andam os pares de namorados desta cidade?
Um sítio deslumbrante destes, um dia cheio de sol
e não há quem venha para aqui namorar?
Já não há homens românticos?
(Penso - tá tudo na escola!)

Alargo a vista para o horizonte
e vejo, lá ao fundo,
efectivamente um casal.
Afinal ainda há homens românticos.
Estão uns com os outros.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Papooooona!

A gente anda a dar os alimentos e as bebidas, no quarto ano.

É um tema que eles adoooooram 
e sobre o qual têm míriades de bitaites a dar, desde o cheiro da sopa da avó 
(ao que parece já só as avós fazem sopa; as mães deixaram-se disso!!!)
ao número exacto de flocos de cereais que põem no leite da manhã!

Depois há os biológicozinhos, tudo vegan, tudo clean, sem glútens nem nada dessas modernices que não mataram as gerações anteriores, mas que agora os incham e os tornam agressivos ou eufóricos ou deprimidos ou o que quer que seja.

Eles aprendem, 
maizómenos,
lá vão dizendo BOTATOES (pois claro, batatas); 
LIMONADE (qual lemonade); 
SOAP (que quer dizer sabão e não sopa!😃😃😃) 
e UVES (grapes é em estrangeiro, nem se vê que é uvas!)

Depois têm este exercício 5, que se vê na imagem, 
para escreverem 
Things I like e Things I don't like
- as coisas que gostam e as que não gostam,
em cada coluna, respectivamente.

Antes de começarem a perguntar-me 
como é que se diz bolinhos de bacalhau em inglês, txitxa?
vou avisando que é só com as palavras que aprendemos
só as que estão nas imagens do livro.
Suspiro, porque há sempre um que confirma:
então não posso escrever pizza?
e lá se entretêm com as limitadas trinta opções ali esparramadas.

Só que há uma,
a popotita da turma,
rolicinha e de bochechas rosadas,
que me diz, toda indignada:
"Txitxa! Txitxa! O que é que eu ponho na coluna do don't like?
Eu gosto de TUUUUUDOOOO!!!"





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dias normais

Imagem relacionadaEm dias normais,
vejo e escuto tanto,
que me canso mais disso
do que propriamente de dar aulas.

Em dias normais
a menina do segundo ano,
olho azul profundo,
a ser ralhada por...
ter feito xixi nas calças,
pela terceira vez no mesmo dia.

Tento falar-lhe, mesmo sem a conhecer,
e aquelas esferas,
muito azuis,
muito dilatadas,
muito assustadas
a fitar-me,
como se eu pudesse ver lá no fundo
aquilo que a inquieta tanto!
Não consigo!

Vejo vergonha e medo,
daquele instante concreto;
do ralhete das adultas,
que já a mudaram hoje
- não as censurem:
são humanas,
cansam-se,
esgotam-se,
mudam fralda,sim,
várias vezes por dia,
todos os dias,
a uma outra menina
que chegou ao primeiro ciclo
cheia de traumas e sem nunca desfraldar;
com esta é que não contavam,
e há os outros duzentos aos pinchos no recreio,
a atropelarem-se e a esfolar joelhos.

Em dias normais
o menino que tem um achaque
logo após o lanche,
tensão baixa não é, de certeza,
mas está desorientado
e desfalece;
chama-se a ambulância,
vai recuperando,
já fala,
diz aos paramédicos
que não quer ir ao hospital,
que no corpo dele ninguém toca.
E aquilo fica a tilintar-me nos ouvidos,
tanto ou mais do que a possibilidade de diabetes.

Em dias normais
o José não traz lanche;
outra vez
ou ainda.
Sei que há maçãs e pão disponíveis no recreio,
mas ouço-o pedinchar aos colegas
outra vez
e ainda.

Deixo-lhe a fatia de bolo de chocolate
que a Ritinha me reservou do seu bolo de nono anversário
(cor-de-rosa, com unicórnios e arco-íris)

Dói-me a barriga do chocolate que não comi,
do arco-íris que ao José ninguém pinta lá em casa
e das mudas de roupa urinada
que as funcionárias secam no aquecedor.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Biblio vivências 3

O Livro das Oito Histórias Vol 2Se um desconhecido lhe oferecer flores...
isso é Impulse!

Como ditava o mítico anúncio ao desodorizante, nos anos 80.

Mas e se for UM LIVRO?

Digo-vos, 
é indubitavelmente surpreendente 
e até algo embaraçoso receber um livro de um desconhecido.
A mim, 
claro,
como a minha vida dava um filme, 
já me aconteceu!

Quando cá chegámos, no ano passado, claro que inscrevemos o Pedro no futebol e a Maria ainda deambulou por umas experiências, mas rapidamente quis voltar a nadar, pelo que começou a frequentar a natação.

Quer nas bancadas do estádio, 
quer no hall de entrada das piscinas municipais, 
quer nos bares de ambos espaços, 
passei 
(e passo) 
largas horas de espera... a ler. 

Leio romances inteiros durante os treinos deles, mais do que em Bragança, onde já conhecia as outras mães e sempre dava duas de treta. 

Aqui, 
como sou forasteira, 
largo-os à hora do treino e leio até após os duches!A dois treinos por semana cada um, eram dezasseis horas por mês a ler. 
(Este ano mais, porque o Pedro treina à segunda, quarta e sexta!)

De maneiras que, certo dia, uma senhora que por ali esperava também numa cadeira, no hall de entrada da piscina, e com quem nunca tinha trocado mais que um educado boa tarde semanal, estendeu-me um embrulho, dirigiu-me a palavra e disse: 

"É para si! Sei que vai gostar! Gosta tanto de ler!"

Eu fiquei tão sem jeito, tão envergonhada, que me faltavam as palavras, os gestos - agradecer, dar um beijinho? - foi o que acabei por fazer, meia atrapalhada.

"Para mim? Mas... porquê? Não precisava!!!!!"

"Porque eu quero, porque sei que a vai fazer feliz!"

Eu, ainda embaraçada, com aquilo na mão, que não, que não, que não havia necessidade.

"Abra! Vai lê-lo à menina, de certeza que vão passar bons momentos juntas!"

Desconcertante! 
Abri e era um livro infantil.
Ao fazer que folheava (que eu nem estava a ver nada à minha frente), caiu-me de lá uma oração.

"Penso que isto lhe pertence, vinha no meio!"

E ela, com um ar cândido e plácido:

"Para si, minha querida, tudo o que aí vai lhe está destinado e há-de ser-lhe útil!"

Agora, ao escrever,
apetecia-me gozar com a situação...
dizer que tive medo desta evangelização subtil
ou deste engate descarado (??!!!)
ou que duvidei da sanidade mental da senhora
- não, não era idosa: quarentona, loira, olho claro, sorriso grande!
(Pelo sim, pelo não - vá de retro vudu . nunca mais abri o cartapácio!!!)

Mas, não!
Vamos ficar com o romantismo desta nota positiva, que reforçou a minha crença na humanidade:
Que uma desconhecida me ofereceu um livro por me ver ler e para me fazer feliz!

O mundo é ou não é uma caixinha de surpresas?





quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

(Cérebro) parado!!!

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Depois de ...
algures, nesta vida de estrada,

já ter galgado rotundas,
lambido retrovisores
e afagado muros...

Depois de...
já ter enfaixado um carro no quintal de uma velhinha
que, por sorte,
regava as couves meio metro mais à frente

já ter travado em cima de uma família de javalis
e
de
ter sido atropelada por um veado
(sim, ouviram bem, mas essa história dá todo um outro post)


Comecei a adoptar uma condução
um pouco mais...
defensiva!

No outro dia, parei num sinal de velocidade.
Pelo retrovisor,
vi chegar outro veículo atrás de mim,
travando com tal brusquidão que quase se estatelava na traseira do meu boguinhas.
Penso:
mas onde é que este vem?
está maluco, ou quê?
então ele não vê o ver...
Buzina-me e esbraceja para que lhe saia da frente.
Olho para o semáforo.
Tem razão - está verde.
Desculpo-me com um gesto e avanço.
Há quanto tempo estaria verde?
Esteve sempre verde!
Por isso é que ele me ia batendo!
Parei no verde!
Vi o semáforo e parei!
Ummmmm... sem comentários, tá?
Sejam misericordiosos com o meu cérebro cansado!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Biblio vivências 2

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2017/2018 foi também o ano em que comecei a escutar audio livros.

Por um lado, 
isso exponenciou, em muito, 
o tempo em que "estou a ler" 
e, por outro, 
levou-me a perceber a quantidade de tempo absurdo que gasto em lides domésticas, altura em que coloco os ascultadores para "ler".

Foi por ter mudado para esta casa e ter perdido o meu furacão Fátima, que cuidava das minhas roupas, que me vi atirada para o ferro e para a tábua horas seguidas.

Eu achava (e acho) aquilo entediante e comecei por ouvir músicas no youtube. 
Porém, isso era demasiado distrator, acabava por dar grandes concertos para a triste plateia do cesto e das cruzetas, com direito a vénias da minha parte, mas sem aplausos da deles.

Pensei nos livros. E em como preferiria estar... A LER!
Como era uma primeira experiência, não sabendo se me adaptaria ou se me agradaria o relato, não comprei nenhum audio livro. Fui ao Youtube e pesquisei.

A primeira coisa que constatei foi que há muita tralha em português do Brasil e pouca na variante do nosso vernáculo.

Adiante. As camisas esperavam-me. 
Comecei por ouvir um best seller internacional, daqueles com Cornucópias douradas na capa e letras caligrafadas com reviretes. Acho que se chamava "A Seleção", não sei. Não o acabei, era demasiado mau. Não por ser audio, era a narrativa em si. Eu não teria lido aquele livro físico.

Voltei à carga, mas, desta vez, queria evitar locuções brasileiras (sem ofensa) e procurei em inglês. 
É um mundo! Há clássicos, policiais, biografias, livros de auto-ajuda, tudo!

Claro que certas coisas são mais fáceis de seguir do que outras. 
Como nas leituras físicas. E, visto que, estou sempre a fazer algo em simultâneo, nem sempre pode ser muito filosófico ou intrincado; embora, por vezes, tenha sido. Tentei Orlando, de Virginia Wolf, na língua de Sua Majestade, mas distraí-me logo nas primeiras páginas. Esse fica para segurar nas mãos!

Aqui está a lista do que li, 
desde então,
enquanto andava a lavar sanitas, estender cuecas, preparar repolho para sopas ou limpar cagadelas de mosca dos vidros:

A Child Called It, Dave Pelzer 5*
O Gato Preto, Edgar Allan Poe 4*
How to Analize People on Sight Through the Science of Huma Analysis, Elsie Lincoln Benedict 1*
The Plague, Albert Camus 5*
The Stranger, Albert Camus 3*
The Handmaid's Tale, Margaret Attwood  5*
The Schack, William Paul Young 2*
The Woman in the Room, Stephen King  3*
The Glass Castle, Jeannette Walls 5*
To Kill a Mockingbird, Harper Lee (a meio)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Biblio vivências 1

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O ano lectivo que passou foi muito profícuo e peculiar em experiências relacionadas com livros.
Vou relatá-las nesta saga a que chamei Biblio vivências.


A primeira situação inédita e agradável aconteceu na escola.

Foi muito surpreendente! 

Encontrei uma colega, professora de 1º ciclo, que lia proficuamente... em inglês! 

Não me censurem a admiração; bem sei que há pessoas de todas as formas e feitios em todos os estractos sociais; bem sei que não há caixinhas nem gavetinhas que nos possam acomodar a todos - tanto é que o Renato teve um mecânico a quem emprestou um Saramago meu, que lá andava perdido no banco de trás! - mas, simplesmente, a mim nunca me tinha acontecido. 

Estamos a falar de uma pessoa com quem eu trocava livros (quase) semanalmente... livros em inglês!

Foi uma benção!
Revitalizou a minha língua, porque à borla eu só arranjava livros em português na biblioteca e ela trazia malas cheias das férias nos hotéis de Vilamoura e consumíamos daquilo, à vez, pelo inverno fora. Pena que mudou de escola; tenho de lhe telefonar.

A vida é ou não é uma caixinha de surpresas?

domingo, 27 de janeiro de 2019

#we remember

Imagem relacionada

A 27 de janeiro de 1945, o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau foi libertado pelas forças aliadas.

Por isso,
hoje, comemora-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

E correm nas redes sociais imagens de pessoas a segurar cartazes que afirmam que não nos esquecemos: WE REMEMBER (nós lembrámo-nos)

Como não?

Primeiro,
porque foi no outro dia! Ainda há sobreviventes, vítimas e agressores, todos a viver no espectro dos horrores experienciados!

Depois,

porque extermínios raciais aconteceram, de uma forma ou de outra, em várias partes do planeta - isto não é um problema dos alemães!

Finalmente,

e em especial,
porque o mundo que temos hoje 
ainda
estala com os mesmos furúnculos podres 
que deram origem àquela hedionda carnificina: 
antisemitismo, xenofobia, racismo, discriminação, intolerância.


Isto diz respeito a cada um de nós.

No nosso dia-a-dia. 
Com o vizinho do 3º esquerdo,
a prima preferida da avó,
as pessoas que vilipendias nas redes
ou o gajo com quem te picas ao volante.
Com o gordo, 
o gay, 
o preto, 
o rico (não disse ladrão),
o cigano, 
o emigrante, 
o refugiado...
a lista não tem fim.

Honrar as vítimas do Holocausto, 

e colaborar para "nunca mais" 
é darmos exemplo,
no nosso quotidiano, 
de paz e tolerância.

Porque há muitas formas de "queimar" pessoas!


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Largada do Abutre Negro nas Arribas do Douro

A imagem pode conter: céu, ar livre e naturezaA imagem pode conter: montanha, céu, ar livre e natureza

A gripe tombou-me na cama há dois dias.
Ontem, na sala de espera para ser atendida pelo médico, com a cabeça a latejar e arrepios de frio, escuto a voz de uma amiga a sair da televisão. 
Levanto os olhos doridos e vejo a peça da Silvia Brandão sobre a largada do abutre negro nas Arribas do Douro. Numa palavra, a ave foi resgatada, cuidada, recuperada e era, agora, devolvida ao seu habitat natural. 
Se há uns anos me dissessem que um abutre haveria de me comover, eu diria que só se estivesse a delirar de febre. No caso, também estava.
No entanto, eu já passei por uma experiência assim e vieram-me as lágrimas aos olhos. Foi em Vimioso, para aí em 2011. Fui com uma turma ver soltar um Milhafre Real, que havia sido resgatado e sarado pela malta da UTAD ou do Parque Natural das Arribas do Douro, já não me lembro. Quando vão devolver estas aves à natureza, avisam sempre as escolas, que seleccionam uma ou outra turma para assistir. Dessa vez, o privilégio foi meu.
Os monitores tinham pedido silêncio e os miúdos acataram, pelo que a largada se tornou algo solene e sagrada. Quando vi aquelas asas expandidas em céu aberto, aquela recuperação de liberdade, aquele voltar para o sítio certo... comovi-me profundamente.
E, pronto, era só isto.
Podia fazer metáforas sobre a libertação do abutre selvagem agrilhoado; podia enumerar os benefícios que esta experiência tem para os alunos; podia relatar memórias dos meus anos de docência por detrás e entre os montes; podia fazer elações poéticas sobre a doçura que cabe numa voz amiga vinda de um televisor numa sala de espera de um hospital quando estamos a arder em febre. Mas não.
Hoje era só mesmo para dizer que uma ave retornada à montanha é um espectáculo arrepiante e majestático.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Tá justificado!

A gente também tem culpa.
Resultado de imagem para clipart, absence reportA gente aceita-lhes tudo e mais alguma coisa e, se calhar, bem.
Não interessa que exista um Regulamento Interno, 
nem um Estatuto do Aluno.
A gente - professores, directores de turma - continua a aceitar justificações de faltas evasivas e anedóticas. "Esteve doente"; "Dormiu mal"; "Os astros não se conjugaram para a criança fazer a sua aparição cósmica no planeta escola!"

Ainda hoje vi uma que rezava assim: 

Data:22/ 01/2019
Motivo: Familiar

O "familiar" salta-me à vista e ocorrem-me milhões de situações que cabem neste epíteto. 
Familiar, como?  
A pulga do cão perdeu-se e o clã andou todo à procura dela pelos quatro cantos da casa? 
A avó partiu a prótese da anca? 
O mano fez birra para vestir a camisola do Sponge Bob? 
A mãe partiu uma unha? 
O pai estava de ressaca e não se levantou?

E quão alargada é essa família? 
O primo da França também conta? 
As oito ex-mulheres do tio octogenário também estão na linha considerável para a justificação?
O céu é o limite!

Às vezes, na tentativa de serem mais minuciosas, as respostas são um tanto nada prosaicas. 
"Teve diarreia"...
"Teve prisão de ventre!"... 
e quê? Neste caso ficaram em casa para lhe dar uma forcinha?

Enfim, laisser faire, laisser passez.
É que a LEI, para nós, aplica-se. E se o menino tiver faltas injustificadas, a gente mete-se numa carga de trabalhos em papéis, burocracias e "recuperações", que mais vale aceitar os motivos familiares. Afinal, os vínculos familiares, está provado, são um aspecto fundamental do sucesso escolar!

Salvo quando a falta de assiduidade é, de facto, continuada ou recorrente, nada disto é pecado capital. Graceja-se e passa-se a bola. 

Por vezes, no entanto, esticam a corda. Como faltar no dia do teste, previamente marcado. 
"Fomos de férias"... 
aaaahhh? E agora? 
Passo mais duas horas ao computador a fazer um teste novo para ti ou siga a rusga e fazes o mesmo? Já sei!
Para a próxima, avisa-me, que levas o teste contigo para as Caraíbas para que o resolvas ao sol!
Tem só cuidado de não o besuntar com gelado e não deixes que to confisquem na alfândega! 

Mais de resto... tá justificado!

domingo, 23 de dezembro de 2018

Natalar devagar e mornamente

Esteve um fim de semana tão lindo, este que antecedeu o Natal!
Debaixo de um solinho ameno, depois de tantos dias de chuva,
passeei com os meus filhos pela marginal,
fizemos umas comprinhas no comércio tradicional,
ao som de musiquinhas da época,
sem filas,
sem consumismo exacerbado,
sem a voragem diabólica em que se vive esta quadra nas grandes cidades;
visitámos a duendelândia e andámos no trenó virtual,
vimos pais natal a fazer paddle no Cávado,
vimos um Pai Natal a sobrevoar a praia em parapente!
Observámos garças, gaivotas e outras aves marinhas que só o Pedro sabe nomear,
apanhámos seixos na praia que a Maria gosta de pintar,
fizemos marmelada para oferecer,
embrulhámos prendinhas com carinho,
a Mary andou de patins,
fomos à missa abençoar o nosso menino Jesus e trouxemo-lo para casa para nos proteger,
enchemos a casa de cheirinho a canela e vinho do porto na confecção da doçaria,
vimos o ET de lágrima no olho,
deixámos o pôr do sol que prateava as águas do rio dourar-nos a alma.
É tão verdade que as melhores coisas na vida são de borla,
assim saibamos vê-las com olhos de ver.
Grata por tantas bençãos!

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Prendas que não têm preço!

São as melhores!
As prendas que não têm preço, são, cada vez mais, as que mais me preenchem a alma!

Lá na escola recebemos um contingente do lado de lá do oceano, maioritariamente famílias brasileiras, mas também algumas venezuelanas, todos à procura de alguma paz e prosperidade, que as terras-natais deixaram de dar.

Os currículos são diferentes, o calendário lectivo também, de forma que chegam "tarde e mal" e a escola decidiu  - e muito bem, a meu ver - oferecer-lhes aulas extra, uma oportunidade para trabalharem um pouquinho esta semana, para liquidarem essas lacunas e darem o pulinho para acompanhar os colegas, no próximo período.

De maneiras que...
lá estivemos nós, na escolinha deserta, a pôr a escrita em dia
com boa disposição, muito afinco e carinho.

Um grupo que vem 
com vontade de trabalhar, 
que pede mais ("dever dji cása, num taim não?"
e que me mima tanto na sua língua: 
"Oh, Txía! Cê tá linda hoiji!"

Explicar que não chamamos tia e socorrer-me de todas as expressões idiomáticas que me ficaram dos bons tempos em que "assistia novela". 

Digo "num isquenta!", 
quando ficam aflitos com tanta matéria

"Danou-se"
quando falham num exercício

ou:
"Legau!"
quando acertam!

E eles riem e continuamos.
"Sê esquecéu seu caderno? Uai! Qui saco!"
"num veim qui num teim"
"num m'inrola qui não sô onda!"

... e por aí fora.
Vejam lá a minha sorte:
Até tenho uma que se chama, adivinhem,
"Gábriéééla!"


Eu acho que das duas, uma!
Ou eu tenho uma pronúncia tão má quanto a deles em inglês
ou eu falo assim um brasileiro antigo, 
do estilo do que falavam as avós deles na roça...
que, às vezes, nem assim me entendem!

MAIS, dji um jeitu ô du ôtro,
Á coisa vai!

De todos, há uma menina.
Uma formiguinha.
Labuta, labuta, labuta,
como se não houvesse amanhã.
É a aluna perfeita.
Educada, focada, inteligente, sensível, com um sorriso no rosto.

Deu-me a melhor prenda do ano.
Escrito por ela, com palavras de coração.
Uma benção para o ano que se avizinha.

"Que Deus te abençoe
e te dê um ano feliz e abençoado...
Que seus desejos se realizem
e que em sua vida haja
amor, paz e amizade!
Bom Natal e Feliz Ano Novo!"

Comoveu-me, a Natália.
A Natália nem sabe como eram exactamente estas as palavras que eu precisava de ouvir!

Deus te abençoe, também, querida.
Deus te abençoe!



sábado, 15 de dezembro de 2018

F.I.R.E.


Uma Mãe de F.I.R.E.S.
Vamos lá falar de coisas sérias.

Era uma vez uns amigos nossos de praia. 
Gente simpática, educada, de bom trato, bom humor, piadas trocadas na areia, crianças que partilham brinquedos entre toldos e que levamos à àgua ao mesmo tempo, para o chapinhar ser mais largo enquanto os adultos desabafam aquelas arrelias que nos completam as vidas: o meu faz birra, aquele não come a sopa, a minha tem pancada com roupa cor de rosa e por aí vai.

Era uma vez a gente ver crescer os filhos uns dos outros, sazonalmente, mas com carinho e saudade, voltando à mesma praia, todos os anos, como quem regressa a casa, o porto seguro dos nossos afectos, para lavar com àgua salgada a poeira de um ano inteiro a trabalhar!

E, ver chegar filhos novos, desta vez a bebé rechonchudinha a mamar consolada. Olheiras de cansaço e sorrisos de alegria, a família a crescer, que bom partilhar destas conquistas, os amigos que têm um menino e agora uma menina!

Era uma vez o ano seguinte e os amigos que não voltam.
A Isa, a bebé rechonchuda, teve uma febre nesse inverno e a família entrou no inferno. O estado clínico da Ísis precipitou-se, convulsões atrás de convulsões, que ninguém conseguia dominar, como um fogo - FIRE - a queimar o sossego e a felicidade fotográfica daquela família.

Febrile Infection-Related Epilepsy Syndrome,
uma doença raríssima, que levou meses infernais a controlar
é o nome do fogo.

O outro, de que fala este livro e de que vos venho falar,
é o de uma mãe que leva tudo à frente e que arde de amor para ajudar esta menina.
Incendeia tudo, a mãe Carla.
Enfrenta uma comunidade clínica hostil,
chamusca imposições legais,
luta para que lhe validem a administração de canabidiol
à sua menina em fogo,
derrama no papel a dor, mas também a esperança ...

...e aqui estou para atear as labaredas desta fogueira agora.
Esta fogueira de amor,
esta chama de esperança para ajudarmos a nossa bebé da praia.

A Carla, a nossa amiga, escreveu este livro.
É um testemunho de amor, de coragem e de esperança.
Comprá-lo ajuda a financiar tratamentos e convida a uma reflexão sobre estas questões que não nos são alheias.
Porque somos mães.
Porque em dado momento das nossas vidas nos poderemos vir a encontrar com o sofrimento.
Porque, eventualmente, chegaremos a  velhos, em condições que ignoramos.
E, portanto, canabidiol pode vir a ser uma palavra com alguma ressonância nas nossas vidas.
Mesmo se não, há esta mãe e esta família.
E a vontade que temos de voltar a encontrá-los na nossa praia num verão próximo.

Se, de alguma forma, vos sensibilizei, vão à Fnac, procurem este título e comprem.

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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Sua excelência, O Leitor!

natal-dos-leitores-2
Durante as quatro dezenas de anos 
que por aí tenho andado de nariz enfiado nos livros
a perder-me 
gostosamente 
por entre estantes de 
bibliotecas, alfarrabistas, feiras do livro e livrarias,
nunca fui homenageada pelo facto de gostar de ler.

Não é que ler não seja Gratificante, um valor em si mesmo.

A Biblioteca Municipal Manuel de Boaventura, aqui em Esposende, brinda a esse vício, nutre-o e premeia-o:
Celebra-se em festa, o Natal dos Leitores, e honram-se os leitores mais assíduos, com leituras partilhadas, um lanchinho e um miminho, claro, com letras.

Faz sentido e é coerente, a iniciativa.

Para mim, repito, que fui e sou frequentadora de várias bibliotecas
 - escolares, públicas, itinerantes, particulares-
em diferentes partes do país
foi inédito e, portanto, surpreendente.

Quando cá chegámos, há sensivelmente um ano, eu e os miúdos apaixonámo-nos logo pela Casa do Arco! Linda, cheia de luz natural, as salas que comunicam, as janelas com namoradeiras em granito, a passagem "mágica" e, claro, as colecções! Toda uma outra casa cheia de novos livros para descobrir. (Viemos a perceber que também era uma casa cheia de livros Novos, com aquisições recentíssimas a conquistar os filhotes!)

No meu íntimo, temi, muitas vezes, deixar para trás uma biblioteca onde os meus filhos deram  literalmente os primeiros passos (não o digo metaforicamente, quero dizer que passávamos lá pedaços de tarde desde que eram bebés, resguardados do frio transmontano em sofás coloridos e de livros ilustrados no colo).
Temi deixar para trás uma amiga, biblioterapeutas uma da outra, a trocar leituras como quem troca pastilhas de vitalidade e esperança.
Temi perder uma certa forma de privilégio, advinda da familiaridade. Pensava: nunca mais me deixarão trazer sacos cheios de livros, requisições a granel, com o à-vontade de prazos porque, se necessário fosse, a amiga nos renovaria os empréstimos sem sequer lá irmos.
Pensava: nunca mais vou poder aparecer  na biblioteca de mãos a abanar, porque me sabem o código de leitora de cor, o meu e o dos miúdos, pelo que posso requisitar sem cartão nem nada. Porque os nossos números estão no coração de alguém que bem nos conhece e recebe.

Um ano depois, 
ainda tecendo uma amizade verde, 
mas bem acolhidos e de leituras bem facilitadas
sentimo-nos muito bem nesta nova casa. 
Os privilégios foram-nos todos concebidos - podemos requisitar cinco livros por cartão, encher o saco do costume - nem só de pão vive o homem e a gente cá em casa vai quase tanto à biblioteca como à padaria! Como devolvemos uns e requisitamos outros, está lá o número e ninguém nos pede o cartão, é quase como já ser da casa, e deixam-nos à vontade e até já nos renovam, se a gente se atrasar.

E, para além de tudo isso, uma festa em nossa honra!
Com diplomas e tudo!
Honra a nossa usufruir de um serviço público de qualidade.

E vocês, têm frequentado a vossa biblioteca municipal?


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Are you SURDE or what?

Resultado de imagem para minisomFarta de ter meninos que já trazem as respostas para os exercícios de audição, antes mesmo de ouvirem (porque os ATLs fazem um trabalho pouco honesto de preparação dos testes, que consiste em dar-lhes a resolução de listenings, que "adivinham"), decidi escrever os meus próprios tapescripts e LER o meu texto original para, assim, efectivamente, testar a compreensão oral.

Então, e para que seja adaptado a este nível de iniciação, cá me ponho a inventar diálogos em que parece tudo surdo e se repete a informação em redundâncias hiperbólicas, que só me fazem rir.

Assim:
a) How old are you?
b) I'm thirteen years old.
a) fourteen?
b) NO!!!! Thirteen. I'm thirteen years old!


Ou assim:
a) What's your name?
b) My name is John.
a) Really? John? How do you spell that?
b) J-o-h-n. John!
a) Ah! OK. Nice to meet you JOHN!

 É o que eu digo - nos meus diálogos são todos surdos ou atrasados mentais.

Escrito com carinho pela teacher, com o patrocínio da Minisom!
(Ouça tudo com MINISOM!!!)

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Minino do Rio

Há raivinhas subliminares crescendo subrepticiamente no nosso país de brandos costumes.
Ouço o idoso que consulta os periódicos na biblioteca rezingar para o outro sobre umas gordas quaisquer "SUBSÍDIO de 500 euros para um refugiado que acabou de chegar!!!...Uum gajo trabalhou neste país a vida inteira e leva com uma reforma que não chega a isso"

Percebo-lhe a mágoa, embora me desagrade o argumento, ergo o sobrolho e tento afastar-me mentalmente do que dizem. Mais de resto, é uma biblioteca, não se alaridam muito; foi só o desabafo que saiu gritado, como um suspiro contido que se não controla.

Tomo café e um grupo de poveiras discute a nova vaga de recém-chegados do lado de lá do oceano. "Estamos a ser invadidos por venezuelanos e brasileiros; qualquer dia nem sei onde isto vai parar. Já não há trabalhos para nós, quanto mais para os outros."

A mim desagrada-me o desfiar de queixumes e acusações que se seguem, desde elas virem todas com silicone em várias partes do corpo meter-se com os nossos homens e por aí vai.

(Parêntesis político para quem gosta nada de se posicionar para cá ou para lá e prefere ir reflectindo sobre os assuntos. Migrações, sempre houve. A história da humanidade documenta-as. Há, hoje em dia, uma urgência em legislar sobre os êxodos em massa, talvez. Para mim, a lente é sempre humanitária. Pessoas. Gente que procura melhor. Gente que foge de algo. Gente)

De facto, na escola, temos recebido muitos alunos vindos do Brasil.
Vêm fora de horas, porque os calendários escolares são desfasados; 
vêm desnivelados, porque os currículos são divergentes; 
quase não nos entendem o português de Camões;
enfim, causam alguma agitação no barco,
mas depois de embarcarem, remam connosco e fazem parte da nossa tripulação- A turma!

Por vezes, no entanto, o embarque não é fácil.
Esta semana vieram uns poucos. 
Mas um. 
Vi-o entrar pelo portão dentro,ao início da tarde, transido, olhos de desespero.A funcionária diz-me que ele está aflito pois hoje é dia de inglês, está no quarto ano e nunca teve inglês antes. Sabe que os outros meninos aqui em Portugal têm inglês, pelo menos, desde o terceiro ano. Recebo-o, sorrio-lhe, que não se preocupe. Falo-lhe na língua dele. "Não esquenta, não, cara! A gente vai ajudar você!" 

Ao final da tarde tenho aula com ele. 
Os outros vêm, sem cadernos, nem livros, mas meigos e cordatos e sempre "Oi, txitxia?" cada vez que não me entendem o português fluído.

Ele não aparece; sei que está na escola, se o recebi à uma. Dizem-me que está de castigo, que houve zaragata no intervalo. Aparece um pedaço depois, de olhos ainda mais desesperados do que da primeira vez que o vi, agora desesperados, aqueles olhos vermelhos de ter chorado.

É dia de revisões para a turma matriz.
De maneiras que tenho de me desunhar para responder à recepção de boas vindas de uns e à necessidade de pôr os outros a trabalhar. 

Por isso, apesar de ter a palavra castigo a martelar-me o cérebro (castigo, no primeiro dia em que aparece numa escola nova?) e aqueles olhos suplicantes a chamar-me, tenho de ignorar tudo isso por um bocado.

Logo que arranjo uma brecha em que tenho quase a malta toda controlada a resolver um ou outro exercício 
(são diferentes as tarefas, claro, os recém chegados nunca tiveram a língua de Shakespeare)
vou lá, a pretexto de corrigir ou ajudar.

Aninho-me de cócoras, na mesa dele, como costumo fazer para falar ao nível deles, 
(assim os meus joelhos o continuem a permitir)
e chamo-lhe os olhos com os meus.
"Então, que se passa? Está a ser um dia difícil, não? Logo de castigo, logo metido em confusões... que se passou?" Pouso-lhe a mão no ombro.

Explica-me entre soluços, atrapalhando-se todo, que o acusaram, mas que alguém lhe atirou não sei o quê antes e que, então, ele agrediu.

Numa outra situação qualquer eu nem ouvia. Brigas de garotos nos intervalos fazem parte do quotidiano normal e saudável.

Mas.Este!
Está tão aflito, tão perdido!
De repente, percebo! Aquilo explica-se-me, ilumina-se. 

Não é raiva, o que expressa; é medo.

Sinto-me profundamente comovida com este menino.
A chegar. Escola Nova, vida nova, país novo.
Penso:
 vens sabe Deus de que ambiente, 
já vivenciaste, vá-se lá saber o quê
quanta violência terás visto
aprendeste-a
agrides por defesa.

Não me contenho, pergunto.
"Sabes, aqui não nos entendemos assim uns com os outros.
Aqui a gente é da paz.
Aqui na escola todo o mundo brinca e é amigo.
Se precisares de ajuda procuras um professor ou um funcionário,
que nós todos estamos aqui para te ajudar, está bem?
(ele acena, acena, acena com a cabeça; os olhos cada vez mais enormes, como pratos)

De onde tu vens era perigoso?"

"Sim, muito perigoso meismo. Minha mãe sempre corria pra ir no mercado e uma vez ela mau escapou dji um txirôteiô!"

Apetece-me abraçá-lo. Afago-lhe o braço e garanto-lhe que aqui está em paz. 
Não há que ter medo. Aqui está seguro.








domingo, 28 de outubro de 2018

Alô? Tá lá?

Toca o telefone e és tu.

Atendo, contente, mas não és tu!!!!

É uma voz francófona, a dizer que encontrou o teu telemóvel na MO do Continente
Que me encontrou nos teus contactos como MartaVizinha. 

Sorrio, que de vizinha resta pouco. Sorrio pelas voltas que o destino dá para nos cruzar.
E sorrio porque, das duas... três:
Ou eu estou nos teus Favoritos, primeiríssima dos teus contactos frequentes e fui a última a ligar-te 
(que não abona lá muito pela tua vida social, pois eu creio que há uma boa meia duzinha de dias que te não falo!)
Ou ela andou a bisbilhotar o alfabeto todo até ao eme. Tás tramada, estás na calha para um bom suborno, pois  já te sabe os segredos todos!!!!

Bem, explicar-lhe que já não sou propriamente vizinha porta-com-porta é demasiado complexo. Além disso, na realidade, a minha alma é confinante à tua. Portanto, diga lá então, minha senhora, como havemos de fazer para ajudar a minha menina!

Lembro-me de lhe sugerir que procure nos contactos pelo teu esponjo, que escreva  "marido", que escreva o nome próprio. Falho, aqui, porque tu não lhe chamas pelo primeiro nome, mas pelo segundo. Adiante.
A senhora volta a ligar-me, naquele sotaque enchanté de "ser para os outros, ãh!", mas que non, non non, pas de rien que não encontra marido!!!!
Apetece responder - procure em A de amante ou vá ver em Xuxu, deve ser assim que ela o trata, cá entre nós que ninguém nos ouve!!!


Lá chegamos a um accord, ela diz que ainda tem 50% de bateria e que tem um carregador compatível e que vai colocar a carregar; agradeço, que gentil, muito grata pelo cuidado, vou então arranjar maneira dela telefonar para si própria e combinar consigo como resgatar o telemóvel, muito grata, minha senhora. Pas de tout, pas de tout,ãh! Já me aconteceu a mesma coisa e não tive a mesma sorte e que isto a gente traz as vidas cá dentro, ah, o incómodo, contactos, tudo!

De maneiras, miga, que não te safas! 
O mundo é uma  azeitona 
e, mesmo à distância, 
consigo saber 
que hoje foste comprar cuecas à Modalfa 
(e muitas, que vinhas com as mãos tão cheias que deixaste o telelé!)
que não tens tomado a pastilhinha p'ra lembrança
e que continuas tão atarefada que nem dás por falta do phone!

Se outras razões não houvesse, miga, não apagues ainda o meu contacto da lista. Nunca se sabe quando será a próxima vez que, de Esposende, eu te encontro o telemóvel numa aldeia recôndita de Bragança!
Já não me podes tocar à campainha para pedir sal, 
mas conta comigo para te resolver a vidinha na mesma!
Como vês, o universo já deu provas de que estou cá para isso!


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Yummi yummi!

São três e meia da tarde.
Está uma brasa estival, 
a sala de aula borbulha, 
eles transpiram. 
Salvos pelo gongo, eles e eu, toca para o intervalo!

Estamos com a sala quase toda ordenada, os materiais guardados, os lanches em riste para ir brincar. Salvo um ou outro, mais atrasado na tarefa final, ou mais lento a arrumar, ou mais curioso com o lanche do que brioso da organização da mesa. 

TíxÉr, tixÉr, a mousse estourou!!!

Ah?!

A mousse do Vítor estourou!

Viro-me, avanço três passos até o local da ocorrência.
Já lá estão duas meninas solícitas a socorrer o Vítor com carradas de lenços de papel e manadas de papel higiénico! 
O Vítor, esse, com um ar desolado - não sei se com mais pena do meu caderno ou do chocolate extraviado, acha que hoje é um dia aziago porque, primeiras, tinha partido os óculos no recreio e segundas tinha desperdiçado a lambiçe por cima do notebook! (caderno)

O caderno!Quanto mais elas limpam, mais espalham! 
Parece que levou com diarreia de elefante em cima!
Mas o que é que passa pela cabeça de uma mãe para enviar mousse de chocolate, com este tempo tórrido, aquilo tem ovos...

Sorrio-lhe para o animar: Deixa lá, fica um caderno docinho! 

terça-feira, 23 de outubro de 2018

May I speak English?

Foi em Setembro, na primeira aula do ano. A gente acha que vinte anos de serviço a pisar salas de aula nos preparam para tudo. Que já nada mais nos há-de surpreender. "Só que não", como eles dizem.

Era uma turma de terceiro ano. Por conseguinte, iniciação à língua. Alguns costumam ter umas luzes, por terem frequentado AEC (aula de enriquecimento curricular) no segundo ano, mas não é forçoso. 

Entro na sala de aula e, ainda sem contacto ocular por estar a pousar pasta e tralhas na secretária, escuto uma voz, algures da secção das carteiras do meio, que fluentemente e de uma assentada me interpela:

"Teacher do you mind if I speak English to you all the time? You are the teacher of English, right? You should be fluent and I could practise speaking to you..."

 Uou, uou, uou, uou, uou! Pára tudo! (penso) O que é isto?
Levanto o pescoço e foco - é um miúdo alto, robusto, mas algo desengonçado.

"How come do YOU speak English so fluently?
Are you American?"
(deduzo americano, pela pronúncia)

"No, I'm not American; I'm Portuguese. I've learnt the language on my own by watching videos! For me that's easy!"

Bem, a coisa por aí foi, mais uns minutinhos de diálogo absurdamente fluído e estruturado para uma aula de iniciação à LE (língua estrangeira) e para um miúdo de nove anos que aprendeu a falar sózinho... 
A sentir-me avassalada por um misto de emoções:
surpreendida, mas a juntar as peças do puzzle e a perceber, logo ali, que este devia ser o menino autista que me fora sinalizado;
absolutamente siderada com a capacidade desta criança;
inassumidamente satisfeita por esta oportunidade - para mim - de desenferrujar a língua, morta de papaguear cores, números e animais de estimação;
e ainda apreensiva, 
quer dizer, 
de pé atrás relativamente às implicações que isto há-de vir a ter na gestão da aula, na resposta às necessidades deste aluno em concreto e na manutenção da sua motivação.

De repente, lembro-me dos outros!
Espalho o olhar em meu redor e vejo um cardume de peixinhos de bocas abertas, uma ninhada de crias assustadas, algumas a ousar balbuciar em guincho semi choroso: "mas... mas... mas, profesoooooooora,  eu não sei in-gue-lê-ê-ê-ês!"

Não se preocupem!
Eu e o meu assistente
(pisco-lhe o olho)
estamos aqui para vos ajudar!

The FIRST!!!!

E,
por fim, 
depois de um bom quarto de hora a socorrer-me da pedagogia,
a caprichar na caligrafia à primária
e a esticar os meus dotes artísticos neste pódio mal amanhado e personalizado para melhor compreensão...
a conclusão triunfal!

Então vamos lá, lindo!
Let's check! Vamos ver se percebeste o que a teacher explicou!
How do you say "primeiro" in English? Como se diz? Qual é a palavra?

Ah! Eu sei, tíxEr, eu sei! 
O PRIMEIRO!

Não, amor, em inglês! Como se diz "o primeiro" em inglês?

(a página do caderno aberta; o esquema escarrapachado à nossa frente; eu a reforçar com o meu indicador em cima do lugar do campeão...)

Pensa bem, como é que a teacher disse, é o champion, é o...o...

O LUÍS!!!!

Rimo-nos os dois. Vencedor e vencida!