sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Papooooona!

A gente anda a dar os alimentos e as bebidas, no quarto ano.

É um tema que eles adoooooram 
e sobre o qual têm míriades de bitaites a dar, desde o cheiro da sopa da avó 
(ao que parece já só as avós fazem sopa; as mães deixaram-se disso!!!)
ao número exacto de flocos de cereais que põem no leite da manhã!

Depois há os biológicozinhos, tudo vegan, tudo clean, sem glútens nem nada dessas modernices que não mataram as gerações anteriores, mas que agora os incham e os tornam agressivos ou eufóricos ou deprimidos ou o que quer que seja.

Eles aprendem, 
maizómenos,
lá vão dizendo BOTATOES (pois claro, batatas); 
LIMONADE (qual lemonade); 
SOAP (que quer dizer sabão e não sopa!😃😃😃) 
e UVES (grapes é em estrangeiro, nem se vê que é uvas!)

Depois têm este exercício 5, que se vê na imagem, 
para escreverem 
Things I like e Things I don't like
- as coisas que gostam e as que não gostam,
em cada coluna, respectivamente.

Antes de começarem a perguntar-me 
como é que se diz bolinhos de bacalhau em inglês, txitxa?
vou avisando que é só com as palavras que aprendemos
só as que estão nas imagens do livro.
Suspiro, porque há sempre um que confirma:
então não posso escrever pizza?
e lá se entretêm com as limitadas trinta opções ali esparramadas.

Só que há uma,
a popotita da turma,
rolicinha e de bochechas rosadas,
que me diz, toda indignada:
"Txitxa! Txitxa! O que é que eu ponho na coluna do don't like?
Eu gosto de TUUUUUDOOOO!!!"





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Dias normais

Imagem relacionadaEm dias normais,
vejo e escuto tanto,
que me canso mais disso
do que propriamente de dar aulas.

Em dias normais
a menina do segundo ano,
olho azul profundo,
a ser ralhada por...
ter feito xixi nas calças,
pela terceira vez no mesmo dia.

Tento falar-lhe, mesmo sem a conhecer,
e aquelas esferas,
muito azuis,
muito dilatadas,
muito assustadas
a fitar-me,
como se eu pudesse ver lá no fundo
aquilo que a inquieta tanto!
Não consigo!

Vejo vergonha e medo,
daquele instante concreto;
do ralhete das adultas,
que já a mudaram hoje
- não as censurem:
são humanas,
cansam-se,
esgotam-se,
mudam fralda,sim,
várias vezes por dia,
todos os dias,
a uma outra menina
que chegou ao primeiro ciclo
cheia de traumas e sem nunca desfraldar;
com esta é que não contavam,
e há os outros duzentos aos pinchos no recreio,
a atropelarem-se e a esfolar joelhos.

Em dias normais
o menino que tem um achaque
logo após o lanche,
tensão baixa não é, de certeza,
mas está desorientado
e desfalece;
chama-se a ambulância,
vai recuperando,
já fala,
diz aos paramédicos
que não quer ir ao hospital,
que no corpo dele ninguém toca.
E aquilo fica a tilintar-me nos ouvidos,
tanto ou mais do que a possibilidade de diabetes.

Em dias normais
o José não traz lanche;
outra vez
ou ainda.
Sei que há maçãs e pão disponíveis no recreio,
mas ouço-o pedinchar aos colegas
outra vez
e ainda.

Deixo-lhe a fatia de bolo de chocolate
que a Ritinha me reservou do seu bolo de nono anversário
(cor-de-rosa, com unicórnios e arco-íris)

Dói-me a barriga do chocolate que não comi,
do arco-íris que ao José ninguém pinta lá em casa
e das mudas de roupa urinada
que as funcionárias secam no aquecedor.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Biblio vivências 3

O Livro das Oito Histórias Vol 2Se um desconhecido lhe oferecer flores...
isso é Impulse!

Como ditava o mítico anúncio ao desodorizante, nos anos 80.

Mas e se for UM LIVRO?

Digo-vos, 
é indubitavelmente surpreendente 
e até algo embaraçoso receber um livro de um desconhecido.
A mim, 
claro,
como a minha vida dava um filme, 
já me aconteceu!

Quando cá chegámos, no ano passado, claro que inscrevemos o Pedro no futebol e a Maria ainda deambulou por umas experiências, mas rapidamente quis voltar a nadar, pelo que começou a frequentar a natação.

Quer nas bancadas do estádio, 
quer no hall de entrada das piscinas municipais, 
quer nos bares de ambos espaços, 
passei 
(e passo) 
largas horas de espera... a ler. 

Leio romances inteiros durante os treinos deles, mais do que em Bragança, onde já conhecia as outras mães e sempre dava duas de treta. 

Aqui, 
como sou forasteira, 
largo-os à hora do treino e leio até após os duches!A dois treinos por semana cada um, eram dezasseis horas por mês a ler. 
(Este ano mais, porque o Pedro treina à segunda, quarta e sexta!)

De maneiras que, certo dia, uma senhora que por ali esperava também numa cadeira, no hall de entrada da piscina, e com quem nunca tinha trocado mais que um educado boa tarde semanal, estendeu-me um embrulho, dirigiu-me a palavra e disse: 

"É para si! Sei que vai gostar! Gosta tanto de ler!"

Eu fiquei tão sem jeito, tão envergonhada, que me faltavam as palavras, os gestos - agradecer, dar um beijinho? - foi o que acabei por fazer, meia atrapalhada.

"Para mim? Mas... porquê? Não precisava!!!!!"

"Porque eu quero, porque sei que a vai fazer feliz!"

Eu, ainda embaraçada, com aquilo na mão, que não, que não, que não havia necessidade.

"Abra! Vai lê-lo à menina, de certeza que vão passar bons momentos juntas!"

Desconcertante! 
Abri e era um livro infantil.
Ao fazer que folheava (que eu nem estava a ver nada à minha frente), caiu-me de lá uma oração.

"Penso que isto lhe pertence, vinha no meio!"

E ela, com um ar cândido e plácido:

"Para si, minha querida, tudo o que aí vai lhe está destinado e há-de ser-lhe útil!"

Agora, ao escrever,
apetecia-me gozar com a situação...
dizer que tive medo desta evangelização subtil
ou deste engate descarado (??!!!)
ou que duvidei da sanidade mental da senhora
- não, não era idosa: quarentona, loira, olho claro, sorriso grande!
(Pelo sim, pelo não - vá de retro vudu . nunca mais abri o cartapácio!!!)

Mas, não!
Vamos ficar com o romantismo desta nota positiva, que reforçou a minha crença na humanidade:
Que uma desconhecida me ofereceu um livro por me ver ler e para me fazer feliz!

O mundo é ou não é uma caixinha de surpresas?





quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

(Cérebro) parado!!!

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Depois de ...
algures, nesta vida de estrada,

já ter galgado rotundas,
lambido retrovisores
e afagado muros...

Depois de...
já ter enfaixado um carro no quintal de uma velhinha
que, por sorte,
regava as couves meio metro mais à frente

já ter travado em cima de uma família de javalis
e
de
ter sido atropelada por um veado
(sim, ouviram bem, mas essa história dá todo um outro post)


Comecei a adoptar uma condução
um pouco mais...
defensiva!

No outro dia, parei num sinal de velocidade.
Pelo retrovisor,
vi chegar outro veículo atrás de mim,
travando com tal brusquidão que quase se estatelava na traseira do meu boguinhas.
Penso:
mas onde é que este vem?
está maluco, ou quê?
então ele não vê o ver...
Buzina-me e esbraceja para que lhe saia da frente.
Olho para o semáforo.
Tem razão - está verde.
Desculpo-me com um gesto e avanço.
Há quanto tempo estaria verde?
Esteve sempre verde!
Por isso é que ele me ia batendo!
Parei no verde!
Vi o semáforo e parei!
Ummmmm... sem comentários, tá?
Sejam misericordiosos com o meu cérebro cansado!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Biblio vivências 2

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2017/2018 foi também o ano em que comecei a escutar audio livros.

Por um lado, 
isso exponenciou, em muito, 
o tempo em que "estou a ler" 
e, por outro, 
levou-me a perceber a quantidade de tempo absurdo que gasto em lides domésticas, altura em que coloco os ascultadores para "ler".

Foi por ter mudado para esta casa e ter perdido o meu furacão Fátima, que cuidava das minhas roupas, que me vi atirada para o ferro e para a tábua horas seguidas.

Eu achava (e acho) aquilo entediante e comecei por ouvir músicas no youtube. 
Porém, isso era demasiado distrator, acabava por dar grandes concertos para a triste plateia do cesto e das cruzetas, com direito a vénias da minha parte, mas sem aplausos da deles.

Pensei nos livros. E em como preferiria estar... A LER!
Como era uma primeira experiência, não sabendo se me adaptaria ou se me agradaria o relato, não comprei nenhum audio livro. Fui ao Youtube e pesquisei.

A primeira coisa que constatei foi que há muita tralha em português do Brasil e pouca na variante do nosso vernáculo.

Adiante. As camisas esperavam-me. 
Comecei por ouvir um best seller internacional, daqueles com Cornucópias douradas na capa e letras caligrafadas com reviretes. Acho que se chamava "A Seleção", não sei. Não o acabei, era demasiado mau. Não por ser audio, era a narrativa em si. Eu não teria lido aquele livro físico.

Voltei à carga, mas, desta vez, queria evitar locuções brasileiras (sem ofensa) e procurei em inglês. 
É um mundo! Há clássicos, policiais, biografias, livros de auto-ajuda, tudo!

Claro que certas coisas são mais fáceis de seguir do que outras. 
Como nas leituras físicas. E, visto que, estou sempre a fazer algo em simultâneo, nem sempre pode ser muito filosófico ou intrincado; embora, por vezes, tenha sido. Tentei Orlando, de Virginia Wolf, na língua de Sua Majestade, mas distraí-me logo nas primeiras páginas. Esse fica para segurar nas mãos!

Aqui está a lista do que li, 
desde então,
enquanto andava a lavar sanitas, estender cuecas, preparar repolho para sopas ou limpar cagadelas de mosca dos vidros:

A Child Called It, Dave Pelzer 5*
O Gato Preto, Edgar Allan Poe 4*
How to Analize People on Sight Through the Science of Huma Analysis, Elsie Lincoln Benedict 1*
The Plague, Albert Camus 5*
The Stranger, Albert Camus 3*
The Handmaid's Tale, Margaret Attwood  5*
The Schack, William Paul Young 2*
The Woman in the Room, Stephen King  3*
The Glass Castle, Jeannette Walls 5*
To Kill a Mockingbird, Harper Lee (a meio)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Biblio vivências 1

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O ano lectivo que passou foi muito profícuo e peculiar em experiências relacionadas com livros.
Vou relatá-las nesta saga a que chamei Biblio vivências.


A primeira situação inédita e agradável aconteceu na escola.

Foi muito surpreendente! 

Encontrei uma colega, professora de 1º ciclo, que lia proficuamente... em inglês! 

Não me censurem a admiração; bem sei que há pessoas de todas as formas e feitios em todos os estractos sociais; bem sei que não há caixinhas nem gavetinhas que nos possam acomodar a todos - tanto é que o Renato teve um mecânico a quem emprestou um Saramago meu, que lá andava perdido no banco de trás! - mas, simplesmente, a mim nunca me tinha acontecido. 

Estamos a falar de uma pessoa com quem eu trocava livros (quase) semanalmente... livros em inglês!

Foi uma benção!
Revitalizou a minha língua, porque à borla eu só arranjava livros em português na biblioteca e ela trazia malas cheias das férias nos hotéis de Vilamoura e consumíamos daquilo, à vez, pelo inverno fora. Pena que mudou de escola; tenho de lhe telefonar.

A vida é ou não é uma caixinha de surpresas?

domingo, 27 de janeiro de 2019

#we remember

Imagem relacionada

A 27 de janeiro de 1945, o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau foi libertado pelas forças aliadas.

Por isso,
hoje, comemora-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

E correm nas redes sociais imagens de pessoas a segurar cartazes que afirmam que não nos esquecemos: WE REMEMBER (nós lembrámo-nos)

Como não?

Primeiro,
porque foi no outro dia! Ainda há sobreviventes, vítimas e agressores, todos a viver no espectro dos horrores experienciados!

Depois,

porque extermínios raciais aconteceram, de uma forma ou de outra, em várias partes do planeta - isto não é um problema dos alemães!

Finalmente,

e em especial,
porque o mundo que temos hoje 
ainda
estala com os mesmos furúnculos podres 
que deram origem àquela hedionda carnificina: 
antisemitismo, xenofobia, racismo, discriminação, intolerância.


Isto diz respeito a cada um de nós.

No nosso dia-a-dia. 
Com o vizinho do 3º esquerdo,
a prima preferida da avó,
as pessoas que vilipendias nas redes
ou o gajo com quem te picas ao volante.
Com o gordo, 
o gay, 
o preto, 
o rico (não disse ladrão),
o cigano, 
o emigrante, 
o refugiado...
a lista não tem fim.

Honrar as vítimas do Holocausto, 

e colaborar para "nunca mais" 
é darmos exemplo,
no nosso quotidiano, 
de paz e tolerância.

Porque há muitas formas de "queimar" pessoas!