domingo, 17 de dezembro de 2017

Diana Bar

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       Na sexta feira foi dia de festinhas de natal: muitas crianças felizes, muitos gorrinhos vermelhos e bandeletes com corninhos de rena e sininhos e saias de pregas com meias pelos joelhos e rímel em bailarinas pequeninas e vozinhas angelicais em uníssonos de Merry Christmas!
        Até aqui, nada de novo. 
   
      A surpresa do meu dia foi este edifício e, uma vez mais, o deslumbre!
    Como é que eu pude ter trabalhado na Póvoa durante três meses sem ter tido conhecimento deste espaço? Aliás, como pude viver estes anos todos de vida sem...

       Aconteceu que tive de acompanhar uma escolinha a este espaço, porque decidiram celebrar lá a sua festinha de natal. E lá fui, inconsciente, rua fora, ao som do hino deles, todos contentes a cantarolar.

     À chegada - o pasmo! O deslumbramento!
    Foi-me difícil centrar-me na festa que iria decorrer no interior, porque simplesmente tinha chegado ao paraíso na terra: aquilo é uma biblioteca, em cima da areia, num edifício circular, todo envidraçado com vista para o mar!!!!! 
   Livros e mar! 
    Vou repetir: uma biblioteca em frente ao mar!
   
    Posso largar o ensino e ficar a trabalhar aqui até morrer?
       
  

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Dormisses!

Imagem relacionadaTrabalho numa das únicas escolas básicas (1ºciclo) do país que funciona em bi-horário,
quer dizer, há umas turmas de manhã e outras à tarde. 

Isso significa que as aulas começam às oito da manhã. 
"Às oito" não é uma forma de expressão - é mesmo a hora exacta a que o turno da manhã começa.

De maneiras que, 
após uma noitada a ultimar avaliações 
de olhos grudados e já trocados no excel das infinitas turmas gigantes,
diz-me uma garota na primeira aula da madrugada:

"Ó tíXER! Quantas horas dormiste hoje?"

(penso, deves estar com um lindo aspecto, deves! Já há muito que adoptaste o look bruxa-desmaquilhada, mas hoje que te deitaste às três e levantaste às seis e meia, sem sequer disfarçar com uma base hás-de  estar bonita...)

Balbucio: 
"Aaahhhmmmm... 
Porquê???.... 
Nota-se muito????... 
Tarde... deitei-me muito tarde ... estive a trabalhar..."

"Ah, bem me parecia!
É que o meu pai também é professor e esteve a fazer grelhas no computador até às quatro da manhã..."

E heis que finalmente aquela tagarela enfezada que me infernizou a vida desde Setembro consegue tocar o meu coração!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Motivo incontornável 2

A meio do teste.
(eu simplesmente odeio que eles interrompam o silêncio da prova!!!! Irrita-me solenemente, pelo que fico logo sem disposição nenhuma para o que me vão dizer a seguir...)

Resultado de imagem para kid with a falling tooth, clipartTíxEr, posso ir à casa de banho lavar a boca?

Eu,
a leste do paraíso,
a anos luz da faixa etária a que agora me dedico,
eu,
sem pescar mesmo nada da poda:

"e por que cargas de água hás-de tu ter de ir lavar a boca a meio de um teste?"

Caiu-me um dente e sabe a sangue!

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Motivo incontornável

Fotos: Reprodução
"TíxEEE-E-E-E-E-E-R!"

Logo à entrada, antes mesmo de eu conseguir sequer abrir a porta.

"Diz, João!"

"Eu não estudei nada para o teste..."

Eu a preparar-me para o discurso do só-te-lembras-de-santa-bárbara-quando-troveja-e-agora-que-te-estou-a-entregar-o-enunciado-é-que-te-ocorre-o-estudo...

E ele, antes mesmo de eu abrir a boca:

"é que o carro da minha mãe foi assaltado!!!! 
e eu tinha lá a mochila com as coisas ...
e também tinha os livros de inglês ...
e eles levaram tudo e...
e...
e eu não pude mesmo estudar..."

domingo, 3 de dezembro de 2017

O LIVRO MÁGICO

Foto de O Livro Mágico - Musical.

É evidente que eu aconselho este espectáculo musical!!!

Mas: atenção! 
Faço-o, agora, após ter ido assistir à antestreia e ter usufruído de momentos deliciosos com a criançada da família. 
Não se trata, portanto, de assinar um cheque em branco. 
É que não é apenas o texto da mana. 
A interpretação e a encenação primam pela qualidade. 

Vi e  gostei MUITO! Filiações à parte.

Adoro musicais e, aqui, são as canções da Disney com que todos crescemos! 
Tão bom passar o espectáculo a cantarolar e a sonhar!
Depois aquela protagonista, a Maria, homónima da minha e com ela venturosa de audácia, determinação, sonho infantil e argúcia. 
Aquela rivalidade fraterna, cómica em palco, mas que nos atormenta na vida real. Acreditem pais, vão gostar de ver!
Viaja-se pelo mundo da fantasia e perde-se a noção do tempo. 
Apetece ir para lá para o palco dançar e cantar com eles!!!
O espectáculo está extraordinariamente bem conseguido e, certamente, fará as delícias de miúdos e graúdos!
Parabéns a toda a equipa e votos de muito sucesso!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Miúdos com sorte

Resultado de imagem para mickey  dentist"Tíxeeer!"
Como de costume, a meio de um exercício, quando lhes dá na cabeça.
"Yes?"
"Olha, eu hoje vou sair mais cedo porque a minha mãe vem-me buscar para irmos ao dentista."
"Está bem. Órait! Se tem mesmo de ser, depois acabas for homework! You finish em casa at home, ok?"

(sim, eu sei, pareço uma turista britânica de férias no Algarve há três meses; construo frases misturadas em três línguas para eles me entenderem e, às vezes, nem assim! Três línguas, sim. Não me enganei: inglês, português e childês ou infantilês, se preferirem, que é a linguagem da basicidade porque o meu vocabulário de adulta na língua materna também é estrangeiro para eles!)

"Está bem tíxEr! Eu faço!"
"Vai lá, então, to the doctor! Porta-te bem no dentista, mostra-lhe os teeth todos, mesmo os que te faltam!"

Intervalo. Cházinho, na sala dos professores. A meio do meu iogurte com cereais e nozes lembro-me de avisar a professora titular de turma que o menino saiu mais cedo.

"Bem sei; já tinha tudo combinado com a mãe dele. O que ele nem adivinha é que não vai ao dentista... Vai daqui directo passar o fim de semana prolongado na Disneyland Paris!"

Grande surpresa!
Nem imagino como disparará o coração de um piolho de oito anos ao descobrir que ao invés de ir limpar as cáries na nunca-muito-ansiada-cadeira-do-dentista vai fazer a viagem de sonho de qualquer catraio! Grande surpresa!

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Na caixa do supermercado


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       Dois carrinhos cheios à minha frente. O habitual pensamento de que a caixa ao lado teria sido melhor escolha, porque a nossa percepção nos diz que anda mais rápido. As filas onde alinhamos andam sempre, invariavelmente, mais lentamente. Aquelas que eu escolho empancam sempre. Um cartão que não aprova. Um cupão fora de prazo. Um produto sem código de barras. O escarcéu.  
      A senhora à minha frente pousa uma caixa de cartão com um carregamento para pistolas Nerf no tapete deslizante. Penso, já estás grandinha para brincar com isso. Sorrio para a ideia dela, de mola na cabeça, casa fora, a brincar com a pistola atrás do marido em cuecas. Agora dispõe alimentos. Escolhas que não seriam as minhas. Cereais muito açucarados. Ice-teas gigantes. Batatas fritas, packs familiares delas. Agora, comida. Mais uma vez, produtos pelos quais não opto: nuggets, douradinhos, lasanhas pré-confeccionadas, o tipo de coisas que, penso, os meus filhos devem comer às carradas nas cantinas, pela comodidade - de preparar e de consumir (agrada ao paladar dos pequenates).
     Reparo que pintou o cabelo hoje de manhã. Ficou bem, embora ainda revele marcas de tinta na testa e nas patilhas, ao lado das orelhas. Cabeleireiro de bairro, provavelmente. Não, hoje de manhã não. Ainda são onze horas. Não deu tempo. Talvez ontem à tarde, antes de ir buscar os miúdos à escola. Miúdos, sim, deve ter dois. Um das fraldas que agora colocou no tapete, o outro da pistola, pois claro, era para o mais velho, não para ela. Também fez o buço. Ainda está vermelho. Se calhar, então foi mesmo hoje de manhã, cedinho, assim que os largou, na ama e na escolinha. Arranjou as unhas, essas estão decentes. De gel, vermelho. Outra opção que eu teria saltado (o rubro). De qualquer forma está melhor do que eu, que precisava desses três cuidados e não arranjo tempo nem para um. O meu cabelo está curto e desgrenhado, o buço comprido e destratado, as unhas clamam lima, nem sei sequer se tirei as remelas. 
     Olha, a caixeira da fila ao lado já aviou mais um. Eu não me mexo. Comprou pensos higiénicos, a senhora da frente. Deve estar naquela altura do mês; portanto o bebé já não é recém-nascido; mas ainda não dorme a noite toda, a avaliar pelos papos que traz debaixo dos olhos. Pensando bem, não é critério. Eu também os trago e já não tenho quem chore de noite. 
     Isto não desanda. Para a próxima vou para aquelas que somos nós a fazer o serviço; aquelas em que passamos os produtos e tudo. Fazemos nós o serviço e pagamos o mesmo, mas, pelo menos, a gente tem a sensação de que está a fazer alguma coisa para resolver o problema. Agora assim... este impasse! Ainda por cima o caixeiro é feio! Jovem, mas bexigoso. E a precisar tanto (ou mais) de um corte de cabelo como eu. Chama-se Eurico, leio na lapela. Coitado. Um mau emprego, uma cara estragada e um nome feio. Oxalá tenha sorte noutras coisas.
     O marido da senhora da frente gosta de uísque; acabou de pousar duas garrafas de uma marca com duas letras no tapete. Ou, se calhar, já é para oferecer no natal. Ao sogro. Ou ao chefe. Ou ao vizinho que fez o favor de lhe trazer um saco de cebolas e uma tronchuda. Ou então é mesmo para ela, ao serão, depois de deitar os putos, enquanto vê a novela. Assim como assim, talvez isso explicasse as bolsas debaixo dos olhos.
     Vai pagar! 
     Temos esperança! 
     Talvez eu ainda consiga enfiar 
a correcção de testes/ 
roupa estendida/
preparação do almoço/
escrita de crónica/
leitura-de-só-mais-um-capítulo-deste-romance-que-me-traz-agarrada-e-me-faz-a-mim-papos-e-olheiras 
antes da uma hora da tarde!
     O caixeiro feio tem um apelido pior do que o nome próprio, reparo agora que avanço três passos: Carqueijo. (como o chá?) Franzo os olhos míopes para focar. Sai-me, em voz alta, Carqueijo? Ele explica, amavelmente, solícito, feliz por sair do discurso formatado (cartão XXXX? cupões? vai desejar factura com número de contribuinte? tem quatro euros e vinte e oito cêntimos de saldo, deseja descontar?)  Carqueijó, é Carqueijó, na impressão é que não saiu o acento; é um apelido ainda muito comum nesta zona. Ah, pois muito bem, era mais um saco, por favor. 
     Ala que se faz tarde! E esta espera trouxe-me a urgência de mais uma tarefa a entalar nos meus múltiplos afazeres: procurar a cabeleireira lá do bairro!