quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Saga Vida Nova - Gaivotas

Resultado de imagem para gaivotasUm dos aspectos que agora faz parte do meu quotidiano são as gaivotas.

Vão dizer-me que elas são reservatório de bactérias multiresistentes, que se reproduzem vorazmente e, portanto são uma praga nas cidades costeiras, que ameaçam a higiene pública e que, em época de nidificação se tornam até agressivas... 

Mas o meu espírito romântico aprecia vê-las por aqui e acolá, a rasgar os céus, livres, felizes, ariscas. Destemidas, pata ante pata, no meio das gentes. Lindas na marginal de Esposende, empoleiradas no paredão ou a deambular pela relva ou a planar ao pôr-do-sol ou a manchar o céu em bandos matinais. Ou preguiçosas nos bancos do rio, debaixo da ponte de Fão. Ou na cidade, na Póvoa, a gritar como as poveiras, em disputa com elas.  Gosto.

Hoje mesmo fui almoçar de marmita para a praia. De súbito, fiquei rodeada de aves destemidas, gordas como perus, não para me fazer companhia, mas à espera que as alimentasse do meu manjar. Ri-me da astúcia. Atirei um pedaço de chouriço da feijoada. Desgrenharam-se para o apanhar. Ri-me sozinha, debaixo do sol. Disse de mim para mim própria que também haviam de provar a cenoura e os bróculos estufados... come-os tu! Está visto que não são vegetarianas, manda mas é para cá um naco de bife. Assim fiz. Ri-me, que o deglutiram num ápice, com a cenourinha a continuar reluzente e displicente na areia. Safadas.

As gaivotas da Póvoa já não pescam no mar. 
Pescam em terra. 
(São finas. é mais rentável, menos trabalhoso e mais saboroso.)
Vejo-as nos recreios, depois dos intervalos, assim que dá o toque de entrada, a bicar os restos que os miúdos perderam, entre uma futebolada e a troca de cromos. Grasnam e patinam pelo recinto fora, majestosas, no seu reino, ali é a sua praia, a dos lanches gulosos preparados pelas mãezinhas na noite anterior. Não pescam sardinha. Pescam modernidade. Pães com Nutela e bolachas Oreo.  Gordas, ociosas, obesas, filhas do consumo... Juro que no outro dia uma levava um pacote de leite chocolatado no bico...

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Vida nova

Sei que estão cheios de curiosidade sobre a minha "vida nova".
Antes que me comecem a invejar os pores-do-sol deslumbrantes, a casa espaçosa e as vivências litorais, invejem-me também as angústias e as ansiedades, as noites sem dormir na expectativa de que os miúdos se adaptem a escolas novas e amigos novos, a dificuldade em alinhar rotinas e a flexibilidade mental que criá-las requer. 
Invejem-me antes a força mental que é necessária para implementar uma mudança desta dimensão, a coragem que é preciso para dar o salto, a pontinha de desespero que é necessária para saltar e o jogo de cintura para planar após o salto, sem olhar para trás. Ao sabor do vento. De asas bem abertas e olhar no futuro.
É verdade que a brisa marítima empurra a saudade, que as rotinas escolares e profissionais tomam conta da espuma dos dias, mas saibam que comparamos, sentimos faltas, sentimos saudades.

Vou tentar pôr a escrita em dia e revelar-vos, pouco a pouco, todo o novo que agora vivenciamos. 
Não ainda - por hoje apenas esta nota de saudade.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Putaquipariu Jonny


     

















     Há umas semanas que não escrevo e, hoje, tu atiras-me para o papel. Revoltada comigo própria porque o que te vou dizer aqui e agora já devia ter sido dito, em vida, e não agora que cá não estás para gargalhar e lacrimejar com o texto em tua honra. Mas, enfim, somos egoístas e escrever afaga-me a alma e apetece-me falar-te e já não é possível. (não acredito que já não é possível)

      Em tua memória abrimos uma garrafa de vinho tinto. Eu e o Reno. Ao almoço. Não é que a gente precisasse de desculpa, mas era o que faríamos se nos tivesses vindo visitar e hoje a presença da tua ausência brusca e dura encheu de silêncio a nossa refeição, a nossa voz, os nossos corações. 

Gostávamos de ti, Jonny. Dizíamos-to muitas vezes, com as letras todas e tu respondias de volta, "gosto muito de você, viu? te cuida, garota! E dá um abraço no maridão que eu também gosto muito dele"
 porque eras um homem de afectos 
e depois desconversavas e dizias 
"chega de lamechice, tamos ficando velhos cÁralho!"

     Eu e tu era uma borga. Piadas inapropriadas, brindadas com olhares de soslaio, reprovadores e certeiros, e nós na nossa loucura de outsiders, um pouco de forasteiros excêntricos e desabridos, a gargalhar até às lágrimas, até à urina, indiferentes à imagem social. Saudade, Jonny. 

     Tu, que amavas a minha família, 
pegavas no meu Pedro ao colo para o deixar na Cáritas, a caminho de Vinhais; 
que trocavas dicas de gastronomia com o Reno, de bom cozinheiro para bom cozinheiro; 
que lias e curtias todos os meus textos, mesmo os mais longos e secantes; 
que rezaste pelo meu marido no período crítico; (ou macumbaste ou chamaste os teus anjos, pés de santo; arixás; fontes de luz fosse o que fosse da tua pesada espiritualidade e vontade de ajudar e dar esperança ao próximo)
tu, que nunca deixaste de me telefonar ("eu te quero muito bem, você sabe, né?") mesmo quando foste procurar ser feliz para mais longe;

     Tu, que saltavas em defesa dos alunos,
pela justiça e humanismo,
que eras um professor com P muito grande,
dedicado, competente, exímio nas matérias,
extraordinário na relação com os miúdos,
quantos defendemos juntos em Conselho de Turma!

Tu, que querias endireitar o mundo,
eras perfeccionista e zeloso,
tinhas a casa num brinco,
penduravas a roupa com as molas agrupadas por cores
e alinhavas sempre o cinzeiro para o mesmo lado
na esquadria do quadro da parede.
 

Tu, que lias o Pessoa como a bíblia,
o teu Álvaro de Campos,
o meu Caeiro,
tu que partilhavas poesia comigo
e piadas porcas
e disparates só nossos
e sarcasmos políticos e anti-institucionais.

Tu, que me desabafavas desamores, 
um homem tão extremamente apaixonado e romântico
quanto desapontado e traído.

Tu, que me desabafavas uma escola que te engolia
oprimia e tentava amordaçar o teu espírito livre e criativo.

Tanta, tanta falta me farás, João.
Vou procurar-te, recordar-te, buscar-te 
na nossa Balada do Louco do Ney,
no fundo de um copo de maduro,
na mitologia grega, que desfiavas ao pormenor,
num cigarro ao luar,
e num cantinho que há-de ser sempre teu e que agora arde no meu coração, amigo.

Tu, que amavas a natureza e a vida.
Biólogo de coração.
E partes?

Putaquipariu Jonny

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Saga mudanças - saber de experiência feito

 Imagem relacionadaAgora que estou a acabar de dizimar caixotes
e para aqueles que me foram seguindo nesta saga das mudanças, 
aqui vão algumas pérolas de conhecimento adquirido a braços, suor e lágrimas, 
saber de experiência feito, como dizia O Poeta:

1) a fita cola da loja dos Chineses não serve...
Tem a mesma largura, diâmetro e cor que a desejável, mas não tem a força nem a resistência necessária para as cargas. Ou seja, um gajo sela os caixotes, aquilo tem a cor castanhinha e tudo, mas depois aquela porcaria descola toda, não chega ao destino. A  única utilidade que lhe vejo é caçar moscas desprevenidas - e, mesmo assim têm de ser mesmo daquelas muito estúpidas ou muito grogues. É pendurar umas fitinhas do tecto e esperar que elas lá fiquem presas...

2) a capacidade dos caixotes é um engodo
lá porque aquilo diz que alberga 30 kilos, isso não quer dizer que a gente os vá conseguir sequer levantar do chão...

3) etiquetar ou escrever em caixotes NÃO é perda de tempo
Evita que se tenha de jogar ao ovo kinder na nova casa e que se ande a desembrulhar cinquenta pacotes até descobrir onde raio param as cuecas!Ou aquele urso de peluche sem o qual eles não dormem...

4) sacos do lixo de grande capacidade são imprescindíveis
são óptimos para atoalhados, edredões, almofadas, tapetes, cortinas e até roupa. São óptimos para o efeito alcochoamento da carga - isolam objectos mais frágeis e são fáceis de acomodar na mala do carro.

5) Quando, à chegada, tilinta... está partido!

6) O frango no churrasco é o melhor amigo dos casais em mudanças!

7) O papel higiénico também 
e convém existir - à saída e à chegada.

8) Na casa  de onde partimos parece tudo essencial. Na casa onde chegamos prescindir-se-ia de metade para não ter que desempacotar mais. Aliás, quem já fez mudanças sabe que alguns caixotes ficam provisoriamente para sempre na garagem!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Aceito, confio, recebo e agradeço

Porque estive na "nossa" praia, porque é verão e pessoas me voltam a falar de ti, porque a saudade aperta. porque se aproxima a data do teu aniversário, não sei.

Há dois dias que tenho o mesmo sonho. Um pouco absurdo, como próprio do onírico, mas nítido e perturbador.

Vejo-te na praia, banhada de luz, sob um sol intenso, a fazer um valente serviço de volleyball em suspensão. 

E é ali. Aquele momento. Suspensa no ar, acima da areia, com um movimento pujante do pulso direito que te me traz à consciência e simultaneamente me acorda.

Desperto banhada em suor, com um aperto no peito e confusa, embora, durante o sono, não se trate de um pesadelo; pelo contrário, é uma alegria ver-te ali suspensa a jogar.

No entanto, acordo confusa...desapontada por não ser real, por ser tão curto, por terminar. Na vida real não jogavas volley, mas não é que não aceitasses o desafio, se to colocassem. 

Por outro lado, tu representas para mim aquela energia, aquela vivacidade, aquela força. Por isso, no final do sonho há aquele amargo de boca que a vida nos deixa quando morre alguém muito jovem ou um atleta ou um herói. A gente resigna-se, mas não deixa de pensar que havia ali tanto potencial perdido.Acho que é por isso que me sinto tão incomodada ao despertar.

Todavia, não me queixo. Durante anos estive presa à tua cama de hospital. Percebia o quão traumático isso havia sido para mim, mas irritava-me não conseguir recuar para milhares de experiências igualmente intensas, mas mais agradáveis que partilhámos enquanto mãe e filha.

Agora, ao menos, vejo-te banhada de luz boa, suspensa e em acção. 
Recebo e agradeço. É tudo o que preciso nesta fase.

Poema em linha recta

Álvaro de Campos - Poema em linha recta
Imagem relacionada
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

domingo, 20 de agosto de 2017

Primeiras impressões sobre o futuro

No outro dia fomos a Esposende.
Fazer um reconhecimento de campo mais incisivo - escolas, piscinas, clubes e campos de futebol disponíveis, enfim,  antecipar rotinas para o ano lectivo que vem.
Ainda não era Agosto, a época balnear não estava no seu pico, portanto pareceu-nos tranquilo e saudável.
O que nos saltou à vista:
-  uma marginal fabulosa para caminhadas em família;
- uma cidade planinha para andar de bike;
- actividades na marginal ou no rio: pesca, papagaios de papel; canoagem, kitesurfing...
- um centro histórico limpo, organizado e aprazível;
- uma envolvência muito rural, muitas estufas, muitos milheirais, muitas vacarias, muitos tractores a passar, conduzidos por mulheres valentes e carregados de cebolas.

"Mãe, aqui é tudo ZENDE ou Cávado"