quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Princesa enquanto dura

Alguém leva as meninas-de-etnia-da-escolinha-difícil-onde-nenhum-professor-aguenta-muito-tempo a um encontro interescolas numa cidade do distrito.
Resultado de imagem para princesa disney ciganaAs meninas estão tão eufóricas que me contam, estridentes, que vão dançar a outro país.
Alguém pega nelas, leva-as para sua casa, lava-as, veste-as, penteia-as, maquilha-as, arranja-lhes as unhas e perfuma-as. Adorna-lhes os cabelos com flores de papel feitas à mão. Transforma-as em verdadeiras princesas.
As meninas princesas portam-se lindamente em palco (e fora dele).
Nesse dia não há zaragatas, não se insultam, não se agridem. São princesas a viver um sonho partilhado. Porque alguém acreditou nelas e lhes deu uma oportunidade.
Fazem uma exibição magnífica; dançam como princesas das arábias.
Voltam deslumbradas e felizes.
À chegada, uma surpresa comovente. Uma delas tem à sua espera o príncipe encantado que o seu coraçãozinho de nove anos mais deseja e que não vê há três anos. O pai, a usufruir de uma precária.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Anjinhos jolies

Resultado de imagem para anjinho, clipartHoje participei numa procissão à Sra da Assunção, em Santo Tirso. Assisti a uma Missa Campal presidida pelo Bispo do Porto. E devo dizer que ambas as experiências me proporcionaram momentos de bem estar e conforto espiritual.
No entanto, não é a dimensão pessoal da experiência que aqui interessa.

A nível sociológico constatei o seguinte:
- há uma crise de afluência de anjinhos; o negócio está fraco, dizem as alugadeiras de fatos, e já rendeu mais...
- os poucos anjinhos que comparecem falam francês, são maioritariamente filhinhas de emigrantes, que acham jolie, mas não sabem rezar na língua de Camões; isso também prejudica o negócio, segundo as velhinhas piedosas comentadeiras dos arredores;
- há poucos jovens, a meio de Agosto, a subir a serra para orar. Parece que a praia ganha aos pontos e, por isso, a procissão está pejada de cãs e o passo é mais arrastado do que as avé-marias cantadas em vozes cansadas;
- na missa campal há surpreendentemente dois jovens, moços, à minha frente. Cantam como rouxinóis em segundas e terceiras vozes; pelo que desconfio serem seminaristas. Espreito os sapatos e tenho a certeza - sapato preto, clássico, em desuso, são seminaristas certamente. Recrimino-me pela fuga de pensamento do divino e concentro-me nas minhas intenções.
- Desconcentra-me outra vez um casal de meia idade, que saca de uns banquinhos montáveis in loco. Nunca tinha visto tal artimanha e distraio-me, confesso, espanto-me com a engenhoca.
- Terminada a cerimónia, verifico que os docinhos de feira, os salpicões de Lamego e as bancas de trapitos dos feirantes são quase tão aliciantes aos devotos como a restante parte religiosa da festa;
- Constato ainda que os garrafões e o enfardamento no pinhal consolam bem os corpos de espírito saciado.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Ninguém faz uma peça sobre o trabalho dos jornalistas?"


Resultado de imagem para jornalista, clipartEu faço. É capaz é de não sair assim muito jornalístico; mas é o meu contributo.

Não és bombeiro, mas quando o alarme soa no quartel, também és alertado, também tens de enfiar umas calças à pressa e zarpar para o meio de florestas densas, lugarejos perdidos, aldeias em chamas, o que tiver de ser.
Não és médico de plantão, mas também acodes urgências, de madrugada, a desoras, quando calha e o dever te chama.
Não fazes a ronda da noite, como a polícia, mas se a coisa dá para o torto, particularmente se a coisa dá para o torto, lá vais tu, atrás das luzes de emergência, cobrir o incidente.

Corres atrás dos factos, 
deixando para trás a tua verdade morna,
os teus em caminhas fofas
e soninhos descansados.
Vais no sentido de um dever, com mil outros a pesarem-te na consciência
como os lanchinhos que ficaram por fazer para o dia seguinte, se houver escola.
Ou ainda quem os irá levar à escola.
Se consegues chegar a tempo para fazer a magia maternal do malabrismo omnipresente: escuteiros, volley, ballet, tpcs e janta.

No entanto, agora vais no sentido de um dever e é esse que te ocupa o cérebro e consome a adrenalina:

Oxalá os factos  que persegues apareçam céleres, claros, sucintos e, de preferência, de fonte fidedigna e confirmada.

Oxalá a neve seja copiosa q.b, para ter impacto visual na reportagem, mas sem impedir os acessos de regresso a casa.

Oxalá as chamas e as labaredas não interfiram com os meios técnicos para emitir um bom directo. Oxalá os olhos não lacrimejem e a voz não se embargue. Nem pelo fumo, nem pela emoção.

Oxalá os políticos não se lembrem de vir todos no mesmo fim de semana, a concelhos limítrofes deste distrito acidentado de alta montanha e distâncias.

Oxalá em Lisboa eles entendam que "dar um saltinho" a Freixo-de-Espada-À-Cinta é capaz de demorar mais do que atravessar a 25de Abril em hora de ponta.

Oxalá o ajuntamento popular em frente ao tribunal não dê sarilhos.

Oxalá a polícia colabore e não exorcize a comunicação social pelos males sociais, quer dizer, oxalá te deixe fazer o teu trabalho, a ti e à equipa, com profissionalismo e ética. (Aqui, pensas, oxalá os colegas tenham a deontologia necessária para respeitar também as forças da autoridade e o seu serviço.)

Oxalá haja tempo para provar os produtos das Feiras que cobres. Venha de lá a boa vontade das gentes, a alheira, o fumeiro, o pão, o azeite e os folares. O nosso povo é hospitaleiro, saca do palaçoulo e racha sempre umas rodelas de chouriço em cima da carocha do pão.

Oxalá não seja a última vez que o tiZé da recôndita aldeia estende a mão enrugada e trémula neste gesto largo. Para ti, jornalista no interior envelhecido, muitas vezes, é.




quinta-feira, 27 de julho de 2017

Mobilidade por "Doença"

      Num país em que um professor com sete cancros é chamado a junta médica e considerado apto a trabalhar, dando origem a uma paródia hilariante da equipa de Ricardo Araújo Pereira nos Gato Fedorento (aqui - JUNTA MÉDICA)

há uma região que tem imunidade a juntas médicas, funciona a coberto ou apesar delas,

talvez por ter desenvolvido uma doença autóctone, uma epidemia cavalgante a um ritmo de contágio preocupante que as autoridades não têm conseguido conter. 

Eu suponho que, por este andar, isto venha a tornar-se um caso de saúde pública, mas - como noutras situações catastróficas e de crise - no nosso país acorda-se tarde e mal para os problemas, por mais denúncias públicas e alertas que se façam.

(O assunto não é novo.  Veja-se, por exemplo no Expresso (2015) ou na imprensa local ,d' O Mensageiro de Bragança(2016) ao Jornal do Algarve )

Ironias à parte, o que alguém já apelidou de epidemia transmontana, está muito bem explicado aqui

Eu, fico-me pela ironia.
A meu ver, algo de muito patológico se passa por detrás dos montes. Apesar de, como é sabido, "para lá do Marão"  mandarem "os que lá estão", há-de chegar a altura em que alguém acorde para este fenómeno que a evidência dos números não nega.

Uma centena de professores, deslocados para um determinado agrupamento por motivo de alegada doença sua ou de ascendentes, dava para criar todo um agrupamento novo. Uma centena de professores é o número de recursos de que alguns agrupamentos dispõem para levar a cabo as mesmas metas pedagógicas e taxas de sucesso que os outros.

A mim, levantam-se-me uma série de questões.
A montante:
- da ética de tantos colegas, que a cavalo na chicoespertice ultrapassam os seus pares sem o menor escrúpulo, abusando de um refúgio legal que protege - e bem - os mais fracos e os que mais precisam.
- da conivência de direcções engajadas e comprometidas, frutos e produtores de caciquismos locais milenares e inamovíveis, porque uma-mão-lava-a-outra e hoje-tu-amanhã-eu;
- da seriedade ou do preço de atestados que se passam em massa para o favorecimento pessoal dos amigos e amigos de amigos até 5ºgrau;
- da conivência da classe, que, no geral, assiste e não reclama, pois ou há moralidade ou comem todos e um dia quem sabe não me faça falta também...

A jusante:
- da inoperância de supostas inspecções;
- da conivência ou lascismo do poder central;
- da placidez dos encarregados de educação (com tantos recursos, tais agrupamentos só poderiam atingir resultados de excelência)
- da paz social imperante.

E aqui, avanço. Um dia, este "sistema" há-de estourar por dentro. Não me parece que a rebelião demore muito. Para além das centenas que se vêem ultrapassadas e não conseguem aproximação à residência, hão-de começar a doer-se os que efectivamente têm serviço lectivo atribuído e aturam encarregados de educação tão insolentes como os filhos, e corrigem trabalhos e testes e preenchem grelhas e relatórios e vão a reuniões fatigantes que se hão-de fartar de que os cento e tal MpDs, na gíria "doentes" (sãos) levem uma vidinha boa sem encargos nem responsabilidades. Sem serem chamados à pedra por notas de exames ou por médias internas ou por coisa alguma. É gráfico e flagrante e, repito, há-de estourar. Há toda uma sala de professores cheia durante um intervalo, tudo a tomar o seu cafezito. Toca. Uns, levantam-se e vão trabalhar; os outros, não.

É a vidinha.
Casualmente, ou nem por isso, no dia em que saíram as famigeradas listas roubadas cruzei-me com uma mancheia de colegas que haviam ficado colocados, digamos, não idealmente, mas que me revelaram ter ascendentes dependentes (quem não na nossa faixa etária?), qual trunfo na manga, panaceia miraculosa concursal.

Quem me conhece sabe que sou guerreira na defesa da escola pública. Nada disto a dignifica ou engrandece. Há-de estourar.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A ficção ataca a realidade (Saga Mudanças)

Resultado de imagem para embrulhar decanterAvança-se na pilha de jornais:
embrulha copo,
envolve decantador
(por que raio é que deitei a porcaria da caixa fora?
acomoda chávena
 - e eis senão quando -
surge a necrologia 
e lá fica a gente, em pausa, apiedada daqueles desconhecidos
- este era tão novo; aquele tinha filhos; esta não ficou lá muito bem na fotografia, bem podiam ter-lhe escolhido outra, ao menos nesta horinha -
a imaginar-lhes vidas, relações, profissões, percursos; enfim, eu escrevia um romance a partir de uma página destas!
(Aliás, eu escrevo, mentalmente, enquanto acomodo as coisas nas caixas de cartão.)

Resultado de imagem para conjunto de chá de brincarAs mudanças têm momentos irritantes,
de fazer cócegas nos nervinhos da gente,
como ter de acomodar loiça pequenina das bonecas, tal como se acomodou a grande, da vida real.
De repente, apercebo-me (medo!) - as Barbies, os Nenucos e as Barriguitas estiveram a conspirar contra a minha eficiência. Por conseguinte, no quarto da minha filha,
toda uma outra casa a empacotar,
com direito a roupinhas, calçado, ferramentas, acessórios de cabeleireira, utensílios de puericultura, instrumentos de medicina, electrodomésticos (juro que carreguei com uma máquina de lavar roupa em miniatura)... ou seja, não apenas uma casa, mas várias, uma cidade inteira para dentro de MAIS caixotes. Aaaaghhhh!

A ficção ataca a realidade e a vítima sou eu!!!!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Entulho erótico*

Resultado de imagem para woman moving house clipartO entulho continua... o embalamento prossegue.
Meter a vida em caixotes e, como diz na imagem, O Lar é onde está o nosso coração, mesmo se não te conseguires lembrar do caixote em que o puseste!

A mente divaga-me, como sempre que estou em tarefas manuais e particularmente nesta com materiais legíveis à minha frente - jornais (para embrulhar)... sou incapaz de não ler!
Então fico a saber, por exemplo, que
Shakira está de regresso a Portugal em 2017;
Cristiano Ronaldo foi criticado pelo novo penteado (e eu nem sabia que tinha cortado a trunfa);
Ficam presos suspeitos de matar empresário (o de Braga, penso, sequestrado em Lamaçães em frente ao filho); Mochilas passam a ser banidas dos concertos;
Autarquias devem 344 milhões de água;
IRS vai baixar para um milhão de portugueses (não deve ser comigo);
Reforços chegam esta semana (antes fosse comigo)!!!

Enfim...
fico a saber coisas que me interessam
e coisas que não me interessam:
tudo me entra pela vista dentro enquanto embrulho e empacoto a casa.


Eu juro que, de início, estava a fazer uma selecção mais restritiva dos itens a empacotar. Mirava, remirava, repensava a utilidade possível de algo que não utilizo há uma duzinha de anos e lá acabava por decidir. Agora a triagem é cada vez mais apertada, na exacta proporção da chegada do prazo da partida e da incomodidade de carregar tanta tralha. No entanto, há momentos em que hesitamos:deitar fora? doar?levar?

De repente, uma relíquia que levanta a dúvida. Lá para o fundo duma das prateleiras mais altas da cozinha descubro aquele fóssil da nossa juventude de jantaradas e borgas entre amigos:

Copinhos chineses de Saqué, daqueles que têm mulheres nuas no fundo que só aparecem depois de vertido o líquido sobre elas.

Rio-me  com a descoberta. Finalmente a bota há-de bater com a perdigota. A ver se embrulho estas relíquias com as páginas de classificados picantes! 

* sequela  deste post aqui

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Esconder as vergonhas

Resultado de imagem para lady packing with newspaper, freeEh pá!

Não sei que me parece estar a embrulhar as molduras com os rostos mimosos dos meus filhos bebés em páginas de anúncios pejadas de nádegas proeminentes ...
(a embrulhar bochechas com bochechas, ocorre-me!)
Eu juro que, de início, rasgava essas páginas com todo o pudor antes de começar a trabalhar, mas agora já estou naquela fase neura de querer acelerar o empacotamento, nem que para isso tenha de utilizar as páginas das bundas reluzentes e demais vergonhas.
(Não sem, mentalmente - confesso- desejar que venha a ser eu a desembrulhar aquele objecto em concreto. Sossego a consciência dizendo a mim própria que eles se calhar nem reparam...)

E, para além  do mais, os jornais proporcionam o almofadamento (😁trocadilho não intencional) apropriado para os meus objectos, portanto tenho de aproveitar os recursos todos!

De maneiras que, está uma pessoa a embrulhar pratos e loiça em grandes manchetes e volta e meia salta-lhe aos olhos, mesmo sem querer, "mulher completa" e a gente, já com o corpo moído das lides domésticas e encaixotantes, começa a pensar  completa sou eu que já aviei quatro gavetas e mais uma dúzia de caixotes!

Portanto, embrulha  talher, envolve copo, volta e meia, mais bundas roliças e mamas xxl com estrelas a tapar a intimidade (???!!!). Viro a página para esconder as vergonhas e continuo a trabalhar.