Bem Vindos ao "Marta à vista", o blog onde podem ler sobre o que a Marta avista e avistar a Marta. Talvez mais aquilo do que isto, se é que não são a mesma coisa!
domingo, 26 de março de 2017
sexta-feira, 17 de março de 2017
Father's Day, confirma-se
Previa que o Dia do Pai não fosse celebração para todos.
Sabia que nas tantas turmas que tenho algumas Xaninhas tinham perdido o pai em pequenas e viviam com uma mãe ou um avô. Sabia que divórcios e segundos casamentos complicam as coisas.
Expliquei que íamos fazer uma prendinha para o dia do pai, mas que tinha também materiais para aqueles que desejassem endereçá-la a outra figura afectuosa na sua vida: um avô; um tio; um padrasto; um amigo (friend).
Ainda assim fui surpreendida por:
1) Face a face (eu, aninhada sob a mesa dele, em voz baixa)
Queres uma para o teu pai?
Ele, irredutível. Sem raiva, mas com muita mágoa silenciosa. Não.
Se calhar ele ia gostar, ia ficar contente. Mesmo sem morares com ele, podes oferecer-lhe no dia de visita.
Não.
O menino mais caladinho da turma, o mais cooperante, o mais alinhado e responsável, o menos desafiante. Nunca sabemos o que trazem lá dentro, estes. Os que não dão nas vistas, não causam problemas. Mas têm-nos.
2)
Uma menina que não tem pai (falecido) vive com a mãe. É surpreendida pelo mano mais velho que já trabalha, noutra cidade, e a vem buscar para almoçar por ser o seu aniversário. Estava precisamente a acabar a prenda para o mano, quando ele entra na minha sala de aula para a surpreender.
Como sempre, estas coisas dão me que pensar. Que porcaria de sistema é este em que a miúda, orfã de pai, vê o mano chegar de surpresa, entrar-lhe na sala de aula quando o imaginava noutra ponta do país e ela, bem educadinha, cumpridora, "formatada" não salta de um pincho para os braços dele? Soubera eu da situação e tê-la-ia impulsionado a fazê-lo. Esperou que eu acabasse o que lhe estava a explicar, sem me interromper, para finalmente sair pela mão dele.
Confirma-se: Father's Day, assunto melindroso.
sexta-feira, 10 de março de 2017
Centro comercial escolar

Estou a falar de uma colecção com cento e tal exemplares, cujo protagonista é um famoso rato de origem italiana e poderosa ferramenta de distribuição editorial. E de uns brinquedos educativos para pequenos cientistas que, supostamente, transformarão as suas casas em verdadeiros laboratórios científicos.
É sabido que sou uma verdadeira entusiasta da leitura e que cá em casa até há um bioquímico. Portanto, o meu problema é outro. Nada a obstar ao estímulo, à curiosidade, à imaginação ou ao conhecimento científico dos meias-lecas.
A questão é:
Será legítimo que a Escola Pública se servilize a estes interesses lucrativos privados? Não haverá na Escola recursos para fazer o mesmo sem entrar nestes esquemas que, a mim, me parecem ter motivações que passam pouco pelo desenvolvimento integral da criança?
É só a mim que esta comercialização da escola pública incomoda?
Será mais fácil para os paizinhos descarregarem uns euros de má consciência para serenarem o consumismo emergente dos gaiatos do que chamarem os agrupamentos à pedra?
E, por outro lado, qual o interesse dos senhores directores nesta negociata de mão cheia?
Qual o papel dos professores neste processo mercantil? Vendilhões do templo, que serão expulsos se não alinharem? Legitimadores fidedignos do processo?
Será que os critérios de selecção para o Plano Nacional de Leitura estão comprometidos com mais alguma coisa para além do simples prazer pela leitura, da cultura literária e do desenvolvimento linguístico? Porque não anda, então, a Menina do Mar da nossa Sofia, ou os Bichos do nosso Torga a circular pelas nossas escolas, a fazer furor com golpes de marketing para ofuscar miúdos e graúdos? Onde param os nossos clássicos infantis, uma Luísa Ducla Soares, um José Jorge Letria? Por que razão não tem o nosso António Mota, que até vem às escolas e encanta os miúdos, uma projecção editorial tão grande? Por que razão - decente- vem este, como outros, autores à escola sem vender livros ANTES da visita, sob o pretexto de autografar os exemplares à sua chegada?
A mesma impressãozinha comichosa já me havia feito o famigerado Key For Schools, o ditoso exame de inglês de uma empresa britânica, que ia tornar os nossos alunos fluentes e competentes na língua estrangeira, atribulando as rotinas escolares e a logística das nossas escolas........
Houve ainda, aqui há tempos, uma empresa psico-pedagógico-orientada que aplicava - nas escolas - uns super testes psicotécnicos (?) com valências vocacionais (?) e que permitiam ainda avaliar a competência linguística na língua inglesa e o domínio de estratégias de estudo (???). (Não me perguntem; não cheguei a ver as ditas cujas provas).
Depois eram convocadas umas reuniões de pais - na escola - onde eram apresentados os resultados trágicos (pfff) dos meninos nas provas que eles tinham aplicado e que eles tinham avaliado, God Knows How!
Diagnosticadas as enormíssimas dificuldades e carências, era oferecida a fórmula para o sucesso, que consistia numas aulas de estudo acompanhado e de inglês aos sábados, sob módicas quantias que os pais, confrontados com tais resultados, estavam, em grande escala, dispostos a pagar. Aulas e sessões de estudo a virem a ser concretizadas ao sábado - REFRÃO: na escola!
Ora a empresa usaria as instalações da escola pública, usaria os recursos que o erário público financia (luz, computadores, quadros interactivos, fotocópias, marcadores, sei lá eu!) e havia captado clientes, sublinho: clientes, exactamente no habitat natural do público alvo...
Ora a empresa usaria as instalações da escola pública, usaria os recursos que o erário público financia (luz, computadores, quadros interactivos, fotocópias, marcadores, sei lá eu!) e havia captado clientes, sublinho: clientes, exactamente no habitat natural do público alvo...
Moral da história:
A coberto de valores tão dignos como
o gosto pela leitura
o espírito científico
ou
o sucesso académico
vale tudo e a escola vira casa da sogra.
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