terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Resoluções de Ano Novo


Estamos a chegar àquela altura do ano em que as boas intenções começam a soçobrar e as Resoluções de Ano Novo a cair por terra, não é amigas?

Ou é a dieta que já vai para a terceira semana, ou a inscrição no ginásio, que, assim como assim, fica para Fevereiro, ou todas aquelas mudanças radicais-desta-vez-é-que-é, planos mirabulásticos que começam a gorar...

Sabem que mais? Faz parte.
Antes de se começarem a auto-flagelar desumanamente recordem que errare humanum est e que o problema, se falharam, não foi falhar. O problema é a perspectiva, quer dizer, estar a ver mal o filme.
Tudo na vida é uma questão de:
1) expectativas;
2) persistência.

1) Será que falhou logo na fonte? Quer dizer, se as expectativas forem demasiado altas, dificilmente as conseguiremos atingir. Um gajo que toda a vida foi agarrado, não se vai propor fazer doações milionárias, todos os dias, para todas as Misericórdias do Distrito... nem a tipa que acumulou tralha durante quatro décadas, vai ter a casa apresentável, tipo deco de revista, de um dia para o outro...

2) Não basta ter determinação, é preciso ser consistente, coerente e persistente. A mudança, seja a que nível for, é um processo. Vai-se fazendo. Um passo atrás não é uma derrota - é ganhar balanço para andar para a frente. Recaídas em velhos hábitos fazem parte, importa é retomar e sublinho a palavra, o processo.


A gente quer ser melhor.
Quer tornar-se melhor.
De maneiras que a gente investe no contra o Ano Novo com as boas intenções todas, que, é sabido, entopem o inferno.
Como se, com as doze badaladas da noite de 31, na passagem do ponteiro naquele ínfimo pedacinho de segundo, a realidade toda se alterasse e um admirável mundo novo estivesse ali à nossa espera...  A absurda discrepância de tão exacerbadas expectativas só se perdoa, de facto, porque, por norma, quando formulamos as ditas Resoluções já não estamos muito sóbrios...

Resultado:
O doce desfiar dos dias de Janeiro pode percepcionar-se como verdadeiramente decepcionante.
Encontrámos uma amiga que nos diz "Bem que me investi de Ano Novo, Vida Nova...mas o ano começa e está tudo na mesma..."

Foco, para usar uma palavra que está muito na moda e como isto hoje está a sair assim estilo livro de auto-ajuda. (LOL)
Manter o foco, gente. Ah, e já agora, se nós não mudarmos nada, o Ano Novo, apesar de ter doze meses por sua conta, não tem tempo para tudo... não dá conta do recado!

Para além do mais, se a gente cumprisse aquela lista toda, atingíamos a perfeição e para o ano não havia nada a aperfeiçoar...

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Emanuel

 Em estado de choque. 
Soube de um acidente grave de viação e de uma vítima a lamentar, na estrada que percorri diariamente durante anos. Isso incomodou-me.
Depois, porém, li de relance que a vítima era um jovem de dezassete anos, ao lado do condutor, o pai, sobrevivente. Arrepiei-me pelo pesadelo que será para aquele pai sobreviver a tal perda.
Ao final do dia, reconheci-o. Numa imagem partilhada numa notícia no face. 
O Emanuel. Foi meu aluno, em Vimioso. 
Recordo-o tão bem. 
Sempre solícito, muito doce, muito educado, um gentleman.
Grande pesar.

Emanuel, Deus connosco, Deus te receba.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Carta ao professor novato - Parte 1

Resultado de imagem para young male teacher, clipartJá fui como tu.
Motivada, cheia de teorias, boas intenções e sem experiência.
De certa forma, na maioria das vezes ainda sou tudo isso, mas com horas de docência e centenas de alunos a marcar o meu percurso, diria mesmo a marcar quem sou.

Não deixes que te apaguem o brilho, essa paixão de ensinar, de entrar numa sala de aula e fazer magia. Não é tão frequente quanto isso, mas a magia acontece. 

Não vais ter muito a teu favor -  um sistema absurdo, instável e injusto; um salário indevido; um polvo burocrático que quererá submergir a tua criatividade; pares que nem sempre te apoiam e, por vezes, até te quererão derrubar; uma sociedade civil que não só não te dará o devido valor, como ainda te apontará o dedo amiúde e muitos eteceteras de pedras disparadas de várias direcções. 

Não ligues. Terás sempre os alunos e se amares o que fazes serás muito feliz.

Não ouças os velhos do Restelo. Não te tornes num.
Aqui vai um pouco da minha experiência. Vale o  que vale. São paradigmas do ensino que optei por questionar. Faz como entenderes, mas reflecte. Toma as tuas opções em consciência e liberdade.

1) Vão dizer-te para não mostrares os dentes até ao Natal
Eh, pá! Nada disso. Se mais não fosse, lá diz o ditado: "Não é com vinagre que se caçam moscas".
Eu acredito que toda a gente, de todas as idades (alunos ou não, crianças, adolescentes, adultos, colegas, funcionários) aprecia uma palavra amável, um sorriso de boas vindas, uma atitude de  colaboração, bom senso e respeito. 
Pelo contrário, arreganha-lhes os dentes (para rosnar) só lá para o Natal, quando já houve tempo para os conquistares e quando já tiveram tempo para integrar as regras (não basta conhecê-las para as conseguir cumprir).

2) Ah, isso passa-lhe colega!
Não deixes que o sistema te apague, te devore, te anule. You know better. A sala de aula é tua, lá dentro és tu o ilusionista que faz a magia acontecer.

3) Vão dizer-te que os alunos estão cada vez piores
Mesmo concordando vais dar-lhes o benefício da dúvida, 
vais lutar por eles, mesmo pelos que menos merecem, especialmente por esses;
vais ser sempre o último a abandonar o barco, mesmo que eles naufraguem ou se atirem borda fora.
 E vais ter sempre presente que eles estão... piores... porque todo este mundo está... pior?... as famílias... o ritmo de vida... as radiações e wirelesses naqueles cérebros... o ar que respiram neste planeta... as expectativas perante o futuro, a empregabilidade, a paz... as notícias que os bombardeiam... o mundo...

4) Vão dizer-te "não vale a pena", "não se chateie", "olhe que ganhamos o mesmo"
Tudo ecos de profissionais desgastados, desmotivados, com mágoas se calhar pertinentes em relação à carreira, aos sucessivos governos e políticas educativas, à falta de reconhecimento social, and so on and so on.
Não te deixes intoxicar. Mantém o foco.
Sabes o que faz com que tudo valha a pena.
És professor. Tocas seres humanos. Fazes a diferença no presente e no futuro de alguém.