Bem Vindos ao "Marta à vista", o blog onde podem ler sobre o que a Marta avista e avistar a Marta. Talvez mais aquilo do que isto, se é que não são a mesma coisa!
sábado, 12 de novembro de 2016
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
Ssssshhhh!
É tarde, deito os miúdos, enfio-me num roupão quentinho.São longos e ruidosos, os dias. Anseio por um pouco de paz.
Finalmente silêncio.
Vou buscar chocolate negro e um copo de vinho tinto. Que bom que é ouvir o silêncio com o chocolate a derreter-me na boca. O álcool cumpre a sua parte: descomprimir-me os músculos, sentir-me mais leve, apreciar o silêncio também.
Sou o estereótipo completo das mães quarentonas nas redes sociais norte-americanas, com motes do género: Deus dá-me café para mudar as coisas que posso mudar, e vinho para aceitar as que não posso.
Há certamente uma "duzinha" de coisas que não me importava de engolir com o tinto, tais como as birras dos miúdos; a conta do mecânico; o romance que tenho guardado na gaveta; os gritos e palmadas que dou às crias, quando perco as estribeiras; a brutal realidade da minha mãe me ter sido roubada tão cedo e de forma tão violenta; a absoluta insanidade de nos termos de resignar com o facto de que toca a todos e que a maior parte de nós morrerá assim execravelmente; o facto da minha vida se ter virado ao contrário após a sua partida: natais amargos, verões frios e netos orfanados. Enfim, um último golinho para empurrar este aperto no peito, esta acidez no estômago, esta ansiedade sempre a arder cá dentro, como um terrível fantasma que me estremece ainda quando passa uma ambulância, a sirene que cá dentro é medo de perder.
14,5 graus alcoólicos e um silêncio delicioso, banhado de chocolate preto.
Não peço a Deus o café para agir. Tenho felizmente o vigor para levar tudo à minha frente, com coragem, resiliência e força. Peço-lhe clarividência e a manutenção desta força de lutar. Agradeço mais do que peço.
Agradeço este deleite feito de cacau, silêncio e brandura vínica.
Há certamente uma "duzinha" de coisas que não me importava de engolir com o tinto, tais como as birras dos miúdos; a conta do mecânico; o romance que tenho guardado na gaveta; os gritos e palmadas que dou às crias, quando perco as estribeiras; a brutal realidade da minha mãe me ter sido roubada tão cedo e de forma tão violenta; a absoluta insanidade de nos termos de resignar com o facto de que toca a todos e que a maior parte de nós morrerá assim execravelmente; o facto da minha vida se ter virado ao contrário após a sua partida: natais amargos, verões frios e netos orfanados. Enfim, um último golinho para empurrar este aperto no peito, esta acidez no estômago, esta ansiedade sempre a arder cá dentro, como um terrível fantasma que me estremece ainda quando passa uma ambulância, a sirene que cá dentro é medo de perder.
14,5 graus alcoólicos e um silêncio delicioso, banhado de chocolate preto.
Não peço a Deus o café para agir. Tenho felizmente o vigor para levar tudo à minha frente, com coragem, resiliência e força. Peço-lhe clarividência e a manutenção desta força de lutar. Agradeço mais do que peço.
Agradeço este deleite feito de cacau, silêncio e brandura vínica.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Uma precária para o Joãozinho
Primeira coisa que o Joãozinho me diz na aula das nove da manhã de segunda-feira: - Professora, sabe que se calhar o meu pai sai hoje da prisão?
Ao que a Sandrina acrescenta:
- Pois é vão-lhe dar uma precária.
(Penso: a Sandrina é a menina de uma outra etnia, diagnosticada com necessidades
educativas especiais, que luta com o vocabulário básico da língua
portuguesa, mas conhece bem a palavra "precária", preconceito ou não, digo para mim própria que faz sentido...)
Tento esboçar um sorriso amarelo e balbuciar algo como:
"vês que bom, vais poder estar com o pai",
ao mesmo tempo que me invadem o cérebro mil ideias, simultâneas, consecutivas, em turbilhão, sei lá...
"vês que bom, vais poder estar com o pai",
ao mesmo tempo que me invadem o cérebro mil ideias, simultâneas, consecutivas, em turbilhão, sei lá...
este é aquele menino
que aprende muito devagar;
que só escreve quando lhe apetece;
que nunca faz os trabalhos de casa porque está institucionalizado e a instituição não lhes permite levar o material para casa quando vão de fim-de-semana (pois eventualmente não volta);
que, apesar de não medir mais que um meio-metro-enfezado-que-não-assusta-ninguém, raramente termina (ou começa!!!) uma aula sem se envolver numa rixa, particularmente com agressões físicas;
este é o menino que amua e segrega com mutismo quando não conseguimos chegar ao cerne do problema;
este é o menino com olhos fundos que, embora altamente dopado para uma suposta hiperactividade, continua a lutar para estar em sala de aula, para estar sentado, para se concentrar, para prestar e manter a atenção, para compreender ou seguir instruções simples... para ter paz.
Este menino,
tão perturbado,
com picos de agressividade
ou que nos recebe num abraço
- olho para ele,
naquele momento,
de olhos brilhantes a dar-me a alegria da sua esperança
e penso fazer sentido para ele eu estar ali para ouvir aquilo.
Passo-lhe a mão na cabeça e deixo-o pintar (as cores em inglês).
O Joãozinho trabalhou serenamente o resto da aula.
O pai vinha para casa.
tão perturbado,
com picos de agressividade
ou que nos recebe num abraço
- olho para ele,
naquele momento,
de olhos brilhantes a dar-me a alegria da sua esperança
e penso fazer sentido para ele eu estar ali para ouvir aquilo.
Passo-lhe a mão na cabeça e deixo-o pintar (as cores em inglês).
O Joãozinho trabalhou serenamente o resto da aula.
O pai vinha para casa.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Perfil do actual aluno de 1ºciclo
As crianças são, por natureza, mais afectuosas
que os adolescentes com quem trabalhei anos a fio. (passem-se sempre as generalizações para que o texto flua sem muitos parêntesis). No entanto, não há cenários idílicos na minha cabeça.
As minhas segundas impressões (e ainda frescas e vagas) apontam para o seguinte perfil nos miúdos que encontro na sala de aula e a verdade é que nem tudo me parece bem na fotografia.
1) Imaturidade
É evidente que uma criança de seis, oito ou dez anos é um ser em crescimento e em aprendizagem. É suposto ser imatura. Agora, choramingar (o que em inglês chamamos whinning), falar de forma abebezada, fazer beicinho e amuar, não ter nenhum tipo de mecanismo de auto-regulação, revelar uma autonomia motora, emocional ou intelectual diminuta parece-me um reflexo dos nossos contextos familiares onde se habituaram a ser dependentes dos progenitores para todo o tipo de tarefas. Sabem jogar PSP, mas não conseguem apertar os cordões das sapatilhas?
A nossa sociedade tem infantilizado as crianças.
A nossa sociedade tem infantilizado as crianças.
2) Sensualização Prematura
Paradoxalmente, as nossas crianças têm posturas, atitudes e uma linguagem erotizada que, a meu ver, é completamente desajustada. Talvez elas estejam a ser bombardeadas com imagens do corpo, talvez estejamos a ter pouco cuidado com os conteúdos a que acedem em navegação não controlada, quer dizer, basta irem ao Youtube com o intuito de ver desenhos animados, para estarem exxpostos a conteúdos menos próprios.
Seja como for, continuo a achar chocante um menino de nove anos dizer "tu queres é pau" ou "chupa-me isto" ou "Faz-me aquilo"; continuo a achar chocante que saibam fazer o gesto do dedo e que o façam com significação e que as meninas digam "tetas" e afins. Não me estou a restringir a franjas sociais desfavorecidas. Estou a falar dos "nossos filhos".
3) Egocentrismo
Sinais dos tempos, dir-me-ão. Talvez, mas em ponto pequenino custa-me presenciar. Eles têm dificuldade em partilhar materiais, eles querem ser primeiros e únicos, eles são super competitivos. Competir poderia ser saudável, concedo. Não, no entanto, quando sem escrúpulos, ou quando vejo que há ressabiamento e inveja por um elogio a outro colega, ou quando para brilharmos precisamos de pisar os outros. "Vai ver o TPC? Note-se que fui a única que fez!" (blhaaaac!)
4) Fraca tolerância à frustração
em confronto com a autoridade
em confronto com a autoridade
Vê-se particularmente na aceitação de limites e cumprimento de regras. Custa muito incutir rotinas de respeito - a maior parte dos miúdos lida mal com a chamada de atenção ou castigo ( um vermelho no quadro do comportamento, a exclusão do jogo quando não está a cumprir as regras, etc ). Fica-se com uma forte percepção de que não estão habituados ao NÃO.
Muitos meninos desta faixa etária são príncipes e princesas
dotados de comportamentos impiedosos, são verdadeiros ditadores, que
mandam em tudo e em todos, que não compreendem a influência negativa que
exercem sobre os outros e desconhecem os seus limites ou limitações. É muito mais difícil que a escola tenha de fazer esse papel todo sozinha. Também (e primordialmente) cabe aos pais essa função. Ao tê-lo negligenciado não facilitam a vida dos filhos, dificultam em muito a sua integração escolar e social.
Fraca tolerância à frustração
na tolerância ao erro
na tolerância ao erro
Também na tolerância ao erro me parece haver fragilidades educativas. Ao tirar as pedras todas do caminho às crianças, ao viverem em ambientes tão sempre monitorizados e controlados por adultos, ao educá-los para o sucesso, com o nosso moderno foco no sucesso, está a emergir um grupo de crianças extremamente frágil, pouco confiante, que detesta falhar, tem medo de fazê-lo e, portanto não arrisca. Numa língua estrangeira isso é mau. Duas das competências essenciais à aprendizagem de uma língua nova são "risk-taking" e "error tolerance".
Para aprender é preciso falhar.
Deixamos as nossas crianças falhar?
Para aprender é preciso falhar.
Deixamos as nossas crianças falhar?
5) Impaciência
Eu pensava que era uma pessoa ansiosa. Eles vivem em alta tensão.
Está-se a acabar de pedir que abram o livro na página x e eles a perguntar se vão fazer a sopa de letras da página ao lado ou ouvir a canção y que vem na página seguinte...eh pá! Reajo mal. Eu havia de me sentir satisfeita: estão ultra-motivados, expectantes, ansiosos, querem participar em tudo na aula de inglês, mas... é esta rush, a pressa, o frenesim, o nervoso miudinho
que os impede de esperar por uma fotocópia que começa a ser distribuída numa ponta da sala- "eu ainda não tenho! eu ainda não tenho fiiiiichaaaaaa!"
(rrrrrrrrrrrrrrrrrrrr! ESPERA, criatura!!!)
A mim, deu-me que pensar...
Serão fruto de uma sociedade da voragem da imagem, do estímulo digital, rápido, ao segundo?
(já repararam na velocidade dos filmes de animação hoje em dia? Comparem-nos com o que víamos do Bambi, do Rato Mickey ou da Pantera Cor de Rosa...)
Serão reflexo do stress em que vivem, eles e os pais? Tudo rápido, tudo depressa, tudo veloz...
Professora, já acabei!Que faço agora?
6) Boredom
Eu acho que esta é a outra face da moeda.
Ultra estimulados, os nossos meninos, entediam-se com facilidade. Rapidamente desligam de um jogo, de uma tarefa, rapidamente esgotam a alegria de algo que lhes estava a dar prazer.
"Que seca!", ouve-se amiúde.
"Seca são meninos que se queixam e não dão valor a nada! Preferes fazer uma cópia de três páginas, como faziam os teus pais antigamente?"
Esta sensação de esgotamento do prazer, de vazio, de tédio não se restringe à sala de aula. Ouço-os no parque, na praia, em frente à própria televisão. Não sei bem como definir isto, mas parece-me preocupante. Como se todos os estímulos a que estão sujeitos os tivessem drenado, sugado, empedrenido.
Os nossos filhos,
filhos da abundância,
da tecnologia
(centenas de canais de televisão, tablets, consolas, computadores, telemóveis, drones and so on)
do turbilhão de livros, brinquedos e actividades de tempos livres, clubes, festas temáticas, passeios, parques temáticos, workshops e concertos...
não sabem como entreter-se e entediam-se com facilidade - "Que seca, não há nada para fazer!"
Ultra estimulados, os nossos meninos, entediam-se com facilidade. Rapidamente desligam de um jogo, de uma tarefa, rapidamente esgotam a alegria de algo que lhes estava a dar prazer.
"Que seca!", ouve-se amiúde.
"Seca são meninos que se queixam e não dão valor a nada! Preferes fazer uma cópia de três páginas, como faziam os teus pais antigamente?"
Esta sensação de esgotamento do prazer, de vazio, de tédio não se restringe à sala de aula. Ouço-os no parque, na praia, em frente à própria televisão. Não sei bem como definir isto, mas parece-me preocupante. Como se todos os estímulos a que estão sujeitos os tivessem drenado, sugado, empedrenido.
Os nossos filhos,
filhos da abundância,
da tecnologia
(centenas de canais de televisão, tablets, consolas, computadores, telemóveis, drones and so on)
do turbilhão de livros, brinquedos e actividades de tempos livres, clubes, festas temáticas, passeios, parques temáticos, workshops e concertos...
não sabem como entreter-se e entediam-se com facilidade - "Que seca, não há nada para fazer!"
7) Ingratidão
Filhas da abundância, muitas das nossas crianças hoje em dia, vestidas como bonecas, cheias de tules, lacinhos, folhos e purpurinas, as nossas meninas deitam lanches ao lixo e olham com desdém para uma oferta de aniversário ("destes rebuçados?") ou para um prémio de um concurso ("só isto?) ou para um filme de Halloween, antes mesmo de o verem ("só vai ter 4 minutos?)
Ninguém quer voltar ao tempo das fomes e carências, nem à velha imagem da professora primária de régua na mão, em que os miúdos, por medo, não diziam o que lhes ia na alma.
Contudo, parece-me que estamos a falhar em passar-lhes gratidão pelos bens e reconhecimento e respeito pelo outro.
Sei que parece haver um tom moralista em todo o texto. Advogo, em minha defesa, que são reflexões que me batem de frente. Porque sou mãe de um menino e de uma menina que, indubitavelmente, também são para alguém alunos com estes traços. Tento estar atenta, contrariar e dar o meu contributo para o que me parecem ser sinais dos tempos. Not easy, though. Remar contra a maré.
Ninguém quer voltar ao tempo das fomes e carências, nem à velha imagem da professora primária de régua na mão, em que os miúdos, por medo, não diziam o que lhes ia na alma.
Contudo, parece-me que estamos a falhar em passar-lhes gratidão pelos bens e reconhecimento e respeito pelo outro.
Sei que parece haver um tom moralista em todo o texto. Advogo, em minha defesa, que são reflexões que me batem de frente. Porque sou mãe de um menino e de uma menina que, indubitavelmente, também são para alguém alunos com estes traços. Tento estar atenta, contrariar e dar o meu contributo para o que me parecem ser sinais dos tempos. Not easy, though. Remar contra a maré.
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