sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Ssssshhhh!


Resultado de imagem para god give me coffee to change the things i canÉ tarde, deito os miúdos, enfio-me num roupão quentinho.São longos e ruidosos, os dias. Anseio por um pouco de paz. 

Finalmente silêncio. 
Vou buscar chocolate negro  e um copo de vinho tinto. Que bom que é ouvir o silêncio com o chocolate a derreter-me na boca. O álcool cumpre a sua parte: descomprimir-me os músculos, sentir-me mais leve, apreciar o silêncio também.
Sou o estereótipo completo das mães quarentonas nas redes sociais norte-americanas, com motes do género: Deus dá-me café para mudar as coisas que posso mudar, e vinho para aceitar as que não posso.
Há certamente uma "duzinha" de coisas que não me importava de engolir com o tinto, tais como as birras dos miúdos; a conta do mecânico; o romance que tenho guardado na gaveta; os gritos e palmadas que dou às crias, quando perco as estribeiras; a brutal realidade da minha mãe me ter sido roubada tão cedo e de forma tão violenta;  a absoluta insanidade de nos termos de resignar com o facto de que toca a todos e que a maior parte de nós morrerá assim execravelmente; o facto da minha vida se ter virado ao contrário após a sua partida: natais amargos, verões frios e netos orfanados. Enfim, um último golinho para empurrar este aperto no peito, esta acidez no estômago, esta ansiedade sempre a arder cá dentro, como um terrível fantasma que me estremece ainda quando passa uma ambulância, a sirene que cá dentro é medo de perder.
14,5 graus alcoólicos e um silêncio delicioso, banhado de chocolate preto.
Não peço a Deus o café para agir. Tenho felizmente o vigor para levar tudo à minha frente, com coragem, resiliência e força. Peço-lhe clarividência e a manutenção desta força de lutar. Agradeço mais do que peço.
Agradeço este deleite feito de cacau, silêncio e brandura vínica.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Uma precária para o Joãozinho

Resultado de imagem para poor happy kidPrimeira coisa que o Joãozinho me diz na aula das nove da manhã de segunda-feira: 
- Professora, sabe que se calhar o meu pai sai hoje da prisão?
Ao que a Sandrina acrescenta:
- Pois é vão-lhe dar uma precária.

(Penso: a Sandrina é a menina de uma outra etnia, diagnosticada com necessidades educativas especiais, que luta com o vocabulário básico da língua portuguesa, mas conhece bem a palavra "precária", preconceito ou não, digo para mim própria que faz sentido...)

Tento esboçar um sorriso amarelo e balbuciar algo como:
"vês que bom, vais poder estar com o pai"
ao mesmo tempo que me invadem o cérebro mil ideias, simultâneas, consecutivas, em turbilhão, sei lá...

este é aquele menino
que aprende muito devagar;
que só escreve quando lhe apetece;
que nunca faz os trabalhos de casa porque está institucionalizado e a instituição não lhes permite levar o material para casa quando vão de fim-de-semana (pois eventualmente não volta);
que, apesar de não medir mais que um meio-metro-enfezado-que-não-assusta-ninguém, raramente termina (ou começa!!!) uma aula sem se envolver numa rixa, particularmente com agressões físicas;
este é o menino que amua e segrega com mutismo quando não conseguimos chegar ao cerne do problema;
este é o menino com olhos fundos que, embora altamente dopado para uma suposta hiperactividade, continua a lutar para estar em sala de aula, para estar sentado, para se concentrar, para prestar e manter a atenção, para compreender ou seguir instruções simples... para ter paz.

Este menino,
tão perturbado,
com picos de agressividade
ou que nos recebe num abraço
- olho para ele,
 naquele momento,
de olhos brilhantes a dar-me a alegria da sua esperança
e penso fazer sentido para ele eu estar ali para ouvir aquilo.

Passo-lhe a mão na cabeça e deixo-o pintar (as cores em inglês).
O Joãozinho trabalhou serenamente o resto da aula.
O pai vinha para casa.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Perfil do actual aluno de 1ºciclo

Resultado de imagem para kid classroom, clipartEu adoro os pestinhas, juro que adoro. 
As crianças são, por natureza, mais afectuosas 
que os adolescentes com quem trabalhei anos a fio. (passem-se sempre as generalizações para que o texto flua sem muitos parêntesis). No entanto, não há cenários idílicos na minha cabeça.
As minhas segundas impressões (e ainda frescas e vagas) apontam para o seguinte perfil nos miúdos que encontro na sala de aula e a verdade é que nem tudo me parece bem na fotografia.


 1) Imaturidade
É evidente que uma criança de seis, oito ou dez anos é um ser em crescimento e em aprendizagem. É suposto ser imatura. Agora, choramingar (o que em inglês chamamos whinning), falar de forma abebezada, fazer beicinho e amuar, não ter nenhum tipo de mecanismo de auto-regulação, revelar uma autonomia motora, emocional ou intelectual diminuta parece-me um reflexo dos nossos contextos familiares onde se habituaram a ser dependentes dos progenitores para todo o tipo de tarefas. Sabem jogar PSP, mas não conseguem apertar os cordões das sapatilhas?
A nossa sociedade tem infantilizado as crianças.

 2) Sensualização Prematura
Paradoxalmente, as nossas crianças têm posturas, atitudes e uma linguagem erotizada que, a meu ver, é completamente desajustada. Talvez elas estejam a ser bombardeadas com imagens do corpo, talvez estejamos a ter pouco cuidado com os conteúdos a que acedem em navegação não controlada, quer dizer, basta irem ao Youtube com o intuito de ver desenhos animados, para estarem exxpostos a conteúdos menos próprios. 
Seja como for, continuo a achar chocante um menino de nove anos dizer "tu queres é pau" ou "chupa-me isto" ou  "Faz-me aquilo"; continuo a achar chocante que saibam fazer o gesto do dedo e que o façam com significação e que as meninas digam "tetas" e afins. Não me estou a restringir a franjas sociais desfavorecidas. Estou a falar dos "nossos filhos".

3) Egocentrismo
Sinais dos tempos, dir-me-ão. Talvez, mas em ponto pequenino custa-me presenciar. Eles têm dificuldade em partilhar materiais, eles querem ser primeiros e únicos, eles são super competitivos. Competir poderia ser saudável, concedo. Não, no entanto, quando sem escrúpulos, ou quando vejo que há ressabiamento e inveja por um elogio a outro colega, ou quando para brilharmos precisamos de pisar os outros. "Vai ver o TPC? Note-se que fui a única que fez!" (blhaaaac!)

4) Fraca tolerância à frustração
em confronto com a autoridade
Vê-se particularmente na aceitação de limites e cumprimento de regras. Custa muito incutir rotinas de respeito - a maior parte dos miúdos lida mal com a chamada de atenção ou castigo ( um vermelho no quadro do comportamento, a exclusão do jogo quando não está a cumprir as regras, etc ). Fica-se com uma forte percepção de que não estão habituados ao NÃO.
Muitos meninos desta faixa etária são príncipes e princesas dotados de comportamentos impiedosos, são verdadeiros ditadores, que mandam em tudo e em todos, que não compreendem a influência negativa que exercem sobre os outros e desconhecem os seus limites ou limitações. É muito mais difícil que a escola tenha de fazer esse papel todo sozinha. Também (e primordialmente) cabe aos pais essa função. Ao tê-lo negligenciado não facilitam a vida dos filhos, dificultam em muito a sua integração escolar e social.

Fraca tolerância à frustração
 na tolerância ao erro
Também na tolerância ao erro me parece haver fragilidades educativas. Ao tirar as pedras todas do caminho às crianças, ao viverem em ambientes tão sempre monitorizados e controlados por adultos, ao educá-los para o sucesso, com o nosso moderno foco no sucesso, está a emergir um grupo de crianças extremamente frágil, pouco confiante, que detesta falhar, tem medo de fazê-lo e, portanto não arrisca. Numa língua estrangeira isso é mau. Duas das competências essenciais à aprendizagem de uma língua nova são  "risk-taking" e "error tolerance".
Para aprender é preciso falhar.
Deixamos as nossas crianças falhar?

5) Impaciência
Eu pensava que era uma pessoa ansiosa. Eles vivem em alta tensão.
Está-se a acabar de pedir que abram o livro na página x e eles a perguntar se vão fazer a sopa de letras da página ao lado ou ouvir a canção y que vem na página seguinte...eh pá! Reajo mal. Eu havia de me sentir satisfeita: estão ultra-motivados, expectantes, ansiosos, querem participar em tudo na aula de inglês, mas... é esta rush, a pressa, o frenesim, o nervoso miudinho 
que os impede de esperar por uma fotocópia que começa a ser distribuída numa ponta da sala- "eu ainda não tenho! eu ainda não tenho fiiiiichaaaaaa!"
(rrrrrrrrrrrrrrrrrrrr! ESPERA, criatura!!!)

A mim, deu-me que pensar...

Serão fruto de uma sociedade da voragem da imagem, do estímulo digital, rápido, ao segundo? 
(já repararam na velocidade dos filmes de animação hoje em dia? Comparem-nos com o que víamos do Bambi, do Rato Mickey ou da Pantera Cor de Rosa...)

Serão reflexo do stress em que vivem, eles e os pais? Tudo rápido, tudo depressa, tudo veloz...

Professora, já acabei!Que faço agora?


6) Boredom
Eu acho que esta é a outra face da moeda.
Ultra estimulados, os nossos meninos, entediam-se com facilidade. Rapidamente desligam de um jogo, de uma tarefa, rapidamente esgotam a alegria de algo que lhes estava a dar prazer.
"Que seca!", ouve-se amiúde.
"Seca são meninos que se queixam e não dão valor a nada! Preferes fazer uma cópia de três páginas, como faziam os teus pais antigamente?"

Esta sensação de esgotamento do prazer, de vazio, de tédio não se restringe à sala de aula. Ouço-os no parque, na praia, em frente à própria televisão. Não sei bem como definir isto, mas parece-me preocupante. Como se todos os estímulos a que estão sujeitos os tivessem drenado, sugado, empedrenido.
Os nossos filhos,
filhos da abundância,
da tecnologia
(centenas de canais de televisão, tablets, consolas, computadores, telemóveis, drones and so on)
do turbilhão de livros, brinquedos e actividades de tempos livres, clubes, festas temáticas, passeios, parques temáticos, workshops e concertos...
não sabem como entreter-se e entediam-se com facilidade -  "Que seca, não há nada para fazer!"

7) Ingratidão
Filhas da abundância, muitas das nossas crianças hoje em dia,  vestidas como bonecas, cheias de tules, lacinhos, folhos e purpurinas, as nossas meninas deitam lanches ao lixo e olham com desdém para uma oferta de aniversário ("destes rebuçados?") ou para um prémio de um concurso ("isto?) ou para um filme de Halloween, antes mesmo de o verem ("vai ter 4 minutos?)
Ninguém quer voltar ao tempo das fomes e carências, nem à velha imagem da professora primária de régua na mão, em que os miúdos, por medo, não diziam o que lhes ia na alma.
Contudo, parece-me que estamos a falhar em passar-lhes gratidão pelos bens e reconhecimento e respeito pelo outro.

Sei que parece haver um tom moralista em todo o texto. Advogo, em minha defesa, que são reflexões que me batem de frente. Porque sou mãe de um menino e de uma menina que, indubitavelmente, também são para alguém alunos com estes traços. Tento estar atenta, contrariar e dar o meu contributo para o que me parecem ser sinais dos tempos. Not easy, though. Remar contra a maré.

Pinguins tardios

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Cada vez somos mães mais tarde.
Crescer, estudar, arranjar emprego, casar-se, engravidar são agora etapas adiadas, por virtude da forma como nos organizamos enquanto sociedade e da bendita possibilidade das mulheres agora emancipadas poderem tomar essas decisões com maior peso, conta e medida.

Resultado, mamãs pinguins tardios, com todas as virtualidades e eventuais contrariedades que daí possam advir.

Não é que a gravidez tardia seja uma realidade nova. A minha avó teve o meu pai com quarenta anos. Mas foi o último de doze.

A questão é ser o primeiro. Hoje em dia, muitas mães têm o primeiro filho depois dos trinta e cinco anos. Quando o fenómeno começou, a comunidade científica chamava-lhe ”elderly primigravida” - querendo significar qualquer coisa como uma mãe geriátrica (LOL), ou primigrávida tardia. Havia muitas reticências clínicas quanto a estas gestantes, por considerarem serem superiores os riscos de complicação durante a gravidez, quer para a mãe, quer para o feto.

Aparentemente hoje o termo está um pouco ultrapassado, visto que a maioria das mulheres nesta faixa etária está em boa forma física e é, no geral, mais saudável que a maioria das nossas antepassadas. Para além disso, existem novas técnicas de monitorização e novos medicamentos que permitem eliminar quase totalmente os riscos.

Et voilá! Tornou-se possível até para as mulheres em idade menopáusica darem à luz. A priori, nada a obstar. Reconheço-lhes maturidade para lidar com a árdua tarefa de educar, experiência de vida para exercer a parentalidade com maior responsabilidade e investimento. Pese embora, talvez, a baixa probabilidade de virem a ter uma prole muito alargada, estas mães devem estar carregadas de munições afectivas para acolher estas crianças. À partida, serão amadas e cuidadas, porque foram planeadas, desejadas e esperadas. (passe-se a gigante generalização, please).

Não deixam de ser engraçados estes pinguins tardios. Giraças, modernas, a bambolearem os pipos com inevitáveis dores de costas.
O futuro vai sorrir-lhes. Nunca vão ser representantes dos encarregados de educação, porque as vão assumir como avós, mesmíssima razão pela qual sempre lhes vão elogiar o aspecto, naquele agridoce tão amargo "está muito bem conservada".
Para a cria, o futuro também será promissor! O puto vai ter uma dieta fantástica, baixa em sódios e açucares, porque , entretanto é já o que o médico prescreveu para as tensões altas e colestróis dos pais e mais: pouco tempo terá de lidar com as tempestades hormonais da mãe, porque não tarda muito a que o SPM (síndrome pré-menstrual) se vá. Prevejo-lhe, por isso, uma existência tranquila . pais que não vão andar a correr atrás dele, primeiro porque já não podem, depois porque já não estão para se chatear!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Norcaça, Norpesca, Norcastanha

   
     Começo por dizer que considero o nome do certame muito mal conseguido. Ou por outra, a ideia de juntar três feiras numa só resulta mal, a meu ver. Por muito que as áreas se complementem e patatipatatá, o título é demasiado extenso e por isso pouco apelativo. Eu nunca iria a tal coisa, mas hoje teve de ser - fui em serviço. Acompanhar os meninos do primeiro ciclo.
      A saga começa aí. Eu ainda não me mentalizei das reais incumbências de tal cargo e, por isso, apanho-me despercebida na hora real e prática de lidar com as coisas. Eu explico. Tinham-me dito que iria acompanhar uma turma após o almoço. Ora, na minha cabeça, a gente entrava na sala de aula às duas, escrevia o sumário, corrigia os trabalhos de casa e depois dirigia-se ao exterior para apanhar o autocarro para a tal deslocação, certo?
      Errado. Isso aconteceria com alunos mais crescidinhos. Entra a professora titular para me ajudar a "prepará-los" para sair e pergunta o óbvio, que a mim me tinha passado a anos luz. "Os meninos e as meninas não precisam de ir à casa de banho antes de sair?" Um melódico e quase unânime siiiiiimmm e romaria até aos lavabos.
      Ponto dois: toca a distribuir as pulseirinhas de entrada no certame, inclusive ajudá-los a descolar a parte autocolante e envolver a fitinha amarela no pulso. Monitorizar os diabetes de uma, lembrar as garrafas de água aos outros e pronto, meia hora passada e hora de abalar. Daahhh para as tuas expectativas aluncinantes de produtividade, teacher! É que, se efectivamente não tivesse sido fundamental fazer tudo isto, haveria ainda que domar a excitação deles, que impediria qualquer rotina normal de sala de aula. Aprende, Marta!
      Depois, a saída... É pá! Serei só eu que vejo o perigo em todo o lado ou é efectivamente uma enorme responsabilidade acompanhar crianças para o exterior? Não é por nada, mas era uma feira em que havia...
... exposição de armas, munições, palaçoulos (nada mais nada menos que facas de vários tamanhos e feitios), canas, caninhas e anzóis, máquinas agrícolas de apanha de castanha....uff! A mim só me ocorria que não fosse um deles magoar-se num daqueles objectos e aparecermos no dia seguinte nos telejornais pelos piores motivos...
      Enfim, depois de rapinarem tudo o que eram panfletos informativos de tudo o que era banca,
("ó lilizinha, para que queres tu tanta papelada, linda! É  só lixo!" ; "Não, não tixér, é informação!" )
 depois de delirarem com a pesca num tanque gigante, tipo aquário-parede onde se acedia através de uma escada, à volta da qual se engalfinhavam para serem escolhidos para a pescaria...
      As aves de rapina fizeram a alegria da criançada e conseguiram sair ilesas da nossa visita.  (sim, ilesas, elas, as aves) Quero dizer, a certa altura temi pela penugem da coruja e jurava que o abutre mirava os nossos alunos com o maior ar de clemência que alguma das suas presas alguma vez lhe deitou.
      Enfim, sobrevivemos à experiência. Todos. A mais depenada, talvez eu, desejosa de meter a ninhada, de novo, sã e salva no ninho seguro da sala de aula.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Luto

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Fiz o luto da morte da minha mãe numa biblioteca pública. 
Não há nada de romântico no que acabo de dizer escrever. Foi exactamente assim que aconteceu.
Numa tarde de outono, presa ao texto, nó na garganta, olhos ensopados, a carpir abrigada e abraçada por estantes.
Todas as lágrimas que não verti nas cerimónias fúnebres se purgaram ali, num cantinho, ao fundo, de livro na mão. 
Era para corrigir testes. Peguei no "Morreste-me" do Peixoto e li-o de uma assentada, baba e ranho. Estava tudo ali. A doença. A indignação. A raiva. A dor da perda.  A consternação. A ausência. O abalo que a orfandade trás à nossa identidade. A Saudade.
Eu não sabia que (ainda) trazia tudo aquilo cá dentro. Eu tinha apenas ido corrigir testes. Já tinham passado dois anos; a minha vida prosseguira - com o que eu considerava ser uma boa alcatifa de resignação da minha parte. Havia que prosseguir. Cuidar dos filhos. Responder às exigências da profissão; dedicar-me aos alunos. Apagar alguns fogos (metafóricos) em vidas que me são próximas. Seguir em frente. Ser como ela. 
Naquela tarde estava apenas a fazer isso mesmo - a levar a vida para a frente, a bulir. Havia-me refugiado ali para ser mais produtivo o trabalho. Não contava com aquilo.

Ler é transversal à minha existência. Em muitos momentos da minha vida o amor aos livros me ajudou a encontrar-me, a compreender-me e a reconciliar-me comigo própria.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Casal Desavindo

Resultado de imagem para when you feel like quitting thinkA frase surgiu-me num qualquer site de motivação fitness, mas desde então ressoa-me verdades em vários aspectos para além da manutenção da forma física. 

Quando te apetecer desistir,
pensa naquilo que te fez começar

Aplica-se, como todas estas frases citáveis e generalistas, a muitas outras situações e adversidades da vida. Nomeadamente às relações pessoais.

No outro dia vi-vos tão descasados, tão desavindos, tão magoados, tão de costas viradas, que me lembrei de vo-la dizer. Por isso, escutem-me, casal desavindo.
Aqui vai.

Não se agridam mais. Deixem-se de ironias, de boquinhas, de ressabiamentos. Isso não vos leva a lado nenhum. A única linguagem que vale a pena concretizar é a do amor. Mesmo quando ele está a acabar, mesmo quando está por um fio. Precisamente porque está por um fio. Respeitem o que vos uniu, nalgum momento. Respeitem o que vos encantou um no outro. Houve alturas em que aquela pessoa que agora vos é tão hostil era o vosso mundo. O tudo. Lembrem-se das qualidades que vos atraíram um ao outro. A vida deu voltas? Cambalhotem um com o outro, não um contra o outro. Ninguém tem culpa das voltas que a vida dá. Dêem-nas juntos, não se empurrem. Não se acusem. Unam-se. 
Apetece desistir? Pensem no que vos levou a começar. É a máxima de um maratonista, pode ser também a vossa. O casamento é uma corrida de fundo. Qualquer um faz um bom sprint inicial. O pior vem depois. O cansaço, o esgotamento, a desmoralização mental. Todos os maratonistas pensam em desistir. O que distingue os campeões é que resistem, mantêm-se fieis a um objectivo - focados, não obstante as tonturas, as pernas trementes, as bolhas nos pés, o corpo a querer desfalecer. Comprometidos com o seu sonho. Tal como a corrida, o casamento também é um compromisso. Exige, como na maratona, resistência, perseverança, nervos de aço, determinação, resiliência. O maratonista supera-se a si próprio. Já o fizestes?
Vi-vos assim desamados e ressentidos e quis poder sarar-vos, reconciliar-vos. Entristeceu-me. Acho sempre tão triste um amor desperdiçado.
Quereis que vos recorde o que vos fez começar? Era divertido estarem juntos, achavam-se mutuamente lindos e inteligentes, queríeis criar uma família que fosse a razão de ser do vosso viver. A mim parece-me que, no que é fundamental, nada gorou. Por tudo isso, amigos, voltem ao princípio. Centrem-se no que é fundamental e deixem-se de balelas. 
Reset love!