sábado, 9 de julho de 2016

Montanhista

Furtada absolutamente sem autorização ao grande montanhista António Coelho!


“It is not the mountain we conquer, but ourselves.” —Edmund Hillary*


Toda a gente tem um percurso a cumprir na vida.
O meu é na vertical.

Escalar não é subir uma montanha;
é fazer parte dela!

Percorrer-lhe as entranhas
pés-pedra
mãos-rocha

pulmões de vento e cérebro de luz.
Sentir as veias rugosas  da rocha
na palma das mãos
Batimentos cardíacos sincronizados
- os meus e os dela.

Quando um homem se encontra consigo próprio,
a montanha faz eco do que trazemos cá dentro
sussurra-nos  mistérios, desafios, superações
gigante caixa de ressonância
dos nossos
mitos
medos
e
bravuras.

Mesmo quando,
Particularmente quando,
Lá em cima
O corpo ameaça sucumbir
O nariz não consegue inalar
O cérebro demora a processar
Sabes, montanhista,
que é aí
só aí
que queres estar!

Não há sobranceria,
nem vaidades vãs,
nem soberba
no cume ardiloso e gélido.
Só:
respeito
humildade
e gratidão.
Pertença.
Sentido.

Trilhos que outros percorreram antes de nós
Caminhos por onde outros nos seguirão as passadas.
Vê-se um homem a braços,
literalmente a braços,
com o seu lugar no ínfimo espaço de tempo
e espaço de espaço
a ocupar...

Viver é escalar.






*Edmund Hillary foi um alpinista e explorador neozelandês, famoso principalmente pela primeira escalada bem sucedida do Monte Everest. Ele e o guia sherpa Tenzing Norgay atingiram os 8850 metros do cume em 29 de maio de 1953. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Edmund_Hillary)
 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Olhar fatal




 
Ela
atónita 
a olhar para ele, 
que, em vez de atravessar na passadeira, 
se lhe tinha atravessado em frente ao carro, 
no meio da via, 
a desfilar o modelito 
de fato-e-gravata-para-a-entrevista-do-primeiro-emprego.

Ele, 
inflado,
a transpirar pompa no garrote do colarinho,
óculos de sol matadores, 
a olhar para ela
Está a olhar para mim!
Não me resiste! 

Não deu tempo de travar.
Quem não resistiu foi ele.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Saudade

 
A saudade mói a quem ama ou quem amou.


A mim assalta-me em sonhos, porque de dia não permito que me assole o quotidiano de obrigações e rotinas. Há que rolar.

A saudade mói por dentro e por fora.
Envelhece. Traz-nos rugas, olhos raiados, papos por baixo deles e cabelos brancos.
Endurece o coração de alguns.
Envinagra as relações de quem não lhe toma as rédeas.
Impede de ser feliz quem se lhe ancora.

E todavia nos exacerba e sublima. Permite-nos ser grandes. Ter essência. Dar valor.

Tudo porque a saudade é a impressão digital do amor. Gravada na nossa memória a provar que existimos.Uma benção de humanismo. Um traço distintivo do ser humano.

Que a saudade nos guie nos afectos que ainda existem.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta ao adolescente filho de uma amiga minha!

 

Ouve lá, lindo!

Tu não te atrevas a falar nesse tom à tua mãe, ouviste?
Nem a bufar para o lado, nem a rebolar os olhinhos de impaciência... e quanto a sarcasmo... és caloiro; a tua mãe é doutorada! Fedelho! Pensas que te safas? Hoje vais ouvi-las! Que mais me importa que me chames chata ou me consideres cota!

Da próxima vez que te impacientar a ternurinha da mãezinha, lembra-te que te carregou no ventre, que lhe rasgaste as entranhas para vir ao mundo, que passou noites em claro quando estavas com febre, que te amparou para conseguires andar de bicicleta, e nadar, e comer com talheres, e apertares os atacadores!Os atacadores, caramba!

E lembra-te das vezes que te comprou aquelas calças de marca, ou te levou ao circo, ou te pagou o futebol. Pensa que não as comprou para ela, que não foi à sessão seguinte e que não se inscreveu no ioga. Porque eras TU a prioridade. Um pouco de gratidão não te ficava mal...

Por tudo isso, esquece lá os suspiros dramáticos...

Ela NUNCA vai desistir de fazer de ti um ser humano melhor.

Sem dúvida que ela te faz a vida negra...
Podia deixar-te fazer tudo o que te apetece, não era?

Passar o dia sem fazer nenhum, comer porcarias em todas as refeições, passar horas a mandar SMS para os teus amigos, siderar na playstation, ver televisão até tombar. Podia deixar que não mexesses uma palha para ajudar em casa, que não fizesses trabalhos de casa ou que vegetasses na selva imunda a que chamas quarto. Era ela permitir que saísses todas noites até altas horas com os amigos, que faltasses à escola, que não dormisses, que faltasses ao respeito aos adultos, que dissesses todas as barbaridades que te vêm à tola, que fosses um mau cidadão! Deixar que andasses de cuecas pela casa o dia todo, que praguejasses por tudo e por nada, que te queixasses da comida, de levar o lixo ou da prova de inglês!

Mas NÃO!

É assim que é boa mãe!A chagar-te o juízo a toda a hora, para que cresças, para que dês o melhor de ti próprio, para que sejas maior por dentro e acompanhes o corpo que te ultrapassou.

Porque ela está a cumprir brilhantemente o seu papel, ó cromo!
Ser a melhor mãe do mundo.
Para tal tem de se assegurar que és respeitador e tolerante. Mostrar-te como é ter boas maneiras. E ensinar-te a não desistir e a empenhares-te ao máximo quando as coisas são difíceis! Ajudar-te a comunicar as tuas emoções sem magoar os outros! Exigir-te que sejas o melhor aluno que conseguires. Não é o melhor da turma, é o melhor de ti! Ensinar-te a ser o melhor ser humano que conseguires ser!
Percebeste? Ela está a cumprir o seu papel com afinco.
E tu? Estás a cumprir o teu?

 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Vidros Foscos


A maior parte das pessoas tem
a
doce
ilusão
que os vidros dos automóveis são impermeáveis aos olhares externos.
Só pode!
Só assim se explica que elas façam beicinho para retocar o batom no espelho da pala, enquanto o semáforo não avança.
E que eles tirem macacos do nariz compulsivamente, na fila para entrar na rotunda.
(Um vice-versa ficava bem aqui, mas embora não seja impossível, parece-me ainda bastante infrequente os homens retocarem a maquilhagem no trânsito... mas, se calhar, é porque vivo em Bragança; talvez em Las Vegas ou Tóquio seja diferente!)

Também supõem que, dentro do carro, são inaudíveis.
 "Queres-te calar, caralho? Mas tu queres mesmo fechar essa boca sua puta?" Não é propriamente stand up comedy no Coliseu...


Do que se depreende que, dentro do veículo, pensamos que não nos conseguem ouvir. De outra forma, por que razão esticam o pescoço janela fora para proferir impropérios, quando pretendem insultar a velhinha em contra-mão? Porque consideram que o habitáculo os insonoriza...

Ou não. Será exactamente o contrário?

De volante na mão, como debaixo do chuveiro, como no Karaoke, todos cantam.
Na estrada, no entanto, soltam-se mais livremente os pavarottis e as rhianas mais insólitos, sob o escudo dos vidros cerrados ou mesmo abertos. Stars do asfalto.

E acho bem. Só alerto, por experiência própria, que conduzir não se coaduna com um belo dum faduncho... é que um gajo cerra os olhinhos de emoção e o fado pode-se tornar fatal como o destino!

Brexit

Não esperávamos que a Grã-Bretanha saísse da Comunidade Europeia assim num fôlego. 

Não valem de nada os argumentos ah e tal foi sem-querer, não sabiam bem no que votavam, foi engano, não era bem assim. 

Está feito. 

E com isto receio o que virá. Uma Europa que se prevê desagregar-se ainda mais, com mais Estados Membros a desejarem cisão, um Reino Unido que deixará de o ser, por uma Irlanda e um País de Gales a puxarem a brasa à sua sardinha  e sentimentos regionalistas e xenófobos a ganharem terreno. 

Preocupa-me o que tudo isso poderá vir a significar em termos civilizacionais e humanitários.